Caso Localfrio, imagem de novela repetida | Boqnews

Ponto de vista

16 de janeiro de 2016

Caso Localfrio, imagem de novela repetida

Desde pequeno sempre ouvi dizer que se um dia houvesse um incêndio na Ilha Barnabé, Santos iria pelos ares. Era um temor que carregávamos, com a sensação de que vivíamos em um autêntico barril de pólvora.

No início dos anos 90, aconteceu o que era temido: vazamento de produtos químicos e tóxicos em um tanque. Fogo e perigo, mas sem vítimas, apenas danos materiais.

Anos depois, em um setembro nublado às vésperas das festividades da Padroeira de Santos, um novo foco de incêndio em um dos tanques da mesma ilha. Não houve vítimas neste episódio, mas, infelizmente, um acidente de trânsito envolvendo a viatura dos Bombeiros, que saía em direção a Cubatão, e um veículo, matou um ciclista que passava pelo cruzamento das ruas Martim Afonso e Brás Cubas.

Ao que parece, estes dois episódios envolvendo tanques químicos “abriram a porteira” para que outros ocorressem, sejam incêndios em embarcações ou terminais de açúcar, sejam vazamentos de produtos químicos que atingem não apenas os trabalhadores, mas também os munícipes. Sem contar o episódio da Ultracargo, no ano passado, na região da Alemoa, que prejudicou toda a cadeia logística portuária, trazendo prejuízos econômicos coletivos, além do impacto ambiental, sempre relegado a segundo plano.

Portanto, nem bem o episódio de abril passado da Ultracargo foi plenamente esclarecido – cujos impactos ambientais reais só serão sentidos no futuro – e agora nos deparamos com o episódio do acidente ocorrido em um contêiner em uma área do terminal da Localfrio, na margem esquerda do Porto de Santos, em Guarujá. O incêndio provocou o lançamento de toneladas de ácido dicloro isocianúrico de sódio no ar. Além deste produto químico, foram jogados na atmosfera o peróxido orgânico e nitrato de potássio, segundo a Cetesb.

Independente de conhecer ou não a tabela periódica explicadas nas aulas de Química, os sintomas foram sentidos por milhares de pessoas tanto em Vicente de Carvalho, Santos e Cubatão. Dezenas de munícipes tiveram que comparecer às unidades de saúde para serem atendidos. Sem contar que vias ficaram intransitáveis em razão da forte neblina provocada pelos gases, o cheiro insuportável e a interrupção da travessia de balsas entre Santos e Vicente de Carvalho por mais de uma hora. A situação só não foi pior porque no momento do incêndio os ventos estavam fracos (12 km/h) e eram direcionados ao estuário, mas a direção foi alterada no final da tarde, atingindo diversos bairros de Santos deixando a Cidade e áreas da região com o característico fog londrino.

Enfim, mais uma explosão, mais uma novela. Veremos agora as autoridades e empresa tentando justificar o ocorrido, com o blá, blá, blá de sempre. E em algumas semanas, este episódio cairá novamente no esquecimento. Enquanto isso, as sequelas – tanto das pessoas como do meio ambiente – ficarão marcadas com resultados imprevisíveis.

Fica claro, portanto, que ainda estamos longe de encontramos soluções rápidas para enfrentar cenários críticos como o da última quinta (14). E o pior: sem perspectivas de que algo mude. Até quando a população terá que conviver com esta incerteza? Apesar de Santos (ou qualquer outra cidade) não ir pelos ares caso ocorresse algum incêndio deste nível, os efeitos negativos são inevitáveis. Resta saber até quando iremos conviver com tais situações e se as punições e multas a serem aplicadas efetivamente resultam em melhorias na segurança e na qualidade de vida da população? Alguém aposta nos resultados?

Fernando De Maria
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