A China planeja 2030. O Brasil precisa agir agora. | Boqnews

Ponto de vista

31 de agosto de 2026

A China planeja 2030. O Brasil precisa agir agora.

Rodrigo Luiz Zanethi

A China não improvisa seu desenvolvimento. Ela planeja, estabelece metas, mobiliza o Estado, direciona investimentos e executa.

E, é justamente por isso que o 15º Plano Quinquenal chinês, relativo ao período de 2026 a 2030, precisa ser examinado com absoluta atenção pelos exportadores agrícolas brasileiros e, sobretudo, pelo Governo Federal.

Não se trata de mera curiosidade sobre a política econômica de outro país, mas sim de compreender os movimentos do principal mercado de produtos agrícolas brasileiros e antecipar seus impactos sobre nossa produção, logística, infraestrutura e política de comércio exterior.

Os planos quinquenais chineses não são simples cartas de intenções, eles funcionam como verdadeiros instrumentos de coordenação entre governo, empresas estatais, sistema financeiro, centros de pesquisa, administrações locais e setor privado, pois quando a China declara uma prioridade, direciona recursos, tecnologia, crédito e infraestrutura para alcançá-la.

E o novo plano é claro: segurança alimentar, modernização agrícola, aumento da produção doméstica, inovação tecnológica, qualidade sanitária e redução das vulnerabilidades externas estarão no centro da estratégia chinesa até 2030.

O plano agrícola associado ao 15º Plano Quinquenal estabeleceu como meta elevar a capacidade de produção de grãos da China para aproximadamente 725 milhões de toneladas até 2030.

Também pretende alcançar índice mínimo de 98% de aprovação nas inspeções rotineiras de qualidade e segurança dos produtos agrícolas.

Além disso, prevê investimentos em terras agrícolas de alto padrão, inteligência artificial, mecanização, pesquisa genética, armazenagem, processamento e logística de cadeia fria.

Na verdade, trata-se de um projeto articulado de aumento da produtividade e da autossuficiência agrícola.

Isso não significa que a China deixará de importar alimentos. Sua população, seu padrão de consumo e suas limitações territoriais continuarão exigindo compras internacionais em grande escala.

O exportador brasileiro não pode pressupor que o volume vendido hoje estará garantido amanhã. Muito menos pode o Governo Federal construir sua política agrícola, portuária e logística baseado apenas na fotografia atual do comércio exterior.

Significa, entretanto, que a China pretende depender menos de fontes externas nos produtos considerados estratégicos, diversificar fornecedores e controlar, com maior rigor, a qualidade, a segurança e a regularidade das cadeias internacionais de abastecimento.

Em outras palavras: a China continuará comprando, mas pretende decidir com ainda mais precisão o que comprará, de quem comprará e em quais condições.

Esse movimento precisa acender um sinal de alerta no Brasil.

Em 2025, o país exportou 108,18 milhões de toneladas de soja. Desse volume, 85,4 milhões de toneladas tiveram a China como destino, equivalentes a 78,9% de toda a soja brasileira exportada, segundo o Anuário Agrologístico da CONAB 2026, e este dado demonstra a força da parceria comercial, mas também revela uma concentração que não pode ser ignorada.

A concentração comercial não é necessariamente um problema, mas sim a concentração sem estratégia, sem monitoramento e sem plano de contingência.

A própria redução das compras chinesas de milho brasileiro, registrada em 2025 e relacionada, entre outros fatores, à substituição parcial do milho pela mandioca na produção de rações, demonstra como decisões internas da China podem alterar rapidamente os fluxos internacionais de mercadorias.

O exportador brasileiro não pode pressupor que o volume vendido hoje estará garantido amanhã. Muito menos pode o Governo Federal construir sua política agrícola, portuária e logística baseado apenas na fotografia atual do comércio exterior.

O risco a ser avaliado pelo Brasil não é a China planejar sua segurança alimentar, mas sim, o de não planejar a sua inserção no novo modelo de abastecimento chinês.

Ao mesmo tempo, o plano chinês também abre oportunidades importantes. A elevação da renda, a busca por alimentos mais saudáveis, o fortalecimento da cadeia fria, a exigência de segurança sanitária e o crescimento do consumo de proteínas podem ampliar a demanda por carnes, café, frutas, sucos, celulose, produtos processados e alimentos de maior valor agregado.

O Brasil, porém, precisa deixar de enxergar a China apenas como compradora de soja em grão, se tornando necessário avançar na diversificação da pauta, na agregação de valor, na celebração de protocolos sanitários e fitossanitários, na rastreabilidade, na sustentabilidade comprovável e na construção de cadeias logísticas confiáveis.

Nesse cenário, o Plano Nacional de Logística 2050 pode representar uma resposta estratégica brasileira — desde que efetivamente executado.

O PNL 2050 entrou em vigor em agosto de 2026 e estabeleceu diretrizes para orientar os investimentos e a governança da infraestrutura logística brasileira nas próximas décadas. O plano mapeou três corredores de manutenção e 31 eixos relacionados a 112 objetivos prioritários, abrangendo rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos.

A estimativa oficial é de R$ 1,225 trilhão em investimentos até 2050, sendo R$ 734,4 bilhões provenientes do setor privado e R$ 490,5 bilhões de recursos públicos.

O plano oferece instrumentos para enfrentar justamente um dos maiores problemas de competitividade do agronegócio brasileiro: a distância econômica entre a propriedade rural e o porto.

O Brasil produz com eficiência dentro da porteira, mas perde competitividade fora dela.

Rodovias precárias, dependência excessiva do transporte rodoviário, falta de armazenagem, gargalos ferroviários, insuficiência das hidrovias, acessos portuários congestionados e baixa integração entre os modais continuam incorporando custos ao produto brasileiro.

Enquanto a China investe em sementes, inteligência artificial, mecanização, armazenagem e cadeia fria, o Brasil ainda desperdiça parte de sua vantagem agrícola em filas, transbordos, estradas deficientes e incertezas logísticas.

O PNL 2050 pode alterar essa realidade ao priorizar corredores ferroviários e hidroviários, ampliar a integração com os portos, fortalecer o Arco Norte, melhorar os acessos ao Porto de Santos e criar rotas alternativas para o escoamento da produção.

A diversificação dos corredores de exportação é especialmente importante. Em 2025, os portos do Arco Norte já responderam por 39,5% das exportações brasileiras de soja e milho.

Apesar do avanço, ainda existem limitações relacionadas à navegabilidade, às secas na Região Amazônica, à capacidade dos terminais e à conexão terrestre com as áreas produtoras.

Também é indispensável investir em armazenagem. A Conab projetou para 2026 um déficit nominal de 15,9 milhões de toneladas apenas para absorver a primeira safra de grãos.

Sem capacidade adequada de armazenagem, o produtor é pressionado a vender, transportar e embarcar em períodos concentrados, aumentando os custos logísticos e reduzindo seu poder de negociação.

O PNL 2050, entretanto, não pode ser tratado como documento para 2050. Precisa começar em 2026.

A China trabalha com ciclos de cinco anos, metas mensuráveis e mecanismos de execução. O Brasil não pode responder a um plano quinquenal chinês com um plano de longo prazo desprovido de prioridades imediatas, cronogramas, orçamento, responsáveis e indicadores de desempenho.

O Governo Federal deveria estabelecer, dentro do PNL 2050, uma agenda específica para o período de 2026 a 2030, alinhada às transformações previstas no mercado chinês.

Essa agenda precisa integrar Ministério da Agricultura, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Ministério dos Transportes, Ministério de Portos e Aeroportos, Itamaraty, Conab, Infra S.A., autoridades portuárias e setor privado.

É necessário criar um observatório permanente sobre os efeitos do 15º Plano Quinquenal chinês, acompanhar alterações nos padrões de consumo, exigências sanitárias, políticas de estoques, subsídios agrícolas, substituição de produtos e metas de produção doméstica.

Rodovias precárias, dependência excessiva do transporte rodoviário, falta de armazenagem, gargalos ferroviários, insuficiência das hidrovias, acessos portuários congestionados e baixa integração entre os modais continuam incorporando custos ao produto brasileiro.

Também será fundamental acelerar negociações para abertura de novos mercados e habilitação de novos produtos. O Brasil obteve avanços recentes, como a abertura do mercado chinês para sorgo, gergelim, DDG e miúdos de aves. Esse movimento precisa continuar e transformar a relação bilateral em uma parceria mais diversificada e menos dependente de poucos produtos.

Diversificar não significa afastar-se da China mas sim qualificar a sua relação com ela.

Da mesma forma, investir em infraestrutura significa escolher obras coerentes com os fluxos comerciais que existirão no futuro, e não apenas com aqueles que existem hoje.

O Brasil possui produção, território, tecnologia agrícola, disponibilidade de água e capacidade empresarial para continuar sendo um dos principais fornecedores de alimentos do mundo. Mas vantagem natural não substitui estratégia.

A China já informou ao mundo quais serão suas prioridades até 2030. Cabe ao Brasil decidir se analisará essas informações para orientar sua política agrícola e logística ou se continuará reagindo aos acontecimentos depois que eles já tiverem produzido seus efeitos.

O PNL 2050 pode transformar nossa geografia em vantagem competitiva. Para isso, precisa sair do papel, estabelecer prioridades para os próximos cinco anos e dialogar diretamente com a política brasileira de comércio exterior.

A China planeja para comprar melhor, produzir mais e depender menos. O Brasil precisa planejar para continuar vendendo com competitividade, segurança, diversificação e valor agregado.

Quem conhece o planejamento de seu principal cliente não adivinha o futuro. Prepara-se para ele.

Rodrigo Luiz Zanethi
Rodrigo Luiz Zanethi, advogado e professor universitário da Unisantos e FATEC Santos
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