Ponto de vista
Novas tarifas dos EUA: incerteza virou regra no comércio internacional
Rodrigo Zanethi
Durante muitos anos, empresas e governos trabalharam com uma premissa relativamente segura: as regras do comércio internacional eram previsíveis e eventuais conflitos seriam resolvidos dentro das instituições criadas justamente para esse fim, como a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Essa lógica ajudou a impulsionar o crescimento do comércio mundial, estimulou investimentos e permitiu que empresas planejassem suas operações com relativa segurança.
Hoje, porém, o cenário é outro.
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros são mais do que uma decisão econômica. Elas refletem uma transformação profunda nas relações internacionais, em que interesses geopolíticos, segurança nacional e estratégia econômica passaram a caminhar juntos.
Em outras palavras, o comércio internacional deixou de ser apenas uma questão de mercado.
Passou a ser também uma ferramenta de política internacional.
E, a principal consequência dessa mudança é que a previsibilidade diminuiu.
Durante décadas, a estabilidade foi a regra e as crises eram exceções. Agora, a lógica parece ter se invertido. A incerteza passou a ser a única certeza no comércio internacional.
Mudanças tarifárias repentinas, sanções econômicas, conflitos internacionais e decisões políticas passaram a influenciar diretamente contratos, investimentos, cadeias logísticas e o planejamento de empresas em todo o mundo.
E ninguém deve imaginar que esse seja um problema distante da nossa realidade.
O Porto de Santos, responsável por aproximadamente um terço da corrente de comércio brasileira, sente rapidamente qualquer alteração relevante no fluxo internacional de mercadorias, pois se exportadores adiam embarques, compradores renegociam contratos ou armadores reorganizam suas rotas, toda a cadeia logística é impactada.
Transportadoras, operadores portuários, terminais, armazéns, despachantes aduaneiros, agências marítimas e inúmeras empresas que dependem do comércio exterior acabam convivendo com um ambiente muito mais instável.
Foi justamente diante dessa nova realidade que o Brasil aprovou a Lei da Reciprocidade Econômica (Lei nº 15.122/2025).
Ao contrário do que muitos imaginam, a norma não foi criada para incentivar uma guerra comercial.
Seu propósito é outro: oferecer ao Estado brasileiro instrumentos para proteger os interesses nacionais caso medidas unilaterais adotadas por outros países prejudiquem a competitividade das empresas brasileiras.
Mais do que uma autorização para reagir, a lei representa um fortalecimento da posição do Brasil nas negociações internacionais.
Afinal, em qualquer negociação, possuir instrumentos jurídicos claros aumenta a capacidade de diálogo e reduz a vulnerabilidade do país diante de decisões externas.
O Porto de Santos, responsável por aproximadamente um terço da corrente de comércio brasileira, sente rapidamente qualquer alteração relevante no fluxo internacional de mercadorias, pois se exportadores adiam embarques, compradores renegociam contratos ou armadores reorganizam suas rotas, toda a cadeia logística é impactada.
Naturalmente, qualquer medida deverá respeitar os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil e observar os princípios do comércio internacional.
O objetivo deve ser preservar a competitividade nacional sem abrir mão da tradição brasileira de buscar soluções por meio do diálogo e da cooperação.
Ao mesmo tempo, esse cenário exige uma mudança de postura.
O Brasil não controla as decisões tomadas por outras nações, mas pode fortalecer sua capacidade de resposta.
Isso significa ampliar mercados para nossos produtos, investir em infraestrutura logística, reduzir custos operacionais, modernizar ainda mais nossos portos e tornar o ambiente de negócios cada vez mais competitivo.
As empresas também precisarão conviver com uma nova realidade. Além dos riscos cambiais, tributários e logísticos, passaram a fazer parte do planejamento os chamados riscos geopolíticos.
Uma decisão tomada em Washington, Bruxelas ou Pequim pode produzir reflexos imediatos sobre uma indústria no interior paulista, uma cooperativa agrícola, uma transportadora ou uma operação no Porto de Santos.
Essa talvez seja a maior lição deixada pelos acontecimentos recentes.
O comércio internacional continua sendo um dos principais motores do desenvolvimento econômico, mas passou a funcionar em um ambiente muito mais complexo e imprevisível.
Quem compreender essa mudança estará mais preparado para enfrentar os desafios do futuro.
Porque, gostemos ou não, a estabilidade que marcou boa parte das últimas décadas ficou para trás.
No comércio internacional do século XXI, a incerteza deixou de ser uma exceção.
Ela passou a ser a regra.