O canto das águas | Boqnews

Opiniões

25 DE SETEMBRO DE 2015

O canto das águas

Por: Da Redação

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Aqui, nos trópicos, cultivar relacionamentos oportunos vende como água, e mérito não costuma ser um refresco que se põe na mesa. Desde a infância colonial, fazer política é também distribuir honrarias, conceder títulos, agradar com prêmios, retribuir o passado eternizando o presente.

Dos fidalgos aos donos de capitanias, dos coronéis aos Vossa “alguma coisa”, dos condes aos barões, dos viscondes aos doutores, dos duques aos comendadores, nos acostumamos com a autoridade constituída, concursada, eleita ou comprada como se fossem variações de uma única pessoa. O complexo de onipotência, traduzido nos ossos do poder como ofício.

Essa semana, a Câmara dos Deputados anunciou os indicados para o Prêmio Lúcio Costa de Mobilidade, Saneamento e Habitação 2015, resultado que arrepiaria o melhor dos dramaturgos do Teatro do Absurdo, o mais criativo autor de Literatura Fantástica. Uma tragédia em três atos!

No primeiro ato, a escolha do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, na categoria “Personalidade” por conta da gestão em recursos hídricos. A escolha retrata a aridez criativa e o desabastecimento de ideias coerentes por parte da classe política. A sede de poder mostra que, entre os gabinetes e as ruas, há um sistema Cantareira de distância. Joga-se água fria em quem duvida se o que vimos no ano passado não foi fruto de olhos lacrimejantes.

O segundo ato foi a resposta do governador ao prêmio. Quando disse que a escolha dele era “modéstia à parte, merecida”, Alckmin novamente afogou problemas cristalinos, tentando transformá-los em questões incolores, insípidas e inodoras. Ele insiste com classificar São Paulo como um oásis, cercado por desertos políticos. A visão delirante de um peregrino diante da miragem?

O ato final envolve o deputado federal que indicou Geraldo Alckmin. João Paulo Tavares Papa vendeu água para pescador na beira do rio. O ex-prefeito de Santos se refrescou duplamente com o canto dos cisnes. Ele, em primeiro lugar, indicou o ex-chefe. Papa foi diretor da Sabesp no intervalo entre a saída da Prefeitura e a campanha para deputado federal.

Completando o conflito de interesses, o deputado tucano abençoou a si mesmo, já que fazia parte da empresa que administra a (falta de) água em São Paulo. Em entrevistas, Papa justificou a indicação como resultado de uma política de saneamento básico que se aproxima da universalidade no Estado. O deputado se esqueceu da região onde mora e trabalhou quase a vida toda? Falar de universalidade de saneamento na Baixada Santista, para quem reside na periferia?

A política realmente banha as pessoas com novos cantos da sereia. Neste calor de primavera-verão, o prêmio para Alckmin confirma como as ligações entre políticos e eleitores secam depois que os votos pingam nas urnas. E reforçam que os carinhos e os mimos entre iguais lavam a memória coletiva nos corredores do poder, sempre alagados de desfaçatez e descompromisso público.

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