Ponto de vista
FEBEAPÁ
Adilson Luiz Gonçalves
Essa é a sigla cunhada por Sérgio Marcus Rangel Porto ou, simplesmente, Sérgio Porto, que também usava o codinome Stanislaw Ponte Preta, cronista, escritor, radialista, comentarista, teatrólogo, jornalista, humorista e compositor carioca, dos bons tempos do Rio de Janeiro, então Estado da Guanabara.
Ela é a síntese de Festival de Besteiras que Assola o País, e intitulou trés de seus livros, publicados entre 1066 e 1968.
Poderiam ter sido mais, pois ele nos deixou muito cedo, aos 45 anos, em 1968, vítima de um infarto.
Esses livros eram coletâneas de crônicas publicadas no jornal Última Hora, nas quais criticava, com humor, o que ocorria no Brasil, abrangendo tanto o momento político como aspectos da sociedade carioca.
A crônica é interessante por retratar aspectos do cotidiano. No entanto, ela pode ficar “datada”, justamente em função disso, mas a torna um “retrato” de um contexto.
Se tivesse vivido um pouco mais, as crônicas de Sérgio Porto abordariam as besteiras que continuaram e continuam a assolar o Brasil, um festival que tem mantido nosso país atrasado, preso a um passado que não quer passar, onde o bastão do revesamento da inconsequência foi passado para o corredor de outra raia, que não faz de tudo para não retribuir a “gentileza”.
Não importa de quem parta, besteiras sempre potencializam resultados negativos.
A ironia sempre foi a matéria-prima dos bobos da corte, os únicos que tinham licença para criticar a nobreza sem perderem a cabeça.
Quem ousasse falar a sério não tinha a mesma sorte.
O problema é que, atualmente, até quem ironiza corre riscos. Pode ser estigmatizado, hostilizado ou “cancelado” por meios “democráticos” claramente com dois pesos e duas medidas.
Os cronistas que se mantêm fiéis a princípios éticos e compromissos com a verdade ao abordar temas sensíveis, alertando sobre suas consequências, não têm tido vida fácil nos tempos atuais.
Há algum tempo, retratar o cotidiano, ironicamente ou não, tornou-se perigoso.
Questionar quem tem poder, institucional ou privado, pode ter consequências trágicas, pois a liberdade de expressão tem sido seletiva.
Porém, esse recurso também serve para se aproximar de poderosos e gozar de suas benesses.
Os cronistas poderiam ser assemelhados aos influenciadores atuais: há os que flertam com o status quo e os que criticam, na expectativa de serem acolhidos pelos poderosos, abandonando a crítica a partir de então.
Os cronistas que se mantêm fiéis a princípios éticos e compromissos com a verdade ao abordar temas sensíveis, alertando sobre suas consequências, não têm tido vida fácil nos tempos atuais.
O cotidiano que narram pode ser sentenciado como preconceituoso, anacrônico ou politicamente incorreto pelos que se sentem incomodados, gerando reações institucionais que vão da “desmonetização” ao encarceramento, acusados por “crimes de opinião”, com base em interpretações tendenciosas. Isso sem falar em perseguições e agressões, verbais e físicas, e no cerceamento de acesso a entidades públicas.
A liberdade de expressão parece seletiva.
Talvez a mais conhecida música que compôs: “Samba do Crioulo Doido” (1966), magistralmente gravado pelo saudoso Quarteto em Cy, exemplificasse o contexto atual ou, como outras antigas composições, fosse considerada ofensiva em múltiplos aspectos.
Como seriam as crônicas de Sérgio Porto, hoje?
Caso mantivesse sua verve irônica ao cronicar o cotidiano político e social do país, talvez não tivesse mídia que aceitasse publicar seus textos, por alinhamento com os poderosos, ou medo de retaliações.