Pelé e a bruxa | Boqnews

Ponto de vista

12 de setembro de 2014

Pelé e a bruxa

Pelé se tornou o rei do futebol por sempre surpreender, uma das características inerentes aos gênios. Mas os gênios também possuem uma particularidade: a ingenuidade diante de certas coisas do mundo.

Pelé, cada vez que se manifesta sobre racismo no futebol, deixa de ser exemplo e reforça – espero que sem saber – o discurso dominante da discriminação. Pelé colabora com a ideia de que o racismo representa um problema social menor, que deve ser tratado na esfera privada. Assim o fez no caso do goleiro Aranha.

De que maneira tratar um assunto, presente na raiz da formação da sociedade brasileira, como um tema entre quatro paredes? Foi desta forma que, durante décadas, prevaleceu a retórica de que não havia racismo no país. Racismo era um problema norte-americano, pois aqui vivíamos sob a miscigenação democrática. Era o caminho mais eficiente da dominação, que se cristaliza pela invisibilidade. Ninguém fala, muitos negam, todos amenizam, a chaga permanece viva.

As palavras do rei do futebol são contraditórias. Ele defende punições, mas afirma que tocar no assunto é aguçar ainda mais a violência. É o argumento distorcido da invisibilidade. Quando, então, vamos colocar o dedo na ferida? Quando vamos, de fato, aplicar a legislação e punir os responsáveis?

Pelé, enquanto jogador, sofreu inúmeras agressões. E calou-se. É claro que o contexto histórico era outro, da quase ausência de reação, da impunidade absoluta para os selvagens. É famoso o episódio em que o então jogador do Santos, ainda menino e desconhecido, foi barrado em um clube da cidade, onde os negros só entravam pela porta dos fundos.

Em 1963, o Santos enfrentou o Boca Juniors, em Buenos Aires. Pelé foi chamado várias vezes de “negro sujo” e “macaco” pelos torcedores argentinos. Xingamentos já haviam ocorrido na Suécia, durante a Copa de 1958, vencida pelo Brasil.

As agressões ao goleiro Aranha indicam como estamos despreparados para lidar com o racismo. O futebol é termômetro da sociedade brasileira, sob quaisquer ângulos de análise. Existem pilhas de estudos, inclusive na área de História, que apontam o futebol como rio onde deságuam todos os tipos de violência presentes no país.

A discriminação contra o goleiro do Santos, até o momento, parece ser mais uma chance perdida de realmente alterar o estado de coisas. A punição ao Grêmio, pelo histórico da Justiça Desportiva, será amenizada. O rigor é seguido do barulho, que dá lugar aos panos quentes quando o tempo esfria.

Ao mesmo tempo, a superficialidade se manifesta na caça às bruxas. Ou melhor, uma bruxa, vestida de bode expiatório. A torcedora gremista foi caçada no melhor estilo inquisitório medieval. Ela deve ser punida pelo crime que cometeu? Sim.

No entanto, o que vemos é a confusão entre justiça e linchamento. Não é a primeira vez este ano, apenas para ficar no passado recente. Ou nos esquecemos de mortes e pessoas amarradas em postes? O percurso é muito semelhante: o tribunal virtual é rápido em condenar, veloz em se esconder das consequências. A torcedora gremista ainda estava na arquibancada quando abriu a temporada de caça.

A garota foi ameaçada de morte e de estupro. Depois, transformou-se em celebridade-vilã da semana e, por conveniência, ninguém procurou saber quem eram os demais torcedores. Será que o goleiro Aranha possui superaudição capaz de detectar um único xingamento numa arquibancada lotada?

Agora, a casa da moça foi incendiada. Esta novela é repeteco da TV, que só termina com a morte da vilã? Historicamente, todas as sociedades adeptas do olho por olho, dente por dente, terminaram em barbárie. E nenhuma delas colocou em pratos limpos suas sujeiras sociais, como o racismo.

Entre palavras equivocadas do rei e reações animalescas de seus súditos, infelizmente, só sobraram botinadas e gols contra.

Da Redação
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