Ponto de vista
O jornalismo que precisamos
Humberto Challoub
Ao propor uma “reflexão” sobre a necessidade de volta da exigência de diploma para o exercício do jornalismo profissional, o ministro do STF, Alexandre de Moraes, reascende o debate sobre um tema relevante e extremamente importante para a sociedade.
É certo que comportamento adotado por jornalistas e veículos de comunicação na cobertura de fatos políticos e, agora, dos movimentos decorrentes do período eleitoral, tem motivado o questionamento sobre a credibilidade e o real papel que o jornalismo deve, por obrigação e princípio, cumprir nos sistemas democráticos.
Havemos de reconhecer que, maculadas por preferências ideológicas, partidárias e interesses econômicos, parte da imprensa deixou de praticar fundamentos essenciais à atividade profissional, entre eles a checagem das informações, o aprofundamento e a contextualização dos fatos narrados, a concessão de espaço igualitário ao contraditório e, sobretudo, a comprovação de acusações e denúncias, muitas delas travestidas como verdade.
No entanto, descontandas as intenções coercitivas contidas na proposta de reflexão do ministro, a exigência do diploma deve ser observada além de uma tentativa de controle da informação, de uma iniciativa corporativista ou de reserva de mercado profissional.
Apesar de não ser responsável por forjar caráter e honestidade, a formação acadêmica permite ampliar a qualificação na atividade jornalística, oferecendo visões teóricas, éticas e culturais que ajudam a construir entendimentos plurais, alinhados aos interesses da população.
A prática livre e responsável do jornalismo é a única forma possível para recuperar sua credibilidade, evitando assim que fiquemos à mercê da manipulação de poderosos e de iniciativas travestidas de boa intenção que, na verdade, camuflam a intenção de impor métodos de censura.
É perceptível que a deterioração do jornalismo brasileiro decorre também do ambiente pouco favorável para o exercício da profissão.
Além de enfrentar as mudanças tecnológicas nos meios de produção e o avanço de novas plataformas digitais e redes sociais, o pouco investimento, baixos salários e enxugamento das redações são outros fatores que vêm contribuindo para a queda da qualidade do conteúdo oferecido ao público.
O declínio da confiança e da credibilidade são visíveis e ameaçam a manutenção das empresas que atuam na área, suscitando o questionamento sobre o real papel que a comunicação deve cumprir na sociedade.
Mais do que nunca é necessário concentrar recursos e esforços na construção de espaços de mídia voltados ao atendimento de necessidades prementes da sociedade, dirigidas também ao fomento da educação, à prestação de serviço, à cidadania e à valorização da nossa cultura.
A história é repleta de exemplos das consequências danosas que o uso indevido da comunicação pode trazer à sociedade, especialmente pela capacidade de criar falsos conceitos e induzir a entendimentos que nem sempre condizem com a realidade.
A prática livre e responsável do jornalismo é a única forma possível para recuperar sua credibilidade, evitando assim que fiquemos à mercê da manipulação de poderosos e de iniciativas travestidas de boa intenção que, na verdade, camuflam a intenção de impor métodos de censura.