Afogado em papéis | Boqnews

Ponto de vista

13 de novembro de 2015

Afogado em papéis

Não consigo fugir deles. Guardo cada vez menos. Imprimo o mínimo necessário. Repasso cada vez mais. Um país cartorial como o nosso, quando a papelada chegou nas caravelas antes da nação, não perdoa: tudo precisa de papel. E, com ele, vem os “donos” das pilhas de folhas, os reis do frente e verso: os burocratas.

A burocracia é um esporte cotidiano brasileiro. Tudo passa por um carimbo, um código, um número, uma assinatura, uma sigla, um registro que se sobrepõe a outro registro, que anula o registro anterior, que renova o registro para que tudo esteja devidamente registrado. Por quem? Para quê?

Sempre desconfiei da burocracia. Você aprende com o tempo que, quase sempre, é uma cena para qual você foi convocado, jamais convidado. Seu papel é providenciar e entregar papéis. Folhas que cumprem protocolo, que se avolumam e ganham importância pelo tamanho, quase nunca pelo conteúdo. Poucos leram ou lerão a papelada. Prevalece a conferência, olhar que a ordem é a correta, se os carimbos e assinaturas estão nos devidos lugares.

O burocrata é o símbolo da desconfiança. Antes de dificultar para facilitar, ele te olha de cima abaixo. A mesa ou balcão são seus escudos. Assim, evita-se o contato corporal que vai desnudar a fragilidade de quem “só trabalha aqui”, de quem responsabiliza o “sistema”, a “fiscalização” pela lista de papéis que tem que ser entregues. Para ontem! O burocrata almoça urgência, janta emergência.

Depois de te medir, o burocrata sorri. O sorriso procura amaciar a carne alheia, antes de bater nela com um formulário, um ofício, uma xerox, uma nova regra em outro formulário, ofício – você já sabe o caminho. Burocracia é, claro, repetição. A segurança da mesa, aliada à pilha de documentos que viraram estátuas. Quanto maior a pilha intocável, mais sagrado será o discurso de que há muito serviço a fazer. São os tempos modernos de Chaplin, versão inércia.

Depois do sorriso falsamente afetuoso, nasce a fala mansa. Um burocrata faz de tudo para evitar o conflito. Berros, só em último caso, e ainda assim quando a hierarquia lhe é favorável em absoluto. Sem riscos de ser apanhado em flagrante delito de estelionato como operário-padrão.

A fala cadenciada traduz o poder concedido. As palavras são mecânicas, próximas de um atendente de fast-food. No combo, a tríade “sanduíche-batata-refrigerante”, ou seja, documentos pessoais, as taxas e a nova “velha” documentação que dá novos ares àquele número que você já é. Um novo documento, atualizado esteticamente, para confirmar que você está na lista.

Um burocrata nunca confia em você. Até porque ele não é confiável. Ele só cumpre ordens e, portanto, não pode medir consequências de seus atos. O combustível é a impessoalidade, que contradiz e confirma a frase “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei.” Burocracia é punição para quem não pertence à turma, para quem não pode dizer “você sabe com quem está falando”.

O burocrata nos pune pela sua própria desorganização, travestida de mais informações inúteis que – ele mesmo sabe porque geralmente a pratica – cumprem protocolos, mas se posicionam bem distantes da verdade dos fatos. Burocratizar mascara pessoas, esconde dados e pouco representa o papel de cada envolvido no processo que levou à multiplicação da papelada.

A burocracia é a nossa forma de dizer que não acreditamos em nós mesmos, embora digamos que a culpa é sempre do outro. Pudera: vivemos num país onde a palavra vale pouco ou menos daquela registrada, carimbada e homologada no papel, que costuma nascer arquivo morto.

Da Redação
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