Ponto de vista
A escrita como caminho para si
Tatiane França
Quantos sentimentos cabem em um silêncio?
A fala é tida como a forma mais usual de comunicação, mas possibilita julgamentos imediatos que podem fazer com que muitos temam ser espontâneos ao declararem o que pensam ou sentem e acabem optando por não se expor.
São inúmeros os motivos que podem nos silenciar: às vezes um perfil mais acanhado, uma criação familiar restritiva ou experiências de silenciamento opressor.
Independentemente do motivo, muitas pessoas convivem com a dificuldade de dialogar, principalmente quando o interlocutor insiste em fazer da conversa um campo de batalha.
O cotidiano também impõe dificuldades. Exige que façamos escolhas, conciliando intenções, responsabilidades, pensamentos racionais e emoções, o que, por vezes, nos leva a silenciar.
No entanto, esse calar não elimina os sentimentos, tampouco dá forma ao que nos afeta. Sem forma, como lidar com o que nos consome?
É nesses momentos que a escrita pode se apresentar como uma rota segura. Escrever pode dar forma aos sentimentos, assim como as mãos do escultor moldam a argila.
Colocar em palavras nossa interioridade nos exige uma certa entrega, mas, quando fazemos isso voluntariamente, não somos obrigados a nos expor sem preparo, como acontece em algumas discussões.
A fala é tida como a forma mais usual de comunicação, mas possibilita julgamentos imediatos que podem fazer com que muitos temam ser espontâneos ao declararem o que pensam ou sentem e acabem optando por não se expor.
Por meio da escrita é possível se manifestar livremente, sem tentar frear os ímpetos, dando nome e sobrenome ao que se compreende ou utilizando símbolos, metáforas e alegorias para tentar expressar o incompreensível.
Esse movimento, por si só, é capaz de gerar um efeito catártico, ainda que o texto produzido permaneça inacabado.
Passada a etapa de exteriorização, a leitura do próprio texto pode ampliar as possibilidades de compreensão.
Agora, como leitor de si mesmo, pode questionar o que foi escrito, perceber as ambiguidades e enxergar com mais lucidez o que foi exposto e realizar ajustes até estar satisfeito com a mensagem que deseja transmitir, seja para o outro, seja para si mesmo.
Certa vez tentei fazer uma declaração de amor. Foram necessárias mais de dez versões para eu notar que meu objetivo não era apenas transmitir o meu amor, e sim dizer que estava insegura e precisava saber se também era amada antes de me declarar.
Ao identificar o que motivava minha angústia e perceber que ela não se sustentava diante das atitudes dele, pude falar “te amo”. A carta ficou guardada.
A escrita não precisa ser o destino final. Pode ser uma estrada eficaz que nos conduz à nossa essência, dando luz ao abstrato que nos habita.