A cadeia aprisionada | Boqnews

Ponto de vista

2 de abril de 2015

A cadeia aprisionada

A Cadeia Velha passa por um processo digno da mente de Franz Kafka. Ela desconhece o crime que cometeu, jamais será informada do tempo de pena que deve cumprir, nunca saberá quem foram os jurados que a condenaram tampouco o juiz que assinou a sentença.

Tapumes cercam a Cadeia Velha, no Centro de Santos, e a impedem de ter contato com aqueles que adoravam suas celas irradiadoras de cultura. Tapumes são as grades que isolam um prédio que acreditava ter se livrado do passado longínquo. Mas a Cadeia hoje paga pelos pecados que talvez só sejam detectados nas gavetas da burocracia do mesmo Estado que a criou.

Na última semana, artistas do coletivo Sanatório Geral cometeram a loucura de produzir arte nos muros de madeira compensada que isola a Cadeia Velha. Em 24 horas, carcereiros de mente tão cinzenta quanto às paredes prisionais destruíram a arte nos tapumes com a crueldade de uma terapia de eletrochoque. Ali, prevaleceu o alienista machadiano, de fé cega na padronização e no pensamento hegemônico de quem se agarra no poder.

A Cadeia Velha desconfia que o cárcere público é de fins privados. A promessa é que se transforme em um museu. Promessa daquelas de criança que jura nunca mais comer doces quando está diante da bomboniere e com dinheiro no bolso.

A coerência morre no projeto, sem prazo definido e papel social cristalino. A Cadeia Velha recebeu o sorriso dos fingidos, que dizem uma coisa, pensam outra e farão o previsível de todo o inerte. Como esperar que algo aconteça quando a ordem é decepar gastos, fazer novos furos no cinto? PSDB e PT são, como previram os redundantes, irmãos gêmeos bem próximos da genética 100%.

A Cultura é tradicionalmente o primo miserável da família de sobrenome Orçamento. Os principais museus de São Paulo testemunharam funcionários arrumando suas mesas e armários depois do bilhete azul de adeus. Projetos encolheram como roupas de tecido vagabundo. Em Santos, o Museu do Café – símbolo de tempos de riqueza tipo exportação – entrou no pacote de nanismo econômico. O café ficou mais curto, nas máquinas de expresso.

A Cadeia Velha é prisioneira de si mesma. A detenção condiz com uma biografia marcada pelas cicatrizes da lentidão, da negligência, do poder na velocidade do paquiderme. A casa levou 30 anos para ser construída, no século 19. Deixou de ser Cadeia em 1956, quando não havia mais cabimento ou regime ditatorial que a justificasse como tal.

Neste século, a Cadeia deu sinal de ter encontrado uma vocação mais nobre. Ela se redimiu quando abrigou as Oficinas Pagú, nome tão sugestivo quanto justo. Hoje, o prédio vive a incerteza dos que contestadores. Resultado: vive a solitária, com a única regalia do banho do sol, mas sem contato humano, sem gente que a ressuscite a cada acorde, cada pincelada, cada texto recitado, cada peça encenada.

A Cadeia Velha contrasta com a irmã Rodoviária. A caçula hoje é, neste feriado prolongado, um endereço de múltiplas vozes e sotaques, de origens culturais distintas e necessárias. A irmã mais velha, que um dia silenciou tantos que duvidaram de quem dava as ordens, recebe a determinação de que permaneça calada, fechada em si mesma e com o futuro incerto dos prisioneiros que apenas conjecturam por que foram enjaulados.

Pior do que isso é a quietude de quem sequer desconfia de que o castigo sangra por trás dos tapumes.

Da Redação
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