A velha mentalidade | Boqnews

Ponto de vista

8 de maio de 2015

A velha mentalidade

A política partidária caminha e se balança sobre três pés quando não se interessa em resolver um problema. Ou pelo menos, empurrá-lo para um futuro incerto e infinito. Basta juntar comissões com reuniões, adicionar uma audiência pública e pronto: monta-se o circo, multiplicam-se as fotos na mídia e … marca-se novo encontro, nova audiência.

A Cadeia Velha de Santos testemunhou o vizinho Teatro Guarany abrigar uma audiência pública na última semana. No palco, um vereador como mestre de cerimônias (perdoe-me, leitor, por mantê-lo no anonimato, pois os protagonistas a serem cobrados são outros), o secretário municipal de Cultura, Fabião Nunes e o secretário estadual da área, Marcelo Araújo.

Depois de uma noite de debates, o óbvio ululante dos políticos. Promessas de nova conversa, tempo para avaliar uma proposta já sabida e a Cadeia sem destino. Houve também a oficialização de uma notícia previsível (palavras que, juntas, soam contraditórias): a reforma do lugar vai atrasar. De outubro, a entrega ficou para janeiro, se não chover, o dólar não subir, o Corinthians perder, o terremoto no Nepal e outros fatores que interferem no andamento de uma obra pública.

Não sou contra a realização de audiência pública. É ingrediente do processo democrático. Na teoria, serve para aproximar cidadãos e governantes, momento de discussões e cobranças. Compreendo também o papel essencial de parte da classe artística de Santos, que merece aplausos pela politização e pela luta por um espaço que é de todos, de fato e de direito.

O problema é que a Cadeia Velha não merece esses grilhões que simbolizam muito barulho e poucos passos arrastados. A gritaria se renova a cada conversa temperada por termos como “governança”, que mais parecem saídos de um workshop motivacional do mundo corporativo.

A reforma da Cadeia ganhou contornos de peça brechtiana. Governo do Estado e Prefeitura – que merece uma dose de multivitamínicos para dar mais energia – devem abdicar do papel de Godot e extinguir a espera sem prazo de término.

O teatro é do absurdo, embora pareça sátira de costumes. A reforma vai custar R$ 7 milhões. Descontando a tradição de obra que atrasa, como se começa um serviço – ainda mais público – com orçamento definido, mas sem saber o que será feito com o lugar? Como se elabora um projeto e começa a execução, sem avaliar as particularidades do uso do espaço? É como reformar uma residência sem a noção se será moradia, restaurante, academia, escola ou igreja.

A proposta em estado de delírio – a transformação da Cadeia Velha em Museu das Cidades – nasceu do Governo do Estado. O secretário é museólogo e atuou na Pinacoteca do Estado. Talvez explique! Agora, o movimento de xadrez é fingir que produziu a fumaça. Um museu sem a estrutura arquitetônica adequada, sem acervo e sem projeto.

A classe artística não pediu nada ofensivo ou mirabolante. A arte estampada nos tapumes da obra, e depois apagada sem cerimônia ou corte de fita, explica o que seus autores querem. Se não ficou cristalino, os artistas só desejam que a Cadeia ressuscite como centro de formação de profissionais da cultura, papel que cumpriu por 30 anos.

Precisa de audiência pública para dizer sim ao que todos sabem e/ou fingem reconhecer? A Cadeia merece mais respeito e menos palavrório, por favor.

Da Redação
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