A Revolução Camiliana | Boqnews

Ponto de vista

16 de abril de 2015

A Revolução Camiliana

 

I

Em 1994, à época que desenvolvia pesquisas sobre a vida e a obra do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), deparava-me frequentemente na sala de leitura da Biblioteca Nacional de Lisboa (BNL) com um colega de pesquisas que se destacava porque estava sempre trajado com uma guayabera ou slack, espécie de farda de mangas curtas, que se veste por cima das calças, muito usada na região do Caribe e popularizada no Brasil, na década de 1960, pelo presidente Jânio Quadros (1917-1992).

Foi preciso, no entanto, a coincidência de uma viagem num domingo numa caminhoneta de Lisboa para Abrantes para que nos aproximássemos. Como não poderia faltar numa conversa entre pesquisadores, quis saber o que tanto pesquisava. Ele me respondeu: – Camilo. Como à época eu acabara de escrever um ensaio intitulado O poema de forma livre: Oito Elegias Chinesas, de Camilo Pessanha, que seria publicado na Revista Vértice, de Lisboa, nº 65, março-abril de 1995, acrescentei de supetão:

– Camilo Pessanha… E ele respondeu:

– Não, o outro.

Só mais tarde é que eu descobriria que, em Portugal, só Camilo se refere sempre a Camilo Castelo Branco (1825-1890). Já Camilo Pessanha (1867-1926) exige sempre que se acrescente o sobrenome para identificá-lo. Nos dias seguintes, quando cruzávamo-nos nos corredores da sala de leitura da BNL, ele sempre me recomendava: – Não deixe de estudar também Camilo, o outro, dizia, sorrindo, com ironia.

Só agora, vinte e um anos depois daqueles encontros rápidos e acidentais, em meio a jornais e papéis amarelecidos, reencontro o espírito daquele velho pesquisador da BNL – até porque a nossa alma sempre fica impregnada naquilo que escrevemos –, ao ler Futilidade da novela: a revolução romanesca de Camilo Castelo Branco (Campinas, Editora da Unicamp, 2012), em que o seu autor, o professor Abel Barros Baptista (1955), cita largamente Alexandre Cabral (1917-1996), com certeza, o maior pesquisador da obra e da vida do grande romancista português, autor de Dicionário de Camilo (Lisboa, Editora Caminho, 1989) e outros tantos livros sobre a obra camiliana.

II

Em Futilidade da novela, título que tirou de uma observação de Camilo que consta do prefácio que escreveu para Amor de perdição (1879) e que serve de epígrafe, Abel Barros Baptista reúne ensaios produzidos ao longo de sua vida de estudioso da obra camiliana em que procurou mostrar que o autor teve “uma visão mais ampla e mais moderna” do romance que a de Eça de Queiroz (1845-1900), ao romper com “os pilares da noção de romance que se imputa à forma queirosiana”. E que é falsa a noção de etapa de imaturidade atribuída a Camilo, argumentando que, na verdade, foi ele quem fez uma revolução no romance português, a que chama de revolução camiliana.

É no capítulo 4, Da prática – guerrilha e nome próprio – que Baptista se detém mais tempo em Alexandre Cabral, a quem atribui o primeiro esforço de explicar segundo um princípio de coerência a dimensão do trabalho de Camilo, ao defender a tese da “noção de profissionalismo” do romancista, que consta do prefácio para o segundo volume de As polêmicas de Camilo (1962-1970, reeditado em 1981-1982).

Para Cabral, se muitas vezes, aos olhos de hoje, Camilo aparece como um oportunista ou mercenário das letras, pode-se atribuir essa noção à ideia de profissionalismo que ele assumia, ao trabalhar em periódicos e passar a defender os argumentos do proprietário É o que se dá hoje com os jornalistas profissionais que, por uma questão de sobrevivência, assumem-se como ghost writers de políticos e empresários ou mesmo aqueles que escrevem os editoriais dos jornais que assumem posições que, em seu íntimo, não assumiriam. É por isso que, como dizia Cabral, Camilo pode aparecer, muitas vezes, como “escritor católico, miguelista, constitucional etc. etc., até ao extremo de se confessar ateu”. Para Cabral, “Camilo era, a seu modo, aquilo que eram os seus amigos de ocasião e refletia-se em si a ideologia dos jornais em que trabalhava.

Para Baptista, essa “noção de profissionalismo” em Camilo não deve ser vista como uma mancha na carreira do escritor nem serve para concluir que “a sua importante obra romanesca se fez apesar dela”. Ou seja, como folhetinista, ele escrevia de acordo com a ocasião, ou seja, de acordo com a orientação do patrão para o qual trabalhava.

Para Baptista, “se Camilo se diz disponível para escrever romances despóticos, jesuítas, jasenistas, cabralistas, ou monárquico-representativos, é porque ele próprio é tudo isso e ao mesmo tempo não é nada disso: paradoxo do romancista, a juntar ao paradoxo do ator como o entendia Diderot”. Por aqui se vê o que aguarda neste livro o leitor interessado na obra camiliana.

III

Abel Barros Baptista é professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Autor de Camilo e a revolução camiliana (1988), seu primeiro livro, retomado agora em Futilidade da novela: a revolução romanesca de Camilo Castelo Branco, escreveu com Luísa Costa Gomes O defunto elegante, romance epistolar, publicado em 1996, e com Gustavo Rubim Importa-se de me emprestar o Barroco?, ensaio literário/ficção, que saiu à luz

Escreveu, sobretudo, ensaios no campo específico da literatura portuguesa e brasileira, especialmente sobre Machado de Assis: A formação do nome. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Lisboa, 1991, Prêmio de Ensaio do Pen Club de Portugal; Editora da Unicamp, 2003); e Autobibliografias. Solicitações do livro na ficção de Machado de Assis (Lisboa, 1998, Grande Prêmio de Ensaio da APE; Editora Os seus últimos livros são Coligação de Avulsos. Ensaios de Crítica Literária (Lisboa, 2003), Ensaios Facetos (Lisboa, 2004), O Livro Agreste. Ensaio de curso de literatura brasileira (Editora da Unicamp, 2005), e De espécie complicada (Coimbra, 2010). Desde 1997, é diretor-adjunto da revista Colóquio/Letras. Dirigiu para as Edições Cotovia, de Lisboa, o Curso Breve de Literatura Brasileira, coleção de catorze.

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Futilidade da novela: a revolução romanesca de Camilo Castelo Branco, de Abel Barros Baptista. Campinas: Editora da Unicamp, 292 págs., 2012. Site: www.editora.unicamp.br

E-mail: [email protected]

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros.

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