Ponto de vista
Sobre rancor e perdão
Adilson Luiz Gonçalves
Conheço pessoas que têm uma infinita capacidade de perdoar o mal que lhes fazem e ainda cultivarem cordialidade amistosa com quem os ofendeu ou prejudicou.
São “mahatmas”, grandes almas, que merecem meu profundo respeito.
Às vezes eu relevo, me distancio, mas não consigo esquecer, na mesma proporção em que não suporto a hipocrisia de quem tenta se reaproximar sem sincero arrependimento, e que seguramente reincidirá na primeira oportunidade.
Gente que cobra, mas não sabe retribuir; que quer plateia, mas não sabe aplaudir; que, quando o sucesso não é seu, ignora ou diz: “Que bom para você”.
Consta que o pastor Billy Graham foi procurado por um homem que afirmou ter dificuldade para perdoar e pediu-lhe conselho sobre como agir.
O pastor não usou frases feitas nem o admoestou. Pediu-lhe um tempo para pensar.
Quando voltou a encontrá-lo, Graham lhe disse que a solução seria pedir perdão a Deus por não conseguir perdoar.
O problema é que o rancor faz mal ao espírito e ao corpo. Seu exercício continuado, cultivado, torna as pessoas amargas, potencializa doenças, prejudica as relações até com pessoas que nada têm a ver com a origem do rancor.
Um amigo, que também considero um “mahatma”, ao conversarmos sobre esse assunto, fez uma analogia com a química orgânica:
Ele ponderou que o prefixo “per”, nas denominações de compostos, significa um ou mais átomos de oxigênio. Em alguns casos, isso pode ser explosivo, mas o sentido era de potencializar resultados.
Parafraseando uma música de Frejat, são dois lados de uma mesma moeda, com valores diferentes: o perdão é lucro, enquanto o rancor é uma dívida que nos auto-impomos.
Em seguida, ele falou do verbo “doar” e, olhando para mim, comentou: “Imagine ‘per’doar!”.
Porém, não é fácil “per”seguir e assumir esse entendimento. Por isso, a sugestão de Billy Graham seja uma espécie de consolação.
Dizem que errar é humano, perdoar é divino. Também falam que persistir no erro é burrice, mas também pode ser um problema de índole.
No trato com pessoas, esses erros de convivência revelam arrogância, estupidez, megalomania e outros defeitos de quem se acha superior ao semelhante.
Este, dificilmente se considerará errado. E, mesmo que receba a bênção do perdão alheio, em nada mudará. Talvez se sinta mais seguro em “per”sistir no erro, sabendo que sempre será perdoado.
Parafraseando uma música de Frejat, são dois lados de uma mesma moeda, com valores diferentes: o perdão é lucro, enquanto o rancor é uma dívida que nos auto-impomos.
A parábola bíblica do Semeador também é pertinente, se considerarmos que o perdão sincero é como as sementes lançadas em terra boa e o rancor é como as que, caindo entre espinhos, por eles são sufocadas.
Perdoar é um desafio, sobretudo quando o ato de oferecer a outra face é o incentivo que o ofensor deseja, ou configura uma “síndrome de Estocolmo”.
O fato é que o rancor sequestra a vida, enquanto que o perdão a resgata.
No entanto, nem sempre é fácil perdoar.