As artes ensinam inclusão e democracia | Boqnews

Ponto de vista

6 de julho de 2026

As artes ensinam inclusão e democracia

André Naves

No início dos anos 2000, um grave acidente de carro me atirou em uma ribanceira, mergulhando-me em um longo coma.

O processo de recuperação, feito de terapias e tratamentos, estende-se até hoje. Desse leito de hospital, porém, extraí a maior de todas as lições: a superação nunca é um ato solitário.

Percebi, na própria pele, que qualquer construção humana só ganha contornos reais no coletivo.

Essa constatação íntima reflete a essência do nosso projeto civilizatório: a Democracia.

Após os anos sombrios da ditadura, o Brasil engajou-se em um esforço imenso de concertação social.

O cartunista Henfil capturou isso genialmente ao desenhar pessoas de todas as cores, idades e formas repigmentando juntas a nossa bandeira. Instituímos ali o Estado Democrático de Direito.

É preciso lembrar sempre: democracia não é a ditadura da maioria, mas a vontade da maioria que respeita a Dignidade dos grupos minorizados, visando a concretização e o aprofundamento dos Direitos Humanos.

Direitos Humanos, diferentemente do propalado pelo senso comum, não constituem o mínimo para sobreviver.

Como cantaram os Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Eles representam a vida em plenitude, a liberdade com responsabilidade, a simetria de oportunidades e a segurança (alimentar, sanitária, educacional…) necessária à autonomia individual e coletiva.

Para que esses deveres e direitos saiam do papel é preciso mobilização social, construção coletiva de políticas públicas.

O Brasil deu um passo histórico ao internalizar como parte integrante da Constituição Democrática, a Convenção de Nova York sobre a Inclusão. No mesmo sentido, criou a Lei Brasileira de Inclusão.

O paradigma mudou. A pessoa com deficiência não é aquela que “tem” uma falha, mas a que esbarra diariamente nas barreiras de uma sociedade excludente. Todos nós possuímos características ímpares. A deficiência só nasce quando essas individualidades colidem com um ambiente hostil.

E a pior dessas barreiras não é o degrau sem rampa, mas o preconceito atitudinal que invisibiliza o outro.

A literatura e a cultura pop ilustram isso com clareza. Em O Corcunda de Notre Dame, a exclusão mais cruel não recaía sobre Quasímodo, mas sobre Esmeralda, marginalizada por ser cigana.

Em A Bela e a Fera, Bela era rechaçada por querer ler e ser protagonista, recusando o papel de coadjuvante bela, recatada e do lar.

A princesa Fiona, de Shrek, precisou assumir a forma de ogra no pântano para encontrar a liberdade de ser a guerreira que desejava.

A verdadeira inovação e a prosperidade sustentável nascem da diversidade. Eliminar barreiras não é um ato de caridade, é uma construção civilizatória de sobrevivência democrática.

Até o elefante Dumbo só consegue voar quando é acolhido pelos corvos — que, na obra original, representavam a população negra do sul dos EUA, outro grupo historicamente excluído.

Dumbo voa porque encontra apoio naqueles que também conheciam a dor da exclusão. Ele supera a barreira através da coletividade.

No extremo oposto está Narciso, retratado com maestria por Caravaggio. Na pintura, as sombras engolem o entorno, e apenas o reflexo do jovem na água é iluminado.

Narciso não vê se está à beira de um abismo; ele só enxerga a si mesmo. Ao transformar sua individualidade em individualismo e recusar-se a dar as mãos ao coletivo, ele encontra apenas a solidão e a morte.

Vivemos uma era de revolução tecnológica sem precedentes. Como alertou Carlos Drummond de Andrade em O Homem e as Viagens, o ser humano vai à Lua, domina a engenharia, mas ainda tem imensa dificuldade de conviver com o seu irmão.

Passamos séculos tentando nos robotizar; a urgência de hoje é nos humanizarmos.

Precisamos, como dizia o cronista Rubem Alves, de cursos de “escutatória”. Enxergar e escutar o outro não são atos físicos, são atos da alma.

Exigem a “visão além do alcance” dos Thundercats. Enxergar: ver com a alma, com o coração, com a sensibilidade.

Gosto de acreditar na lenda de que Beethoven, já mergulhado na surdez e conhecido por seu temperamento casmurro, tinha uma terna amizade com uma jovem vizinha cega. Quando ela pediu que ele compusesse algo para que pudesse “enxergar o luar”, ele escreveu a Sonata ao Luar com os olhos do coração.

E foi sonhando com as musas, naquela noite, que ele encontrou a inspiração para a Nona Sinfonia — o hino definitivo da humanidade unida, de mãos dadas.

A verdadeira inovação e a prosperidade sustentável nascem da diversidade. Eliminar barreiras não é um ato de caridade, é uma construção civilizatória de sobrevivência democrática.

O sábio Hillel já questionava na antiguidade: “Se eu não for por mim, quem o será? Mas se eu for só por mim, o que serei eu? E se não agora, quando?”.

A construção de um Brasil inclusivo e justo é responsabilidade de todos nós. O momento de estender a mão e voar juntos é agora.

(*) André Naves é Defensor Público Federal especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, Mestre em Economia Política, Comendador Cultural, escritor e professor. Saiba mais em www.andrenaves.com ou em suas redes sociais @andrenaves.def.

 

André Naves
André Naves, Defensor Público Federal especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, Mestre em Economia Política, Comendador Cultural, escritor e professor. www.andrenaves.com - redes sociais: @andrenaves.def.
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.