Dia Mundial do Jornalismo 2026: hora de lutar | Boqnews

Ponto de vista

28 de setembro de 2026

Dia Mundial do Jornalismo 2026: hora de lutar

Branko Brkic

Dia Mundial do Jornalismo, 28 de setembro de 2026.

Ao longo da vida, vi comunidades, organizações e países inteiros perderem o vínculo com a verdade.

Eu começava minha carreira no mercado editorial de livros na Iugoslávia, em meados dos anos 1980, quando os fatos compartilhados que haviam mantido nossa sociedade unida por 40 anos começaram a se desfazer, pedaço por pedaço, até as pessoas já não conseguirem concordar sobre o que nosso país representava, quais eram seus valores básicos e, por fim, o que de fato estava acontecendo.

Centenas de milhares de pessoas acabaram morrendo. Milhões foram deslocadas. Vidas foram destruídas.

Comunidades ficaram devastadas, marcadas por fragmentos de desumanidade e dor destinados a se reproduzir por gerações.

Décadas depois, na África do Sul, participei do movimento oposto: um grupo de jornalistas obstinados vasculhava os escombros da captura do Estado, documento por documento, até que o roubo já não pudesse ser negado.

Esse trabalho essencial foi a centelha que ajudou o país a recuperar a esperança e, por um breve período, até o otimismo.

Essas duas experiências me ensinaram a mesma lição por caminhos opostos. Uma sociedade que perde o vínculo com os fatos perde o vínculo consigo mesma. Uma sociedade que luta pela verdade ainda pode reencontrar seu caminho.

É isso que o Dia Mundial do Jornalismo representa e é por isso que, em 28 de setembro, mais de mil redações de mais de cem países vão marcar a data em conjunto.

O Dia Mundial do Jornalismo existe para expressarmos com força nossa convicção de que informação confiável é a infraestrutura de uma sociedade moderna baseada em informação.

Como água ou eletricidade, ela é fundamental para nossa existência, mas ninguém pensa nela até faltar ou ser substituída por algo que parece notícia, mas não é.

O trabalho do jornalismo é explicar por que algo aconteceu, quem se beneficiou, quem pagou a conta e o que pode vir depois. O contexto costuma ser a diferença entre informação e jornalismo.

Compartilhar os mesmos meios de distribuição com estruturas de propaganda e trolls de desinformação é uma das grandes fragilidades estruturais de todo o nosso edifício. Nossas reportagens, análises e investigações circulam pelos mesmos canais usados por alguns dos piores disseminadores de ódio e loucura já vistos. Ainda assim, insistimos.

Continuamos aqui porque nossa missão, nossa força motriz, é estar ao seu lado, aconteça o que acontecer.

Nós sempre vamos ajudar você a conhecer os fatos.

Eles não chegam sozinhos. Precisamos buscá-los: ler o documento, encontrar a testemunha, conferir as afirmações duas vezes, proteger as fontes, que são as pessoas que correm riscos reais, fazer as perguntas que os poderosos não querem ouvir e repeti-las quando tentam escapar. Estamos aqui para assinar o que publicamos e corrigir em público quando erramos.

Velocidade algorítmica não é sinônimo de verdade. Segurança ao afirmar algo também não.

Nós vamos ajudar você a entender o que importa.

Um dado isolado apenas informa que algo aconteceu. O nível de uma enchente, uma linha do orçamento, uma contagem de votos.

O trabalho do jornalismo é explicar por que algo aconteceu, quem se beneficiou, quem pagou a conta e o que pode vir depois. O contexto costuma ser a diferença entre informação e jornalismo.

A informação pode preencher incontáveis feeds em velocidade vertiginosa. O jornalismo precisa dar sentido ao mundo.

É fundamental escolher jornalismo confiável.

Isso não é um pedido para confiar em toda redação nem para deixar de nos fazer perguntas difíceis. A confiança se constrói ao longo de uma vida e precisa ser renovada a cada nova história.

Eu disse vezes demais à minha equipe no Daily Maverick que só somos tão bons quanto nossa reportagem mais recente.

Mas convidamos você, leitor, a procurar um jornalismo que mostre de onde vieram as informações, separe notícia de opinião, admita quando ainda não sabe algo e se corrija quando erra.

Uma redação confiável não é aquela que nunca erra. É aquela que você vê corrigindo seus erros.

Devemos a você o mesmo padrão que pedimos que aplique. Por isso, neste Dia Mundial do Jornalismo de 2026, não vamos apenas dizer que nosso jornalismo importa.

Vamos mostrar e contar o trabalho por trás dele: os meses de uma investigação, as verificações antes de uma notícia urgente, a correção que tornou o registro mais preciso, a reportagem local que de fato mudou a realidade cotidiana de uma comunidade.

Sozinho, qualquer um de nós pode ser descartado. Em muitos países, processos judiciais tentam nos silenciar, somos empurrados para a penúria ou simplesmente ignorados.

Mas, juntos, em dezenas de idiomas e mais de cem países, somos mais difíceis de ignorar. Esse é o objetivo de fazer tudo no mesmo dia. Isto não é uma campanha de arrecadação. É um ponto de mobilização.

E há uma quarta coisa, aquela que move todas as demais: é seu direito saber.

Não é um favor concedido por um governo ou por uma empresa que decide o que você pode ver. É um direito de nascença.

O Dia Mundial do Jornalismo ocorre em 28 de setembro por um motivo: a data também marca o Dia Internacional do Acesso Universal à Informação, da ONU.

Não é uma coincidência usada para produzir efeito. É a mesma ideia vista de duas pontas.

Seu direito de saber só existe de fato se alguém fizer o trabalho de tornar a informação fácil de encontrar, verificar e, acima de tudo, verdadeira. Esse é o trabalho.

Por isso, antes de compartilhar algo tentador, pare. Antes de acreditar em algo, pergunte como a pessoa que está contando aquilo sabe.

Apoie o jornalismo que faz esse trabalho às claras e questione aquele que não faz.

Nunca foi tão importante: conheça os fatos. Entenda o que importa. Escolha jornalismo confiável. Porque é seu direito saber.

E porque um mundo que deixa de saber nunca será livre, apenas mais fácil de enganar. Vejo vocês nas trincheiras.

 

(*) Este artigo de opinião foi encomendado como parte da campanha “Dia Mundial do Jornalismo” , uma iniciativa que destaca o papel essencial do jornalismo na oferta de fatos e clareza.

Branko Brkic
Branko Brkic, fundador do Project Kontinuum, uma aliança de pessoas que trabalha para devolver ao jornalismo seu papel de serviço essencial. Ele fundou o Daily Maverick, da África do Sul, do qual foi editor-chefe, e é um dos organizadores do Dia Mundial do Jornalismo.
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com
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