Ponto de vista
A cidade entre nós: a alegria também precisa de endereço
Alessandro Lopes
Toda cidade precisa dormir, mas nenhuma deveria passar a vida inteira em silêncio.
Uma feira muda a rotina da rua, um desfile fecha caminhos, um show ocupa a praça, uma festa popular atravessa a noite, uma corrida altera o trânsito, e logo surgem as perguntas, por que aqui, por que hoje, por que tão perto de casa?
As perguntas são legítimas, eventos mal planejados incomodam, o excesso não se transforma em cultura apenas porque tem palco, e alegria sem limite pode se tornar abuso.
Ainda assim, há algo preocupante quando qualquer celebração passa a ser vista como ameaça, como se viver bem fosse apenas chegar em casa, fechar as janelas e esperar que nada aconteça do lado de fora.
A cidade não é feita somente para funcionar, ela também precisa emocionar.
São as festas, os encontros, os mercados, os esportes, a música e os rituais coletivos que transformam ruas anônimas em lugares de memória.
Muitas vezes, lembramos de uma cidade não pelo edifício mais alto, mas pela noite em que uma praça inteira cantou, pela feira onde experimentamos um sabor novo, pela caminhada em que encontramos pessoas que só conhecíamos de vista.
A alegria também constrói patrimônio.
Talvez estejamos esquecendo que a vida coletiva também precisa de ocasiões para se reconhecer, uma cidade que nunca se encontra acaba formada por pessoas que moram perto, mas vivem distantes.
É evidente que ela precisa de endereço, horário, estrutura, mobilidade, limpeza, segurança e respeito por quem mora ao redor.
Planejar uma celebração não é diminuir sua espontaneidade, é permitir que ela continue existindo sem se tornar inimiga da vizinhança.
O desafio não é escolher entre festa e sossego, é fazer com que ambos encontrem lugar no calendário e na cidade.
O problema começa quando tratamos todo acontecimento como transtorno e toda mudança temporária como perda de direito.
Queremos turismo, mas não turistas, cultura, mas sem público, comércio forte, mas sem movimento, tradição, mas sem som, uma economia criativa que prospere, desde que crie em silêncio.
Cidade que não celebra deixa de ser lar e vira apenas CEP.
Talvez estejamos esquecendo que a vida coletiva também precisa de ocasiões para se reconhecer, uma cidade que nunca se encontra acaba formada por pessoas que moram perto, mas vivem distantes.
O futuro urbano não será construído apenas com obras, tecnologia e regulamentos, será construído também com pertencimento, e pertencimento nasce quando alguém pode olhar ao redor e sentir que participou de algo.
Toda cidade precisa descansar, mas também sonhar acordada, porque uma cidade que elimina toda surpresa pode até parecer eficiente, porém corre o risco de adormecer o próprio futuro.