Ponto de vista
15 anos sem Plínio Marcos
Nesta semana, vários espaços de Santos serviram como fósforos para manterem acesas as ideias de um dos maiores dramaturgos da cidade. Filmes e palestras homenagearam Plínio Marcos, o palhaço-escritor que faleceu em 1999.
Conheci Plínio Marcos em 1997. Aliás, foi a única vez que eu o vi. Plínio assistiria, no Teatro Municipal lotado, à encenação da peça “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”. O texto havia sido censurado pela própria Secretaria de Cultura de Santos por conta do título. Depois da repercussão negativa, a retomada do espaço público para a palavra do dramaturgo, infelizmente acostumado às perseguições de Governo e de Estado.
Além de ver aquele texto duro no palco, ir ao teatro era – na época – a única maneira de adquirir os livros de Plínio. Ninguém os editava até então, salvo exceções alternativas. Eram obras que não circulavam em livrarias e tampouco apareciam nas bibliotecas. Havia me transformado em leitor ávido de suas crônicas no Jornal da Orla, última publicação para quem escreveu, além de entrevistas e textos teatrais.
Dois anos depois, em novembro de 1999, Plínio Marcos faleceu em São Paulo, de falência múltipla dos órgãos. Tinha 64 anos. Plínio Marcos, infelizmente, é um daqueles autores que tiveram que morrer para serem reconhecidos. A obra sempre foi valorizada, mas estava presa à classe artística e aos intelectuais.
Plínio Marcos foi um dos alvos preferidos da censura. Os diálogos fortes, os personagens marginais, os cenários degradantes expunham a desigualdade e a violência do meio urbano. O universo teatral de Plínio era um “atentado à moral e aos bons costumes”, clichê vomitado pelos retrógrados. Plínio foi derrubado em todas as redações, desapareceu da TV, evaporou das salas teatrais.
Pior do que a postura governamental, foi a censura moral. Muitos textos dele deixaram de ser encenados por causa da agressividade das relações entre os personagens. Os mais apressados e ignorantes queriam associá-lo a um mero escritor de palavrões.
Plínio Marcos foi comparado por críticos a Nelson Rodrigues. Enquanto o carioca expunha a hipocrisia da classe média, o autor santista esfregava na mesma classe média as contradições e sofrimentos da marginalidade. Ele é um dos poucos autores que escreveu como viveu, na maior parte da vida.
Há o Plínio Marcos do Macuco, do Mercado de Santos, da cafetinagem, das prostitutas e vigaristas em geral. Existe também o Plinio Marcos místico, ligado às questões metafísicas, principalmente a partir dos anos 80. É o Plinio das cartas de tarô, que pagaram muitas vezes a refeição de fim de noite.
A obra do dramaturgo também permite, pelas crônicas, identificar o relacionamento com o futebol. Ele tentou ser jogador, mas contribuiu muito mais com o Jabaquara (hoje na quarta divisão de São Paulo) quando desfilava causos nas colunas semanais.
O Plínio do circo e dos trabalhos temporários (como camelô) se expõe nas peças. “O Assassinato do Anão do Caralho Grande” é uma homenagem satírica ao mundo que frequentou na adolescência.
A transgressão não é o motivo para torná-lo importante. Ele sofreu por compreender a função do artista em ser questionador do poder, alguém que desconfia da hipocrisia de muitas convenções sociais.
Plínio Marcos não deixou herdeiros teatrais. É um trabalho difícil, numa época de liberdade política e amarras econômicas e morais, quando prevalece o politicamente correto. Alguém se arrisca, sabendo do preço que o próprio Plínio Marcos pagou por quatro décadas?