Ponto de vista
Na cachoeira, a conversa entre pai e filho
Vinicius, de 5 anos, é uma criança normal. Talvez meu filho seja um pouco mais tagarela do que a maioria, ainda impregnado de curiosidade. Tento desacelerar a vida para ouvi-lo. A curiosidade, salvo em pessoas sensíveis, será diluída até o desaparecimento na fase adulta.
Vinicius adora tomar banho; aliás, outro aspecto que pode sumir na proporção inversa do crescimento. E o chuveiro é um dos lugares preferidos para perguntas imprevistas e respostas cuidadosas, com certa dose de didatismo paterno.
Dar banho nele é um momento que exige ginga para escapar das questões que dançam entre super-heróis, xampus, desenhos animados, colegas da escola e diferenças entre meninos e meninas. É uma loteria em que ganhamos juntos.
Com o calor, coloquei uma cadeira de praia no box. Antes que me acusem de “consumo inesperado ou elevado”, uso o tempo necessário para o banho. A cadeira é mero instrumento de quem não tem dinheiro para instalar uma banheira, comprar um ofurô nem espaço para uma piscina, mesmo que seja de plástico, modelo engana-classe-média.
Para brincar com meus filhos, chamei a instalação artística contemporânea de A Cachoeira. Quando Vini abriu o box e viu a cadeira, resumiu com um UAU! Aproveitei e disse a ele: “Filho, vem para a cachoeira. Quer tomar banho?” “Claro, pai, vai ser muito divertido!”
Fiquei sentado na cadeira e Vini se acomodou em um banquinho em frente. Enquanto dava banho nele, as perguntas começaram. Do xampu do Homem-Aranha à lembrança do amiguinho da igreja, de quem estava com saudades.
Logo depois de lavar a cabeça e tirar o sabonete do corpo, Vini me pediu para brincar mais um pouco no chuveiro. Concordei, claro, e passei a observá-lo sem a preocupações operacionais de quem procura sujeira debaixo do braço, nos dedos do pé, em meio aos cabelos encaracolados.
Observava Vini e pensava em como amo este garoto. Sem notar, duas lágrimas se sentiram à vontade. Assim como no dia 28 de novembro de 2009, quando o vi pela primeira vez na maternidade.
Enquanto ele jogava água na minha barriga, eu o olhava. Olhei não sei por quanto tempo, até que veio a pergunta, com o dedo indicador apontado para o alvo da dúvida.
“Pai, este é seu saquinho?”
“É, filho, que nem o seu.”
“E que nem o do vovô!”
“Isso mesmo, Vini!”
“Pai, os meninos têm saquinho e bumbum. As meninas têm periquita e bumbum também.”
“Isso mesmo, filho.”
“Pai, é no saquinho que fica o cocô, que depois sai pelo bumbum?”
Não havia tempo para divagações filosóficas, consultas em manuais, visitas a bibliotecas, entrevistas com especialistas em pais e filhos. A dúvida impõe reflexo. Sem reflexão. Nesta hora, não há encruzilhada. É compromisso com a verdade.
“Não, filho, no saquinho ficam duas bolinhas.”
“Duas bolinhas?”
“Isso, filho, duas bolinhas. O cocô fica na barriga e depois vai para o bumbum.”
“Ah, tá bom, pai. Olha a cachoeiraaaa!” E voltou a jogar água, desta vez para cima. Dois minutos depois, terminamos o banho. Enxuguei os cabelos encaracolados do moleque e mal deu tempo de passar a toalha no corpo dele. Vini saiu correndo.
Poderia desejar que meus filhos nunca crescessem. Que nunca extinguissem a curiosidade sobre o mundo, sobre eles mesmos. Aprendi que, com o tempo, as fases apenas nos prometem novas experiências. Com ou sem perguntas.