Ponto de vista
A cidade entre nós: o barulho da vida
Alessandro Lopes
O barulho da escola incomoda moradores, o movimento da lanchonete perturba os apartamentos, fechar a orla para uma corrida desagrada quem passa de carro, um show no bairro tira o sono, crianças brincando na rua incomodam, o churrasco entre amigos vira pauta de condomínio.
O apito do navio incomoda, o trem incomoda, a música e a festa incomodam, a infância, quando faz barulho, também.
A cidade está chata, ou talvez sejamos nós que tenhamos perdido a paciência necessária para viver entre pessoas.
É claro que ruído excessivo faz mal, o direito ao descanso é parte da civilização, mas existe diferença entre conter o abuso e desejar que a cidade inteira se comporte como uma sala de espera, onde qualquer sinal de vida parece inadequado.
Há pessoas mais sensíveis, idosos, crianças pequenas, trabalhadores em turnos, doentes, para quem determinados sons pesam mais, e uma cidade humana não ignora esse sofrimento, apenas não o transforma em argumento para apagar toda forma de convivência.
Toda cidade viva tem uma música própria, há a bola no chão, a conversa na calçada, o vendedor chamando, o sino, o motor, a gargalhada na varanda, o apito do porto e o ferro do trem, sons que nem sempre agradam, mas revelam quem somos e onde vivemos.
Quando toda manifestação da vida alheia começa a incomodar, o problema talvez já não esteja no volume da cidade, talvez esteja no silêncio que fizemos crescer dentro de nós.
O incômodo não nasce apenas do volume, cresce quando o som é inesperado, repetitivo e foge ao nosso controle, e a cidade, por definição, é feita do que não controlamos, é o lugar onde a vida dos outros atravessa a nossa, com delicadeza ou sem pedir licença.
Talvez o problema comece quando deixamos de perguntar “está alto demais?” e passamos a pensar “por que essas pessoas estão aqui?”.
Queremos escolas, mas não seus recreios, restaurantes, mas não seus clientes, eventos, mas longe de casa, defendemos os espaços públicos, desde que o público não apareça em excesso, celebramos a cidade vibrante nos discursos e, na prática, esperamos que ela permaneça bonita, organizada e em silêncio.
Só que cidade sem ruído nenhum não é cidade, é maquete.
Conviver exige limites, horários, planejamento e fiscalização, mas exige também algo mais raro, reconhecer que o outro tem o mesmo direito de existir na cidade.
O direito ao descanso e o direito à alegria precisam morar no mesmo endereço.
Quando toda manifestação da vida alheia começa a incomodar, o problema talvez já não esteja no volume da cidade, talvez esteja no silêncio que fizemos crescer dentro de nós.