Ponto de vista
A raiva vem do sofá
Ao entrar em sala de aula, um aluno se aproximou e me perguntou:
— Professor, por que a mídia está em silêncio?
— Em silêncio sobre o quê?
— Sobre a volta dos militares ao poder. O movimento está aí nas ruas. A imprensa está escondendo tudo. Mas o Facebook mostra o que está acontecendo.
Fiquei em silêncio. Não sou daqueles que demonizam as redes sociais. A utilidade tecnológica depende de nós. Os erros e acertos derivam do comportamento e das contradições do humano. O Facebook não criou voz alguma, apenas deu espaço àquelas que existiam por aí, perdidas em pontos de ônibus, mesas de boteco e salas de jantar.
Com as eleições esfriando e todos os atores se acomodando em seus papéis tradicionais do teatro político, me causa estranheza ver como muitos eleitores incorporaram os delírios ficcionais da Internet, evidentemente reforçados pela própria visão de mundo. Lemos, vemos e reproduzimos aquilo que nos interessa e reitera nossa perspectiva.
Na Sociedade do Espetáculo, valem o drama, o exagero, o sensacional. Prevalece a construção da própria imagem, a partir de retalhos de outros e baseada em senso comum. A superficialidade nascida no maniqueísmo é ingrediente essencial para a revolta que se alimenta da rede social, uma valentia que se multiplica atrás do teclado ou recostada no sofá da sala.
Nada contra compreender o mundo como a novela das nove. A democracia – apesar de relegada em segundo plano por conveniência – é a permissão para que os saudosos do regime militar o invoquem, ainda que não o conheçam, tenham vivido ou ouvido falar dele.
A desinformação – fragmentada em links não acessados e em comentários de 140 caracteres – distorce a dimensão dos fatos ao nível da fábula. Acredita-se que manifestações de quarteirão sejam capazes de modificar o estado de coisas na política. É fé hipócrita que permite encarar como fluxo migratório meia dúzia de pessoas que passam férias na Flórida, compradas com o dinheiro ganho por estas bandas, inclusive neste governo e no anterior, do mesmo partido.
As teorias conspiratórias assassinam o contexto, colocam abaixo as lições que a História poderia nos fornecer. Crer na possibilidade de um golpe, seja do PT, seja dos militares, é tão risível quanto considerar que os brasileiros em Miami são refugiados políticos, regados a champanhe e camarão.
O modelo político atual, simbolizado por 28 partidos no Congresso Nacional em 2015, aponta para um único destino: o privilégio de quem já está lá, por mérito das urnas, por alianças políticas, por bravatas de oposição.
Jogamos fora, por incompetência e capricho, os protestos de junho de 2013. Não se deu palavra sobre eles na campanha eleitoral. Vejo, com alguma esperança, que os protestos por reforma política ecoem pelo país. Alguma esperança, pois é preciso mais do que as ruas para colocar a faca no peito de quem é responsável pela alteração das leis. E pressão pós-eleição perde força sem sua maior arma: o voto.
Em tempos de ameaças de voar para Miami ou de pedir a volta do regime militar, penso nas frases do psicanalista Contardo Calligaris. “(…) quando existe, entre os candidatos, um fundo político comum, só resta debater temas cuja relevância seja fictícia ou pretextuosa, e sobretudo inventar jeitos de demonizar o adversário. (…) Agora, com as maldições dos que perderam e hosanas dos que ganharam, sinto-me como num jogo de futebol, em que a violência estúpida e cega das torcidas me impede de aproveitar o domingo no estádio.”
Calligaris se referia à eleição presidencial de 2010.