O jornalista escocês Andrew Jennings foi, anos atrás, proibido de entrar na sede da Fifa, em Zurique, na Suíça. O repórter foi responsável por várias investigações de corrupção envolvendo a entidade que rege o futebol no planeta. Jennings publicou, entre reportagens e livros, a obra “Jogo Sujo”, que indica como a Fifa se transformou em uma empresa bilionária a partir de 1974, com a entrada de João Havelange na presidência.
O jornalista esteve no Brasil em 2014 e explicou, com antecedência, o processo que explodiu essa semana, com a prisão de sete dirigentes esportivos. As palavras dele tiveram pouca repercussão na imprensa brasileira, que joga – salvo as exceções de praxe – de costas para a política esportiva, preocupada quase que exclusivamente com a dança dentro do campo.
Jennings, por sinal, forneceu parte dos documentos utilizados pelo FBI na investigação. E postou, na noite anterior às prisões, uma mensagem no Twitter: “Amanhã, Joseph Blatter terá uma surpresa.”
O escândalo em torno da Fifa e o comportamento dos envolvidos não provoca surpresas. Alguém acreditava no contrário? Alguém duvidava de que a Fifa estava cercada de fumaça desde o final da década de 90?
A primeira obviedade é a arrogância. A Fifa prosseguiu com a eleição como se nada houvesse ocorrido. Blatter fez que não era com ele e prosseguiu com um processo eleitoral, no mínimo, antidemocrático. A entidade possui 209 membros, todo com o mesmo peso de voto. Alemanha e Brasil valem um voto. As ilhas Cook, localizadas no Caribe, também valem um voto.
No ano passado, em entrevista a um jornal inglês, Blatter disse que se sentia como Godfather. Seria o Deus-Pai Todo Poderoso ou o Poderoso Chefão? Em certo sentido, dá no mesmo.
A mesma presunção acometeu o empresário J.Hawilla, sócio-proprietário da Traffic, quando disse em entrevista, há dez anos, que enriqueceu honestamente no futebol. Ele devolveu US$ 453 milhões ao fisco norte-americano, fruto de fraudes contratuais.
A segunda obviedade diz respeito à investigação. A UEFA, de Michel Platini, ameaça com boicote à próxima Copa do Mundo, em 2018, na Rússia. Mais um blefe no jogo político. Nunca existiu uma investigação decente na Europa. Todos os dirigentes europeus com cadeira cativa na Fifa se calaram quando o promotor Michael Garcia entregou o relatório com cheiro de esgoto. A podridão acabou editada, e Garcia berrou o quanto pôde, enquanto o cheiro se dissipava naquele momento.
Existe, de fato, uma investigação do Governo suíço. No entanto, as prisões – é essencial lembrar – aconteceram por conta de fraudes fiscais nos Estados Unidos. Os dirigentes têm contas a pagar com o governo norte-americano. Como o futebol é irmão gêmeo da política, é perfeitamente plausível crer que as investigações serão peças no xadrez dos cartolas.
O terceiro ato previsível foi a abertura da CPI do Futebol, no Senado. Romário, uma exceção no futebol e na política, conseguiu as assinaturas necessárias para marcar o gol. Mas isso não significa jogo ganho. Aliás, o segundo tempo mostrará que Romário ficará isolado como nunca na grande área, boicotado pelo próprio time.
Na década passada, o Congresso Nacional – com toda a pompa dos cínicos – criou a CPI da Nike. Quantos foram presos ou indiciados? A CPI foi um circo de mídia, em que deputados chegaram a questionar porque Zidane não foi marcado em um dos gols da final contra França, em 1998. É o mesmo Congresso que autorizou a construção de um shopping de R$ 1 bilhão, que votou a favor da terceirização e que legitimou as doações de empresas em campanhas eleitorais.
A quarta redundância diz respeito à postura do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. A desfaçatez é típica do sujeito encurralado, cujas atitudes soam como declaração simbólica de culpa. O presidente fugiu de Zurique pouco antes do filé mignon, do dia da votação. Precisa explicar?
Ele retornou ao Brasil porque dificilmente será detido por aqui. O Ministério da Justiça, via Polícia Federal, garantiu que haverá cooperação com a investigação do FBI. Cooperação não é solução ativa. Neste século, 13 inquéritos foram abertos por conta de denúncias e indícios de corrupção na CBF, seja na aquisição de material esportivo, seja nos contratos de transmissão ou em amistosos da seleção. Nenhum deles resultou em indiciamento de dirigentes quanto mais em prisão.
Marco Polo Del Nero tentou se desvencilhar de José Maria Marin. Alegou que eram problemas da gestão anterior, da qual ele foi um dos vice-presidentes e braço direito de Marin. Até o nome do dirigente paulista foi retirado da fachada do prédio da CBF.
Se Marco Polo Del Nero sair do comando da CBF, quem assume é o vice-presidente mais velho. O nome dele é Delfim Pádua Peixoto Filho, presidente da Federação Catarinense de Futebol. Ele comanda a entidade desde 1985 e foi dele a sugestão para que José Maria Marin desse nome à sede da CBF.
Você realmente espera por mudanças na terra do 7 a 1?
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