Com uma estimativa de 390 mil pessoas confirmadas no protesto denominado Operação Sete de Setembro, programado para este sábado (7), Dia da Independência, em 149 cidades, o evento representa mais que a continuidade da onda de manifestações iniciadas em meados de junho.
Fruto de uma cultura política particular, brasileiros pouco reivindicam direitos em manifestos, não obstante o reconhecimento de problemas do cotidiano. Saúde, educação, mobilidade urbana são apenas alguns setores mais críticos do País. Mas enquanto a discussão e o debate não iam além das mesas dos bares ou das discussões nas redes sociais da Internet, a nova geração recebia o protótipo de "apática".
O paradigma começou a ser quebrado em meados de junho de 2013, quando o Movimento Passe Livre foi às ruas de São Paulo reivindicar por transporte público gratuito de qualidade (filosofia e mote do movimento social), espalhando por outras capitais. Com o aumento de R$ 0,20 no transporte em São Paulo, a ponta do iceberg da revolta dos brasileiros estava exposta. E o que era para ser uma luta exclusiva sobre problemas no transporte público se converteu em algo maior. Brasileiros saíram de frente da tela do computador. Saíram dos escritórios. Levantaram-se das cadeiras dos bares nos happy hours. Foram às ruas.
Somente em junho, quase 2 milhões de brasileiros participaram das manifestações em 438 cidades, de acordo com levantamento feito pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), incluindo cidades da Baixada Santista, onde Santos levou mais de mil pessoas em passeatas. As pautas reivindicatórias foram inúmeras. Os cartazes refletiam a situação do País e também a um certo "divã" político.
A crise ideológica (a eterna dicotomia esquerda x direita) reflete na falta de direcionamento das reivindicações das manifestações pelas cidades brasileiras. Afinal, o que isso significa na prática?
Apartidarismo
O cientista político da Universidade de São Paulo (USP), Lincoln Secco, explica que nem metade do eleitorado se identifica com partidos políticos no Brasil. "Existe uma tradição cultural brasileira à recusa de mediações, formalidades e contratos".
O apartidarismo orientou a maioria dos manifestantes. "Pode-se dizer que os primeiros protestos eram de esquerda e o deste sábado (7) se enquadram mais na direita", opina Sarah Rodriguez, produtora cultural do coletivo santista Nave Cultural, (que articula com a rede Fora do Eixo), uma das organizadoras dos protestos de junho em Santos. "Na verdade, é mais fácil [organizar um protesto pelas redes sociais]. Muitas pessoas têm acesso. O difícil é ter a certeza de que as pessoas realmente vão aderir à manifestação". Essa experiência foi muito satisfatória para Sarah e seus amigos. "Pela primeira vez uma manifestação organizada pelas redes sociais deu certo. Muitas pessoas se mobilizaram e compareceram".
Inclusive, para o protesto esperado para este final de semana - planejado de forma simbólica ao feriado de 7 de setembro, quando se comemora a Independência do Brasil - os manifestantes vão se dividir ideologicamente mais uma vez, independente do número de participantes dos atos. Essa, pelo menos, é a previsão que o cientista político Lincoln Secco projeta.
"Acredito que as ruas vão se dividir. Haverá protestos da esquerda, tradicionais, como o Grito dos Excluídos. E haverá protestos de direita disfarçados de neutralidade ideológica". O impacto midiático do Operação Sete de Setembro, entretanto, não deverá ser igual aos de junho e julho deste ano. "[As primeiras manifestações] pegaram a todos de surpresa. Esquerda e direita ocuparam as mesmas ruas. É mais provável que grandes protestos voltem na época da Copa do Mundo, mas ainda não sabemos".
Perspectiva
Seja qual ideologia rege o sentimento político individual no País, é possível ter uma certeza: o brasileiro quer acreditar no futuro em termos de progresso.
"As gerações críticas do passado que desaguaram no PT e no PSDB queriam um país capitalista desenvolvido. Não diria que o Brasil é desenvolvido, mas em boa parte chegamos lá. Temos uma grande economia e pleno emprego. Hoje faltam empregos qualificados, segurança, saúde e a educação é lamentável".
O cientista político conclui: "As pessoas que ascenderam socialmente em seu nível de renda chegaram à conclusão de que a vida delas melhorou, mas continua ruim. É um paradoxo", destaca o cientista político.
Sem bandeira partidária
De acordo com um dos representantes do Passe Livre Unificado (PLU) da Baixada Santista, Luiz Fernando Lobão, o manifesto deste sábado (7) tem como principais reivindicações a melhoria do transporte público e a luta pela transparência na política. "Nosso grupo não é partidário. É independente", esclarece. O grupo foi formado após a saída do Movimentro Passe Livre das ruas. "Eu que participei não me conformei quando eles decidiram sair desta luta. Foi neste momento que surgiu o PLU, de forma a dar continuidade às manifestações. Hoje, 17 cidades possuem o movimento", conta.
Para Lobão, uma mudança significativa que todas estas manifestações já provocaram é o fato de trazer estas pautas à tona. "As pessoas estão conversando sobre mobilidade urbana e corrupção. E isto já é uma grande conquista", acredita. "Precisamos acabar com a cultura da corrupção", diz.
Neste sábado (7), o grupo, que está atuando junto com mais quatro movimentos (Chega de Omissão, Fora Renan, OperaçãoSetedeSetembro e OP 7 de Setembro) se concentrará, a partir das 14 horas, na Praça da Independência, no Gonzaga, e seguirá sentido Ponta da Praia. O traçado foi escolhido de maneira que não atrapalhasse o trânsito e que as pessoas não fossem prejudicadas. "Não temos como saber quantos pessoas irão participar, mas imaginamos que pelo menos 10% das pessoas confirmadas no Facebook. Serão, então, cerca de 300 pessoas sem máscaras". (NA e NG)
Com uma estimativa de 390 mil pessoas confirmadas no protesto denominado Operação Sete de Setembro, programado para este sábado (7), Dia da Independência, em 149 cidades, o evento representa mais que a continuidade da onda de manifestações iniciadas em meados de junho.
Fruto de uma cultura política particular, brasileiros pouco reivindicam direitos em manifestos, não obstante o reconhecimento de problemas do cotidiano. Saúde, educação, mobilidade urbana são apenas alguns setores mais críticos do País. Mas enquanto a discussão e o debate não iam além das mesas dos bares ou das discussões nas redes sociais da Internet, a nova geração recebia o protótipo de “apática”.
O paradigma começou a ser quebrado em meados de junho de 2013, quando o Movimento Passe Livre foi às ruas de São Paulo reivindicar por transporte público gratuito de qualidade (filosofia e mote do movimento social), espalhando por outras capitais. Com o aumento de R$ 0,20 no transporte em São Paulo, a ponta do iceberg da revolta dos brasileiros estava exposta. E o que era para ser uma luta exclusiva sobre problemas no transporte público se converteu em algo maior. Brasileiros saíram de frente da tela do computador. Saíram dos escritórios. Levantaram-se das cadeiras dos bares nos happy hours. Foram às ruas.
Somente em junho, quase 2 milhões de brasileiros participaram das manifestações em 438 cidades, de acordo com levantamento feito pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), incluindo cidades da Baixada Santista, onde Santos levou mais de mil pessoas em passeatas. As pautas reivindicatórias foram inúmeras. Os cartazes refletiam a situação do País e também a um certo “divã” político.
A crise ideológica (a eterna dicotomia esquerda x direita) reflete na falta de direcionamento das reivindicações das manifestações pelas cidades brasileiras. Afinal, o que isso significa na prática?
Apartidarismo
O cientista político da Universidade de São Paulo (USP), Lincoln Secco, explica que nem metade do eleitorado se identifica com partidos políticos no Brasil. “Existe uma tradição cultural brasileira à recusa de mediações, formalidades e contratos”.
O apartidarismo orientou a maioria dos manifestantes. “Pode-se dizer que os primeiros protestos eram de esquerda e o deste sábado (7) se enquadram mais na direita”, opina Sarah Rodriguez, produtora cultural do coletivo santista Nave Cultural, (que articula com a rede Fora do Eixo), uma das organizadoras dos protestos de junho em Santos. “Na verdade, é mais fácil [organizar um protesto pelas redes sociais]. Muitas pessoas têm acesso. O difícil é ter a certeza de que as pessoas realmente vão aderir à manifestação”. Essa experiência foi muito satisfatória para Sarah e seus amigos. “Pela primeira vez uma manifestação organizada pelas redes sociais deu certo. Muitas pessoas se mobilizaram e compareceram”.
Inclusive, para o protesto esperado para este final de semana – planejado de forma simbólica ao feriado de 7 de setembro, quando se comemora a Independência do Brasil – os manifestantes vão se dividir ideologicamente mais uma vez, independente do número de participantes dos atos. Essa, pelo menos, é a previsão que o cientista político Lincoln Secco projeta.
“Acredito que as ruas vão se dividir. Haverá protestos da esquerda, tradicionais, como o Grito dos Excluídos. E haverá protestos de direita disfarçados de neutralidade ideológica”. O impacto midiático do Operação Sete de Setembro, entretanto, não deverá ser igual aos de junho e julho deste ano. “[As primeiras manifestações] pegaram a todos de surpresa. Esquerda e direita ocuparam as mesmas ruas. É mais provável que grandes protestos voltem na época da Copa do Mundo, mas ainda não sabemos”.
Perspectiva
Seja qual ideologia rege o sentimento político individual no País, é possível ter uma certeza: o brasileiro quer acreditar no futuro em termos de progresso.
“As gerações críticas do passado que desaguaram no PT e no PSDB queriam um país capitalista desenvolvido. Não diria que o Brasil é desenvolvido, mas em boa parte chegamos lá. Temos uma grande economia e pleno emprego. Hoje faltam empregos qualificados, segurança, saúde e a educação é lamentável”.
O cientista político conclui: “As pessoas que ascenderam socialmente em seu nível de renda chegaram à conclusão de que a vida delas melhorou, mas continua ruim. É um paradoxo”, destaca o cientista político.
Sem bandeira partidária
De acordo com um dos representantes do Passe Livre Unificado (PLU) da Baixada Santista, Luiz Fernando Lobão, o manifesto deste sábado (7) tem como principais reivindicações a melhoria do transporte público e a luta pela transparência na política. “Nosso grupo não é partidário. É independente”, esclarece. O grupo foi formado após a saída do Movimentro Passe Livre das ruas. “Eu que participei não me conformei quando eles decidiram sair desta luta. Foi neste momento que surgiu o PLU, de forma a dar continuidade às manifestações. Hoje, 17 cidades possuem o movimento”, conta.
Para Lobão, uma mudança significativa que todas estas manifestações já provocaram é o fato de trazer estas pautas à tona. “As pessoas estão conversando sobre mobilidade urbana e corrupção. E isto já é uma grande conquista”, acredita. “Precisamos acabar com a cultura da corrupção”, diz.
Neste sábado (7), o grupo, que está atuando junto com mais quatro movimentos (Chega de Omissão, Fora Renan, OperaçãoSetedeSetembro e OP 7 de Setembro) se concentrará, a partir das 14 horas, na Praça da Independência, no Gonzaga, e seguirá sentido Ponta da Praia. O traçado foi escolhido de maneira que não atrapalhasse o trânsito e que as pessoas não fossem prejudicadas. “Não temos como saber quantos pessoas irão participar, mas imaginamos que pelo menos 10% das pessoas confirmadas no Facebook. Serão, então, cerca de 300 pessoas sem máscaras”. (NA e NG)