Região Metropolitana da Baixada Santista completa 30 anos com desafios comuns | Boqnews
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1 de agosto de 2026

Região Metropolitana da Baixada Santista completa 30 anos com desafios comuns

Primeira região metropolitana criada fora de uma capital no Brasil completa três décadas com avanços em mobilidade, saneamento e meio ambiente, mas ainda enfrenta desafios históricos

O Governo de São Paulo criou a Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS), em 30 de julho de 1996, reconheceu uma realidade que já existia: os nove municípios da região compartilhavam problemas, oportunidades e desafios que ultrapassavam os limites administrativos de cada cidade.

Naquele momento, a região reunia cerca de 1,5 milhão de habitantes. Trinta anos depois, a população se aproxima de 2 milhões de moradores, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda assim, durante a temporada esse número praticamente dobra, aumentando a pressão sobre transporte, abastecimento de água, saneamento, saúde e mobilidade.

Ao longo dessas três décadas, a região deixou de ser apenas um destino turístico e consolidou-se como um dos principais polos econômicos do país. Ao mesmo tempo, antigos desafios permanecem. A mobilidade ainda depende principalmente das rodovias, a drenagem urbana exige novas soluções diante das mudanças climáticas e o saneamento continua demandando grandes investimentos.

Mesmo assim, a Baixada vive hoje o maior ciclo de investimentos de sua história. Entre obras concluídas, projetos em execução e empreendimentos planejados, a carteira reúne bilhões de reais para transformar a infraestrutura regional nas próximas décadas.

Integração

A criação da RMBS surgiu para permitir que os municípios enfrentassem problemas comuns de forma conjunta.

Para coordenar essas políticas, o Governo do Estado criou o Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Baixada Santista (Condesb), formado pelos prefeitos dos nove municípios e representantes estaduais.

Atualmente presidido pelo prefeito de Peruíbe, Felipe Bernardo, o colegiado continua como principal fórum de discussão dos projetos estruturantes.

Segundo ele, o maior aprendizado das últimas três décadas foi entender que nenhum município cresce isoladamente.

“Quando uma cidade cresce, cresce toda a região. Quando há avanços em Santos, Guarujá ou qualquer outro município, toda a Baixada Santista acaba sendo beneficiada”, afirma.

Essa visão regional orienta os grandes investimentos atuais, planejados para atender a Baixada como um sistema integrado.

Mobilidade

Se existe um tema que representa os avanços e dificuldades dos últimos 30 anos, é a mobilidade.

Durante décadas, os moradores dependeram praticamente apenas de ônibus e automóveis para circular entre as cidades. Enquanto isso, o crescimento populacional e a expansão do Porto de Santos aumentaram o movimento nas rodovias e no Sistema Anchieta-Imigrantes.

Diversos projetos foram anunciados ao longo dos anos, mas poucos avançaram. O cenário começou a mudar com obras que agora saem do papel.

VLT

Entre os projetos mais importantes está o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), inaugurado em 2015.

O sistema passou a conectar Santos e São Vicente e mudou a lógica do transporte coletivo regional. Pela primeira vez em décadas, a Baixada ganhou um modal sobre trilhos voltado ao transporte de passageiros.

Agora, o VLT entra em uma nova fase. O trecho entre Conselheiro Nébias e Valongo, em Santos, avança para conclusão, prevista para o segundo semestre de 2026.

Além disso, estudos analisam uma terceira etapa para levar os trilhos entre Barreiros, em São Vicente, e Samaritá, ampliando o atendimento ao litoral sul.

Para Felipe Bernardo, o sistema representa uma conquista histórica.

“O VLT foi um investimento importante. Levou muitos anos para ser implantado e existe a expectativa de que continue avançando para outros municípios de forma gradual”, afirma.

Terceira pista da Imigrantes 

Outro projeto estratégico é a terceira pista da Rodovia dos Imigrantes.

A obra ainda está em fase preparatória, mas já possui Licença Ambiental Prévia e integra o planejamento estadual para os próximos anos.

O projeto prevê aproximadamente 21,5 quilômetros de nova pista. Segundo o Governo do Estado, a estrutura poderá aumentar em até 145% a capacidade de descida de caminhões rumo ao Porto de Santos e ampliar em cerca de 25% a capacidade operacional do Sistema Anchieta-Imigrantes.

Além de melhorar o trânsito, a obra busca fortalecer a logística do maior complexo portuário da América Latina.

Foto: Divulgação/Governo de SP

Túnel Santos-Guarujá

Entre todos os projetos históricos da Baixada, poucos atravessaram tantas décadas quanto o túnel Santos-Guarujá, e agora, pela primeira vez, possui cronograma definido.

Com investimento estimado em R$ 6,8 bilhões, o túnel imerso terá cerca de 1,5 quilômetro de extensão, três faixas por sentido, passagem para pedestres e ciclistas, além de estrutura preparada para receber o VLT.

A previsão é reduzir a travessia entre as duas cidades para aproximadamente cinco minutos. O Governo do Estado espera concluir a obra em 2031.

Para Felipe Bernardo, o projeto representa uma mudança histórica.

“É uma espera de décadas. Agora vemos a conclusão da licitação, o cronograma para o início das obras e todo o planejamento avançando”, afirma.

Projetos aguardados

Enquanto algumas obras avançam, outras continuam como expectativa.

O Aeroporto Civil Metropolitano do Guarujá permanece como um dos principais projetos aguardados para ampliar a conexão aérea, fortalecer o turismo e estimular a economia regional.

O Trem Intercidades Santos-São Paulo também segue como uma promessa estratégica para reduzir o tempo de deslocamento entre a Baixada e a capital paulista.

Saneamento Básico

Além da mobilidade, o saneamento representa uma das maiores transformações da região nas últimas décadas.

Quando a Região Metropolitana foi criada, o abastecimento de água e o tratamento de esgoto apresentavam grandes diferenças entre os municípios. Desde então, novas estações, redes e sistemas de integração ampliaram a capacidade regional.

Após a desestatização da Sabesp, em 2024, a companhia iniciou um novo programa de expansão para a Baixada Santista.

Desde então, aproximadamente R$ 2,4 bilhões já foram aplicados em obras. Entre 2026 e 2029, estão previstos outros R$ 8,1 bilhões, totalizando R$ 10,5 bilhões em investimentos.

O programa prevê:

  • 170,6 quilômetros de redes de abastecimento de água;
  • 596 quilômetros de redes de esgoto;
  • 20 novos reservatórios;
  • 3 novas estações de tratamento de água;
  • 6 novas estações de tratamento de esgoto.

O objetivo é ampliar a segurança hídrica, preparar a infraestrutura para o crescimento populacional e acelerar a universalização do saneamento.

A Sabesp também ampliou investimentos em áreas vulneráveis por meio do Fator U (índice de controle regulatório usado no setor de saneamento básico para medir o cumprimento de metas de atendimento de água e esgoto), levando redes de água e esgoto para regiões historicamente sem atendimento adequado.

Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Segurança hídrica

A Baixada convive com uma variação populacional muito grande, durante o verão, milhões de turistas se somam aos moradores permanentes e elevam significativamente o consumo de água.

Essa característica histórica tornou a segurança hídrica uma das principais preocupações regionais. Nas décadas de 1990 e 2000, episódios de desabastecimento eram frequentes, principalmente durante a alta temporada.

Segundo o presidente do Condesb, os investimentos realizados nos últimos anos já melhoraram o cenário.

“Nós sofremos muito com a falta d’água, principalmente na alta temporada. A situação melhorou bastante ao longo dos anos, mas ainda tivemos problemas recentemente. A Sabesp apresentou um plano de investimentos importante e acreditamos que a tendência é de melhora”, afirma.

Entre as obras estratégicas está o Centro de Reservação Mambu-Branco, em Itanhaém. O complexo terá capacidade para armazenar 40 milhões de litros de água tratada e atender aproximadamente 1,2 milhão de moradores e turistas de Itanhaém, Peruíbe, Mongaguá, Praia Grande e da área continental de São Vicente.

Além disso, a Sabesp executa a travessia subaquática entre Santos e Guarujá. A nova adutora terá 5,56 quilômetros de extensão e permitirá transferir até 500 litros de água por segundo para reforçar o abastecimento de Vicente de Carvalho.

Em Praia Grande, a futura Estação de Tratamento de Água Melvi acrescentará capacidade de produção de 1.270 litros por segundo, enquanto Bertioga receberá novas estruturas para ampliar o tratamento de água e esgoto.

Rodovias

A infraestrutura rodoviária também passou por mudanças importantes nos últimos anos.

O Sistema Anchieta-Imigrantes recebeu ampliações e melhorias, enquanto a concessão do Lote Litoral Paulista iniciou novos investimentos em rodovias como a Rod. Padre Manoel da Nóbrega e a Mogi-Dutra.

Entre 2023 e 2025, foram concluídas obras de conservação especial em 161 Kms de rodovias da região, com investimento de R$ 65 milhões.

Ao mesmo tempo, a implantação de pedágios eletrônicos no litoral sul provocou preocupação entre moradores, que temem cobranças em deslocamentos curtos entre bairros e municípios.

Bernardo afirma que o Condesb defende melhorias, mas acompanha os impactos para a população.

“Nós defendemos investimentos porque eles tornam a rodovia mais segura. Porém, também cobramos transparência e tarifas razoáveis para que a população não seja penalizada”, afirma.

Próximos anos

Além das obras atuais, o Governo do Estado trabalha com planejamento de longo prazo por meio do Plano de Logística e Investimentos do Estado de São Paulo (PLI-SP 2050).

O documento reúne estudos sobre crescimento populacional, infraestrutura e desenvolvimento regional.

Entre as prioridades para a Baixada Santista estão a expansão do VLT, o túnel Santos-Guarujá, o Trem Intercidades Santos-São Paulo, a Ferrovia Interna do Porto de Santos (FIPS) e novas melhorias nos acessos ao complexo portuário.

Meio ambiente

A região possui uma característica única: reúne, no mesmo território, um dos maiores portos da América Latina, áreas industriais, grandes centros urbanos e importantes ecossistemas ambientais.

Concentrando manguezais, restingas, áreas protegidas e remanescentes de Mata Atlântica. Por isso, o desenvolvimento econômico precisa avançar junto com a preservação ambiental.

Ocupação sustentável

Um dos principais instrumentos criados para organizar esse crescimento foi o Zoneamento Ecológico-Econômico Costeiro da Baixada Santista (ZEEC-BS).

Aprovado em 2013, o mecanismo estabelece regras para conciliar atividades econômicas e proteção ambiental.

Além disso, o Estado implantou o Zoneamento Ecológico-Econômico de São Paulo (ZEE-SP), aprovado em 2022, para orientar políticas públicas, licenciamento ambiental e recuperação de áreas degradadas.

Com isso, a região passou a contar com uma visão mais estratégica sobre ocupação urbana e preservação.

Nuvens carregadas anunciam a chegada da frente fria na Baixada Santista, com previsão de chuva e ventos fortes nesta quarta-feira (29) Foto: Carla Oliveira

Mudanças climáticas

Temperaturas mais elevadas, chuvas irregulares, ressacas intensas e elevação do nível do mar passaram a exigir novas políticas públicas.

Para enfrentar esse cenário, o Estado criou o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC), com ações voltadas para biodiversidade, segurança hídrica, saúde, zona costeira e redução de riscos.

Como grande parte da população vive próxima ao nível do mar, a adaptação climática tornou-se uma prioridade regional.

Macrodrenagem

Os alagamentos continuam entre os principais problemas urbanos, a combinação entre baixa altitude, ocupação intensa, influência das marés e chuvas extremas torna a drenagem um desafio permanente.

Por isso, o Plano Regional de Macrodrenagem da Baixada Santista (PRMBS) busca criar soluções integradas para os nove municípios.

Coordenado pela SP Águas, o projeto terá investimento de aproximadamente R$ 9,4 milhões e vai elaborar diagnósticos e propostas para reduzir enchentes e melhorar o manejo das águas pluviais.

A iniciativa parte de uma constatação simples: a água não respeita limites administrativos. Um problema em uma cidade pode afetar diretamente outra.

Resíduos sólidos

Outro desafio metropolitano é a gestão dos resíduos sólidos.

Atualmente, cada município possui sua própria estrutura, mas o aumento populacional e a geração crescente de lixo indicam a necessidade de soluções integradas.

O Condesb discute a possibilidade de criação de um consórcio regional para avaliar compras compartilhadas e modelos conjuntos de gestão.

Segundo o prefeito de Peruíbe, o tema exige planejamento coletivo.

“Esse é um problema que precisa ser tratado com visão regional e não apenas local. A coleta e a destinação final precisam ser pensadas para toda a Baixada”, afirma.

Uma metrópole em transformação

Por fim, ao completar três décadas, a Região Metropolitana da Baixada Santista apresenta grandes transformações, com avanços como o VLT, novos investimentos em saneamento, infraestrutura e abastecimento.

Apesar dos progressos, desafios como o Aeroporto Metropolitano do Guarujá, o Trem Intercidades e a adaptação climática ainda exigem investimentos.

“Os avanços mostram que, quando existe planejamento regional, todos ganham. A Baixada Santista tem características únicas e precisa continuar trabalhando como uma única região”, complementa Felipe Bernardo.

A próxima década será decisiva para consolidar a integração e o desenvolvimento da metrópole.

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Ronaldo Tarallo Jr., Da Redação
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