Cirurgia ortognática muda a estética do rosto? Entenda
Queixo muito projetado ou retraído, rosto assimétrico e sorriso gengival podem indicar alterações na estrutura óssea da face. Por isso, algumas queixas aparentemente estéticas merecem uma avaliação especializada.
A cirurgia ortognática trata determinadas deformidades dentofaciais por meio do reposicionamento da maxila e da mandíbula. Como esses ossos sustentam os tecidos moles, a mudança também pode repercutir na aparência.
“Os ossos da face são a estrutura que dá sustentação aos tecidos moles. Maxila e mandíbula determinam, em grande parte, a projeção do terço médio, a posição dos lábios, o contorno mandibular, o queixo e a relação entre diferentes regiões da face”, explica a Dra. Erika Kugler Nóbrega, cirurgiã-dentista especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial.
O que pode mudar no rosto?
As alterações dependem do diagnóstico e do planejamento de cada paciente. Entre os possíveis efeitos estão mudanças no perfil facial, no sorriso, no suporte dos lábios, no contorno do rosto e na simetria.
“Muitas vezes, o que chama atenção no resultado não é uma região específica, mas justamente uma face que passa a apresentar proporções mais equilibradas”, afirma Erika.
Em alguns casos, a queixa sobre o tamanho do queixo, o perfil ou a exposição da gengiva está relacionada a uma discrepância entre maxila e mandíbula ou a uma assimetria esquelética.
A cirurgia também pode mudar o nariz e os lábios?
Sim. O reposicionamento da maxila pode influenciar regiões próximas, como o nariz, o lábio superior e o sorriso.
“Dependendo da direção e da magnitude do movimento, podemos modificar o suporte do lábio superior, a exposição dos incisivos e da gengiva, a projeção do terço médio e também características da base nasal”, explica a especialista.
Entretanto, não é possível prever todas as mudanças com exatidão. A espessura da pele, a musculatura, a distribuição de gordura, a idade e a elasticidade dos tecidos influenciam a resposta de cada pessoa.
“Duas pessoas podem receber movimentos ósseos semelhantes e apresentar respostas diferentes nos tecidos moles”, ressalta Erika.
Estudo científico avaliou mudanças na face
Um estudo publicado em 2025 no periódico Archives of Oral Biology, com participação de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), investigou pacientes com deformidades dentofaciais submetidos à cirurgia ortognática.
O trabalho analisou a morfologia tridimensional dos tecidos moles antes e depois do procedimento, além de aspectos relacionados à função mastigatória.
Os pesquisadores observaram alterações na morfologia facial associadas às mudanças nas estruturas ósseas. Os resultados contribuem para compreender como o reposicionamento dos ossos pode modificar o contorno externo da face.
Estudo: Masticatory function and three-dimensional facial morphology of soft tissues: One year after orthognathic surgery. Archives of Oral Biology, 2025.
Leia a pesquisa: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39426314/
Planejamento 3D não garante o resultado estético
Os recursos tridimensionais permitem analisar o esqueleto facial, identificar assimetrias e simular os movimentos ósseos. Algumas ferramentas também estimam as mudanças nos tecidos moles.
No entanto, a simulação não representa uma garantia do resultado final.
“O planejamento virtual 3D trouxe um avanço enorme. A posição planejada para os ossos pode ser reproduzida com grande precisão, enquanto a simulação do tecido mole continua sendo uma estimativa”, explica Erika.
O mesmo vale para a simetria. A cirurgia pode melhorar assimetrias de origem esquelética, mas não garante um rosto perfeitamente simétrico.
Cirurgia ortognática não é apenas estética
Embora possa trazer mudanças importantes na aparência, a cirurgia ortognática tem como objetivo tratar deformidades dentofaciais e discrepâncias esqueléticas que não podem ser corrigidas adequadamente apenas com a movimentação dos dentes.
“A cirurgia pode trazer uma transformação estética muito relevante, mas esse resultado faz parte de um planejamento que considera oclusão, função, estabilidade, vias aéreas, articulação e equilíbrio facial”, afirma a especialista.
Por isso, o diagnóstico deve considerar as necessidades clínicas e as expectativas do paciente, sem promessas de simetria perfeita ou de reprodução exata de imagens digitais.
Quanto tempo demora para ver o resultado?
Nas primeiras semanas, o inchaço interfere na aparência. Com o passar dos meses, o edema diminui e os tecidos se acomodam à nova estrutura óssea.
“Em geral, a aparência já se torna muito mais representativa do resultado após alguns meses, enquanto uma avaliação mais definitiva costuma ser feita mais adiante, frequentemente entre seis meses e um ano, dependendo do caso e dos movimentos realizados”, explica Erika.
Quando procurar uma avaliação especializada?
Queixo projetado, sorriso gengival ou assimetria, isoladamente, não indicam a necessidade de cirurgia. Entretanto, algumas características justificam uma avaliação, principalmente quando acompanhadas de alterações na mordida ou na mastigação.
Outros sinais incluem desvio do queixo, diferença acentuada entre maxila e mandíbula, exposição gengival excessiva e dificuldade para manter os lábios fechados confortavelmente.
“É possível esclarecer se aquilo que o paciente percebe tem origem dentária, esquelética ou predominantemente nos tecidos moles. Esse diagnóstico é essencial antes de escolher qualquer tratamento”, conclui a Dra. Erika Kugler Nóbrega.
Assim, a cirurgia ortognática pode melhorar a função e contribuir para o equilíbrio facial quando existe indicação clínica. O diagnóstico individualizado é fundamental para avaliar os benefícios e os limites do procedimento.