Cobranças

Altas tarifas turísticas impedem desenvolvimento turístico regional

Taxas cobradas por prefeituras da região encarecem atividades ligadas ao turismo local

09 de setembro de 2019 - 09:29

Felipe Rey

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A despeito de estar em uma região metropolitana, a cobrança – de forma individual – de taxas para ingressos nas cidades, seja por vans ou ônibus, mesmo que de municípios vizinhos, tem prejudicado o setor de turismo receptivo.

Afinal, das nove cidades da Baixada Santista, apenas duas não cobram tarifas às empresas de transporte de turismo: Santos e Cubatão.

Essas taxas, por exemplo, vêm trazendo prejuízos aos donos de agências regionais.

Os números cobrados se mostram tão elevados que na última semana o vereador e presidente da Câmara de Guarujá, Edilson Dias (PT), argumentou que a cobrança deve ser feita apenas aos ônibus de fora da Cidade.

Segundo Dias, os valores cobrados têm por finalidade organizar o turismo local para não causar prejuízos ao trânsito regional.

Porém, ele ressalta que se a taxa também for cobrada para os turistas locais, prejudicará e, até mesmo, inviabilizará a exploração desse tipo de atividade por munícipes que exploram o serviço.

A argumentação do edil foi encaminhada ao prefeito Válter Suman (PSB) que poderá – ou não – alterar o decreto municipal 12.186 /2017, que disciplina a entrada, permanência e circulação de veículos de turismo no Município. Hoje, os munícipes locais não pagam a taxa.

Somente veículos com placas de fora, acima de seis lugares.

Ou seja, se o veículo locado para viagens for de outro município, mesmo que a atividade seja de embarque em Guarujá, deverá pagar a taxa.

A Prefeitura de Guarujá, por meio de nota, informa desconhecer o pedido do vereador, contudo, ressalta que existem outras opções de acesso à Cidade, inclusive com carro particular.

“Constatamos somente benefícios, pois a taxa cobrada é revertida para o Fundo Municipal de Turismo, que investe este valor no setor, com obras de infraestrutura e eventos para atrair ainda mais turistas”, afirma, em nota.

 

Prejudicial

Enquanto as prefeituras regionais ressaltam que não há prejuízos locais, mesmo com os valores considerados altos, proprietários de empresas que realizam o transporte de passageiros dizem o oposto.

É o caso do dono da Poney Tour, Marcio Gonçalves Custódio, empresa com sede em Santos.

Ele enfatiza que a cobrança limita o desenvolvimento turístico da Costa da Mata Atlântica, prejudicando os turistas que se encontram em Santos, mas desejam conhecer outros destinos na Baixada.

“Enquanto outras regiões do Brasil vendem seus pacotes turísticos como Serras Gaúchas e Lençóis Maranhenses, nós aqui ficamos limitados a apenas um município”, comenta.

Custódio ainda explica que os contatos com as secretarias municipais está sendo desanimador, uma vez que falta interesse em ouvir as demandas dos profissionais do setor.

“Para citar um exemplo: fechei com um grupo de uruguaios que jogarão futebol no Portuários. Na última quinta (5), estava planejada uma visita ao Guarujá. No entanto, o passeio foi cancelado devido ao alto valor cobrado”, afirma.

Segundo o empresário, hoje o Guarujá não tem sido tão procurado em pacotes de translado entre as cidades da região devido a elevada taxa de cobrança de R$ 800 para vans, R$ 1.600 para micro-ônibus e R$ 3.200 para ônibus.

Ele ressalta, porém, que o município é introduzido no roteiro, caso haja interesse do turista, mas a procura é praticamente nula.

 

 

Arte: Mala

 

Possíveis ajudas

Assim como Custódio, Renato Marchesini, dono da Caiçara Expedições, também de Santos, ressalta a dificuldade para as reivindicações dos profissionais do setor serem ouvidos e também pelo difícil acesso às autorizações para que consigam circular pelas cidades vizinhas.

Marchesini explica que, ao longo de uma década da empresa, inúmeros grupos turísticos foram perdidos pelo elevado valor cobrado.

“Atendo 4 mil pessoas por ano. Mas sem essas taxas eu conseguiria dobrar o atendimento”, afirma.

Segundo o proprietário, é necessário ‘correr’ atrás dos setores responsáveis de cada cidade para conseguir a permissão de entrada.

Conforme ele, tais cobranças tornam difícil a formação e operacionalização de um produto turístico regional integrado.

Contudo, ele tenta solucionar os problemas sugerindo ideias para que possam melhor o futuro do turismo regional.

A ideia inicial, segundo ele, é a criação a criação de um selo metropolitano ou um certificado que permita livre circulação para as Agências de Turismo Receptivo Regional.

“Um órgão regulador único é mais uma sugestão”, enfatiza o profissional.

 

Sem prejuízos

Apesar das agências turísticas evidenciarem pontos negativos na cobrança elevada das taxas, as Prefeituras não enxergam da mesma forma.

Segundo os executivos, não há prejuízos econômicos e nem turísticos para os municípios.

A Secretaria de São Vicente, por meio de nota, informa que há constantes ações para manter o turismo aquecido especialmente no período do inverno, após a temporada de verão.

As festividades começam em maio.

A Prefeitura de Peruíbe, por sua vez, implementou as cobranças em 2009 e desde aquele período salienta que os números de visitantes só cresceram.

“As taxas são importantes ferramentas de auxílio à arrecadação do município”, informa, em nota.

O Executivo de Bertioga, também por meio de nota, enfatiza que a regulamentação permitiu um melhor ordenamento do turismo que chega via coletivos de passageiros, contribuindo para uma melhora turística local.

A regulamentação fora implementada em 2015.

 

Reuniões

As constantes reuniões entre a Agência Metropolitana de Turismo (Agem), Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Baixada Santista (Condesb), e membros das entidades turísticas, tentam chegar a um acordo que ajude a melhorar o turismo da região.

Porém, segundo constam nas atas da Condesb de abril e maio deste ano (as mais recentes), os objetivos parecem estar longes de serem colocados em prática.

Muita retórica, pouco resultado.

Em abril passado, o representante de Peruíbe, Eduardo Ribas apontou questões que não estavam sendo resolvidas, dentre elas o Plano Regional de Turismo que não foi concretizado.

Ribas ainda preconizou que o selo metropolitano deva ter um mecanismo regional que acabe com os ‘muros’ entre as cidades vizinhas.

Nesta mesma reunião, a coordenadora Ana Cristina Clemente havia sugerido que a discussão sobre o selo fosse feira na reunião marcada para maio.

Por outro lado, em 6 de maio, o foco da reunião foi para que não houvesse cobranças entre cidades.

O representante do Instituto Federal de São Paulo, Thiago Schulzt, propôs que as agências de turismo sejam o usuário e o município o administrador da entrada de veículos turísticos na região.

Segundo consta na ata, a isenção de taxa seria compensada pelasa compras no comércio.

No entanto, não consta no documento quando haverá nova reunião e se algum dos posicionamentos fora resolvido.

Pelas reclamações das empresas do setor, nada mudou.