Carlos Nejar: o espetáculo da palavra | Boqnews

Ponto de vista

26 de novembro de 2015

Carlos Nejar: o espetáculo da palavra

  I

Se como ensina o professor Massaud Moisés (1928), em A criação literária. Prosa II (São Paulo, Editora Cultrix, 19ª ed., 2005), prosa poética é a fusão da poesia e da prosa, caracterizada pela musicalidade, pela metaforização abundante e a divisão da frase em segmentos que recordam a cadência do verso, O feroz círculo do homem (Taubaté-SP, Editora Letra Selvagem, 2015), de Carlos Nejar (1939), preenche todos esses requisitos. Constitui, portanto, um romance escrito inteiramente em prosa poética.

Como observa o jovem escritor, jornalista e crítico Diego Mendes Sousa (1989) no posfácio que escreveu para este livro, em dez capítulos de O feroz círculo do homem, o leitor pode escutar a voz de Carlos Nejar ecoar no pensamento do relator Tibúrcio Dalmar, personagem enveredado na arte de guardar as sombras das almas no sótão de um tenda localizada em Pontal do Orvalho – entre o cimo do monte e as margens do rio João Aragem – que toma a forma de uma Caverna circular, governada pelo enigmático Círculo.

Como logo percebe o culto leitor, o livro recorre à alegoria da caverna, também conhecida como parábola da caverna, mito da caverna ou prisioneiros da caverna, passagem escrita por Platão que se encontra na obra intitulada A República (Livro VII) em que o filósofo grego procura mostrar como o ser humano pode se libertar da condição de escuridão que o aprisiona através da luz da verdade. Nessa obra, Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal.

 

II

Na apresentação que escreveu para este livro, o romancista Miguel Jorge (1933) define esta obra como “uma ópera filosófica”, dizendo que este romance funciona “como se um coro de vozes levantasse outras vozes no respirar intranquilo de um círculo desenhado em linhas de fogo”. Compara-o ainda a uma “catedral de forma barroca onde as figuras, no milagre de um tempo passado, podem ser vistas de vários ângulos e várias faces”.

Neste caso, é a palavra que constitui o espetáculo, pois, como observa o romancista, “a palavra, senhora de todos os espaços, como se desse cor ao coro de vozes, vibrava ao vento”. Ou seja, a palavra aqui adquire o sentido bíblico, de voz de Deus, a explicação para aquilo que não se explica, para as nossas ansiedades e perplexidades diante do Desconhecido. Diz Nejar:

“E onde a palavra se impõe, declina a razão. E onde o sobrenatural se entremostra, cada vez mais entramos e saímos na palavra. Até rebentar de novo a semente, as plantas, flores, árvores, montanhas. Nem importa o que poderia ter sido a história, mas do que sucede e sucederá”.

Para Miguel Jorge, não há medida para este romance, ou ensaio filosófico, que ele define também como “peça para um teatro de sensações históricas, capaz de revelar a dicotomia ou trilogia incorporada ao conceito literário modernista”. É o que se pode perceber neste trecho de Nejar:

“Nada se sabe”, diz Fernando Pessoa, “tudo se imagina”. Mas vivi mais do que imaginei, até imaginar mais do que vivi. Como admitir que a vida toda é apenas imaginação. Às vezes uma imaginação que endoidou e volta à cura sonhando”.

 

III

Carlos Nejar, gaúcho de Porto Alegre, radicado em Vitória, no Espírito Santo, é também poeta, tradutor, advogado, promotor e procurador de Justiça aposentado. Foi considerado um dos 37 escritores-chave do século, entre 300 autores memoráveis no período compreendido entre 1890 e 1990, segundo ensaio do crítico suíço Gustav Siebenmann (1923) no livro Poesía y poéticas del siglo XX en la America Hispánica y el Brasil (Editora Gredos, Biblioteca Românica Hispânica, Madri, 1970).

Seu primeiro livro de poesias, Sélesis, foi lançado em 1960. Hoje, sua bibliografia conta com mais de 30 títulos de poesia, além de romances como Um certo Jaques Netan (1991), O túnel perfeito (1994), Carta aos loucos (1998), e Riopampa, ou o moinho das tribulações (Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2000) e ensaios diversos e até literatura infanto-juvenil como O Menino-rio (1985), Era um vento muito branco (1987), A formiga metafísica (1988), Zão (1989) e Grande vento (1997).

Participou de antologias e coletâneas de poesias e tem sua obra traduzida para diversos idiomas. Em 1989, entrou na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de seu conterrâneo Vianna Moog (1906-1988). Participou de vários congressos e eventos internacionais de poesia, representando o Brasil, e foi premiado em diversas oportunidades: Prêmio Nacional de Poesia, do Instituto Nacional do Livro, em 1970; Prêmio Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, em 1974; Prêmio Monteiro Lobato, em 1981; e Troféu Cassiano Ricardo, do Clube de Poesia, em 1995, entre outros.

Seus principais livros de poesia são O campeador do vento (1966), Danações (1969), Ordenações (1971), Casa dos arreios (1973), O poço do calabouço (1974), A árvore do mundo (1977), Os viventes (1979), Livro de gazéis (1984), A genealogia da palavra (1989), Amar, a mais alta constelação (1991), Simon vento Bolívar (1993), Arca da aliança (1995), Sonetos do paiol, e Ao sul da aurora (1997). A exemplo de O feroz círculo do homem, de prosa poética é também O poço dos milagres (Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes, 2005).

Em 2013, saiu a terceira edição de Viventes, acrescida de 300 novos poemas, e o romance A negra labareda da alegria.  Em 2012, publicou Contos inefáveis, pela editora Nova Alexandria. Em 2014, A vida secreta dos gabirus, pela Editora Record, e Matusalém de flores, pela Editora Boitempo.

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O feroz círculo do homem, de Carlos Nejar. Taubaté-SP: Editora Letra Selvagem, 160 págs., 2015, R$ 35,00. E-mail: [email protected]

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: [email protected]

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