Solo vivo, água e floresta: conexão estratégica para o país | Boqnews

Ponto de vista

13 de julho de 2026

Solo vivo, água e floresta: conexão estratégica para o país

Lívia Baldo

O Brasil precisa fortalecer a compreensão de que as florestas exercem um papel muito mais amplo do que compor a paisagem natural.

Em cada bioma, elas sustentam a infraestrutura hídrica, influenciam a dinâmica econômica e contribuem para o equilíbrio ecológico.

Em um cenário de agravamento das mudanças climáticas, o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, reforça a importância de avançarmos em ações práticas e integradas voltadas à preservação ambiental, à recuperação de áreas degradadas e ao uso sustentável dos recursos naturais.

É necessário reconhecer uma relação fundamental da dinâmica ambiental: sem floresta não há chuva e sem chuva não há sustentabilidade ambiental e econômica.

Essa equação elementar da natureza exige integrar, no mesmo fluxo, o manejo florestal, a restauração de áreas degradadas e o mercado de créditos de carbono, articulando políticas públicas e ações efetivas do setor privado.

Os dados mais recentes reforçam a dimensão do desafio. Estudo publicado em 2025 pela revista científica AGU Advances aponta que a perda média de 3,2% da cobertura florestal na Amazônia brasileira esteve associada a uma redução de 5,4% da precipitação na estação seca.

Ou seja, menos floresta significa menos chuva justamente quando a água já é escassa.

Apesar dos avanços observados em alguns indicadores, os índices de desmatamento ainda permanecem elevados.

Em 2025, a Amazônia perdeu 5.731 quilômetros quadrados de vegetação, ligeiramente abaixo da estimativa preliminar de 5.796, mas ainda alarmante.

No Cerrado, a devastação alcançou 7.235 quilômetros quadrados, com recuo de 11,49% em relação ao período anterior, o que está longe de configurar avanço estrutural.

O cenário reforça a importância de medidas mais eficazes de fiscalização, o combate rigoroso à grilagem e à exploração ilegal, além de políticas consistentes de economia verde e conscientização das comunidades.

Não estamos falando apenas de proteger a natureza, mas de fortalecer as bases materiais da economia, a inclusão social e o crescimento sustentado do PIB, bem como de reverter as mudanças climáticas e suas consequências cada vez mais graves.

Porém, conter o desmatamento é apenas parte da equação. O Brasil carrega um passivo florestal expressivo e precisa enfrentá-lo com pragmatismo e eficácia.

A restauração de milhões de hectares degradados em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e reservas legais é indispensável, até porque solos deteriorados não sustentam florestas.

Segundo o Boletim do Termômetro do Código Florestal 2024-2025, o nosso país apresenta um déficit de 3,14 milhões de hectares em APPs e de 17,3 milhões de hectares em reservas legais.

É um descompasso expressivo entre o que a lei determina e o que a realidade entrega.

Avançar exige abandonar abordagens fragmentadas e reconhecer a interdependência entre floresta, água e clima.

Esses elementos formam a espinha dorsal tanto do meio ambiente quanto da própria infraestrutura econômica.

Nesse contexto, a agenda hídrica ganha protagonismo e acende um sinal de alerta ao mercado: a gestão de efluentes precisa deixar de ser encarada como mera obrigação legal e passar a ocupar o centro das estratégias empresariais, seja pelo tratamento adequado e devolução de água limpa aos mananciais, ampliando a segurança hídrica, ou pela conversão desses resíduos em insumos orgânicos que retornem ao ciclo produtivo, contribuindo para a recuperação, o equilíbrio físico-químico e a fertilização do solo.

Há exemplos concretos de que esse caminho é viável. Em Jundiaí (SP), o tratamento de efluentes industriais e sanitários contribui com a renovação do ciclo d’água e transforma o lodo remanescente em fertilizantes orgânicos, por meio de compostagem em larga escala.

Ao reinserir esses resíduos de forma produtiva no solo, a iniciativa melhora suas propriedades e ainda contribui para a redução das emissões de gases de efeito estufa, alinhando-se às metas da agenda ambientalis.

Mais do que um caso isolado, trata-se de uma demonstração prática de que fortalecer a base do sistema, o solo, é condição para que as infraestruturas florestal e hídrica prosperem de modo sustentável em cada bioma.

Ao atuarem na regeneração da terra e na recirculação de resíduos, iniciativas proativas ajudam a reconectar os fluxos essenciais entre solo, água e carbono, indo além da simples gestão dos efluentes.

Cabe lembrar que a natureza obedece a uma lógica imutável: sem solo vivo e rico em matéria orgânica não há floresta funcional; sem água não há equilíbrio e tampouco produção. Tudo está interligado e conectado.

A boa notícia é que essa consciência começa a ganhar espaço no mercado. A má é que ainda avançamos em ritmo insuficiente.

Assim, é preciso acelerar, de modo integrado, a preservação florestal, o combate ao desmatamento, a recuperação de áreas degradadas, a expansão do tratamento de efluentes e o reaproveitamento de resíduos orgânicos capazes de manter o solo funcional e a terra viva.

Afinal, não estamos falando apenas de proteger a natureza, mas de fortalecer as bases materiais da economia, a inclusão social e o crescimento sustentado do PIB, bem como de reverter as mudanças climáticas e suas consequências cada vez mais graves.

Que o Dia Mundial do Meio Ambiente inspire nosso país nessa inadiável e vital jornada.

Lívia Baldo
Lívia Baldo, especialista em gestão de resíduos, é diretora da Tera Ambiental.
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

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