Nesta quarta-feira (1º), comemora-se o Dia do Trabalho. Data que é cada vez mais celebrada por pessoas de cabelos brancos que continuam na ativa mesmo depois de chegar à Quarta Idade: os 80.
Na reportagem, quatro personagens, quatro histórias diferentes. Em comum, apenas as marcas do tempo estampadas no corpo. O andar já não é tão ágil, mas a memória está intacta.
Ao mesmo tempo que as datas se embaralham, as histórias vividas e repassadas na memória parecem que aconteceram no dia anterior, tamanha riqueza de detalhes. Se o corpo apresenta uma certa idade, a conversa reduz drasticamente esta diferença.
Qual o segredo para chegar e ultrapassar os 80 anos em plena saúde física e mental e ainda trabalhando? Sem dúvida, para eles, é nunca ter parado. Após a aposentadoria, por tempo de serviço ou mesmo pela idade, eles não param e nem pensam em tal possibilidade. E continuam na ativa, seja na área em que sempre atuaram ou em outras que se aventuraram após a aposentadoria.
Segundo a pesquisadora no assunto Anita Neri, é inevitável que o idoso sofra algumas perdas nesta fase da vida, assim como ocorre em todas as etapas do desenvolvimento. Porém, há um grande número de idosos que consegue manter a capacidade biológica e o funcionamento biopsicossocial bem próximo aos dos adultos jovens. Pois, o acúmulo de conhecimento e desenvolvimento de habilidades compensam as perdas naturais decorrentes do avanço da idade.
Odontologia aos 80
Oitenta anos de uma história de amor com a Odontologia. Esta é a melhor descrição para o cirurgião-dentista Nilson Denari, que acabou de chegar aos 80. Filho de dentista, desde pequeno sentia os aromas da profissão. "Eu me apaixonei ainda criança pela Odontologia e me casei quando formado", brinca.
Em uma simples conversa, percebe-se a paixão de Denari com o que faz. Os olhos brilham a cada explicação de como é o seu trabalho, e indagado se irá parar, a resposta é simples: "nunca". Relembra que quando o pai decidiu se aposentar, no dia que iria avisá-lo, faleceu dentro do carro.
Ele, que não gosta de ser chamado de senhor, apenas pelo nome ou você, está em constante evolução. Tem quatro filhos do primeiro casamento e o atendimento aos pacientes ainda é à moda antiga, criando laços de amizade.
Denari vai muito além de cuidar dos dentes dos outros: já escreveu dois livros - Boca, espelho da Alma e Na Busca das Belezas Ocultas da Odontologia como arte e ciência -, gosta de música - toca na banda Os Insistentes - , de filosofia e tem grande ligação com a religião. Chegou a conhecer Chico Xavier, na época em que sua esposa estava internada em estado terminal.
Um paciente amigo - que estava com uma dor de dente - marcou uma consulta. "Ao chegar a dor simplesmente passou e na conversa comigo ele disse: Já sei, estou aqui com a missão de levá-lo até o Chico. Sinto que está precisando", relembra. No dia seguinte, às 5 horas da manhã partiam os dois rumo à um Hotel em Poços de Caldas. Na conversa com o médium, ele disse que sua mulher morreria, mas que ele não precisava se preocupar, que logo encontraria alguém para ajudá-lo. Depois de seis meses conheceu - num curso - sua atual esposa, que na era coordenadora. Psicologa, os dois se casaram e estão até hoje juntos.
Nilson é também apreciador da arte. E foi em Museu em Nova York que encontrou a obra que conta sua história: um quadro de Jean Lean Gérôme. Ficou observando por muito tempo até que descobriu que poderia comprar. Hoje, ela está uma das salas da clínica.
Aos 82, educador
Ao chegar na entrevista, Celso Volpe estava - em sua sala na Universidade Santa Cecília - lendo um livro atentamente. O que já demonstra a busca constante pelo conhecimento. As mãos já denunciam a idade. Afinal, são 82 anos, mas a fala deixa dúvidas.
Depois de se aposentar por uma universidade pública, Celso não conseguiu ficar parado. Primeiro, montou uma indústria de cerâmica, mas pouco tempo foi necessário para que sentisse saudade do mundo acadêmico. Vendeu a fábrica e mudou-se para o Guarujá.
Tempo depois foi convidado para trabalhar na Unisanta e as funções não são poucas. Ele é presidente da Comissão de Carreira Docente, responsável por classificar os professores contratados, o que implica nos salários.
Além disso, é professor na universidade e ministra 12 aulas de Matemática por semana nos cursos de Engenharia, totalizando 54 por mês. As aulas - sem intervalo, por opção dele - são de 180 minutos. Ele não falta, nem dá moleza. Poucos passam na sua matéria na primeira vez.
E se tudo isso - para muitos - parece bastante, a rotina é ainda mais agitada. Ele coordena o Projeto Rondon na Unisanta. Em atividade, é o rondonista mais idoso do País. E é nesse momento que seus olhos mais brilham. As histórias são muitas. De cada viagem, relembra fatos.
A mais recente foi a Tanquinho, na Bahia, e contou com orgulho o morro da Cidade que escalou com a turma de rondonistas. Parar? "De jeito nenhum. Só quando morrer", conta. Em julho, partirá para mais uma ação do projeto Rondon, em uma embarcação da Marinha pela Amazônia. Um convite especial que recebeu.
Ah, e ele ainda faz academia diariamente. Na verdade, tomou uma decisão: nos dias que dá aula, não irá mais à academia. "O corpo no fim do dia sente muito", reconhece.
A queda recente fez com que braços e pernas perdessem um pouco a força e ficassem mais frágeis, um pouco trêmulos. Mas basta poucos segundos para que as palavras transformem a jornalista Helle Alves numa jovem contando momentos e surpreendendo pela garra.
Como aposentada, participou e ainda atua em diferentes movimentos em favor da Terceira Idade para que a sociedade ofereça mais serviços e atenção a essa faixa etária. Depois de se aposentar, optou viver em Santos, continuou sua luta e decidiu fazer um programa voltado à Terceira Idade, junto com sua irmã Vida Alves. Ficou seis meses no ar da TV Santa Cecília e como nada é fácil não conseguiu patrocínio, tendo que abandonar o projeto.
"Fiquei triste e coloquei em xeque a minha vida. Para me animar, decidi colocar no papel algumas memórias", conta. E é desta terapia que surgiu o livro Eu Vi. E ela viu mesmo. São muitas as histórias que acompanhou de perto como jornalista, como o furo de reportagem sobre a morte de Che Guevara na Bolívia, em 9 de outubro de 1967 ou a prova de fogo de Chio Xavier.
Na semana passada, esteve em São Paulo para mais um lançamento de seu livro. A filha a ajudou com os nomes das pessoas e dedicatória - ela apenas assinava. Já pensa também em uma segunda edição do livro. E adora conversar com os mais novos e receber jornalistas e estudantes. "Pelo menos uma vez por mês dou entrevista e adoro este contato. Me faz muito bem", conta.
Ainda hoje continua atuando no Fórum da Cidadania de Santos. Na terça-feira (23) à noite - por exemplo - esteve em mais uma reunião. Com 86 anos, ela diz: "Para eu parar só quando Deus mandar".
Jornaleiro aos 85
"O Papa (Bento XVI) renunciou, mas eu não renuncio. Temos a mesma idade", brinca o jornaleiro Emídio Simões Silva, que completa 86 anos em outubro e não pensa em parar. "Não estou com idade para isso".
Português, de uma pequena cidade perto de Coimbra, Emídio veio ao Brasil há 59 anos e ainda apresenta bem o sotaque do país de origem.
Aposentado desde 1987, ele não conseguiu ficar parado muito tempo e logo comprou a banca, localizada na esquina das ruas Teixeira de Freitas com Carvalho de Mendonça, no Campo Grande.
"Financeiramente não dependo da banca, aqui funciona mais como uma terapia. Um ponto de encontro com amigos. Às 5h30, abro a banca, em menos de meia hora já vendi meia dúzia de jornais e conversei bastante", conta. Emídio fecha o comércio às 12h30 para almoçar e depois tem o dia livre até o dia seguinte, quando acorda novamente às 5 horas para começar sua rotina diária. E aos domingos, ainda tem o hábito de beber a tradicional caipirinha.
Nesta quarta-feira (1º), comemora-se o Dia do Trabalho. Data que é cada vez mais celebrada por pessoas de cabelos brancos que continuam na ativa mesmo depois de chegar à Quarta Idade: os 80.
Na reportagem, quatro personagens, quatro histórias diferentes. Em comum, apenas as marcas do tempo estampadas no corpo. O andar já não é tão ágil, mas a memória está intacta.
Ao mesmo tempo que as datas se embaralham, as histórias vividas e repassadas na memória parecem que aconteceram no dia anterior, tamanha riqueza de detalhes. Se o corpo apresenta uma certa idade, a conversa reduz drasticamente esta diferença.
Qual o segredo para chegar e ultrapassar os 80 anos em plena saúde física e mental e ainda trabalhando? Sem dúvida, para eles, é nunca ter parado. Após a aposentadoria, por tempo de serviço ou mesmo pela idade, eles não param e nem pensam em tal possibilidade. E continuam na ativa, seja na área em que sempre atuaram ou em outras que se aventuraram após a aposentadoria.
Segundo a pesquisadora no assunto Anita Neri, é inevitável que o idoso sofra algumas perdas nesta fase da vida, assim como ocorre em todas as etapas do desenvolvimento. Porém, há um grande número de idosos que consegue manter a capacidade biológica e o funcionamento biopsicossocial bem próximo aos dos adultos jovens. Pois, o acúmulo de conhecimento e desenvolvimento de habilidades compensam as perdas naturais decorrentes do avanço da idade.
Odontologia aos 80
Oitenta anos de uma história de amor com a Odontologia. Esta é a melhor descrição para o cirurgião-dentista Nilson Denari, que acabou de chegar aos 80. Filho de dentista, desde pequeno sentia os aromas da profissão. “Eu me apaixonei ainda criança pela Odontologia e me casei quando formado”, brinca.
Em uma simples conversa, percebe-se a paixão de Denari com o que faz. Os olhos brilham a cada explicação de como é o seu trabalho, e indagado se irá parar, a resposta é simples: “nunca”. Relembra que quando o pai decidiu se aposentar, no dia que iria avisá-lo, faleceu dentro do carro.
Ele, que não gosta de ser chamado de senhor, apenas pelo nome ou você, está em constante evolução. Tem quatro filhos do primeiro casamento e o atendimento aos pacientes ainda é à moda antiga, criando laços de amizade.
Denari vai muito além de cuidar dos dentes dos outros: já escreveu dois livros – Boca, espelho da Alma e Na Busca das Belezas Ocultas da Odontologia como arte e ciência -, gosta de música – toca na banda Os Insistentes – , de filosofia e tem grande ligação com a religião. Chegou a conhecer Chico Xavier, na época em que sua esposa estava internada em estado terminal.
Um paciente amigo – que estava com uma dor de dente – marcou uma consulta. “Ao chegar a dor simplesmente passou e na conversa comigo ele disse: Já sei, estou aqui com a missão de levá-lo até o Chico. Sinto que está precisando”, relembra. No dia seguinte, às 5 horas da manhã partiam os dois rumo à um Hotel em Poços de Caldas. Na conversa com o médium, ele disse que sua mulher morreria, mas que ele não precisava se preocupar, que logo encontraria alguém para ajudá-lo. Depois de seis meses conheceu – num curso – sua atual esposa, que na era coordenadora. Psicologa, os dois se casaram e estão até hoje juntos.
Nilson é também apreciador da arte. E foi em Museu em Nova York que encontrou a obra que conta sua história: um quadro de Jean Lean Gérôme. Ficou observando por muito tempo até que descobriu que poderia comprar. Hoje, ela está uma das salas da clínica.
Aos 82, educador
Ao chegar na entrevista, Celso Volpe estava – em sua sala na Universidade Santa Cecília – lendo um livro atentamente. O que já demonstra a busca constante pelo conhecimento. As mãos já denunciam a idade. Afinal, são 82 anos, mas a fala deixa dúvidas.
Depois de se aposentar por uma universidade pública, Celso não conseguiu ficar parado. Primeiro, montou uma indústria de cerâmica, mas pouco tempo foi necessário para que sentisse saudade do mundo acadêmico. Vendeu a fábrica e mudou-se para o Guarujá.
Tempo depois foi convidado para trabalhar na Unisanta e as funções não são poucas. Ele é presidente da Comissão de Carreira Docente, responsável por classificar os professores contratados, o que implica nos salários.
Além disso, é professor na universidade e ministra 12 aulas de Matemática por semana nos cursos de Engenharia, totalizando 54 por mês. As aulas – sem intervalo, por opção dele – são de 180 minutos. Ele não falta, nem dá moleza. Poucos passam na sua matéria na primeira vez.
E se tudo isso – para muitos – parece bastante, a rotina é ainda mais agitada. Ele coordena o Projeto Rondon na Unisanta. Em atividade, é o rondonista mais idoso do País. E é nesse momento que seus olhos mais brilham. As histórias são muitas. De cada viagem, relembra fatos.
A mais recente foi a Tanquinho, na Bahia, e contou com orgulho o morro da Cidade que escalou com a turma de rondonistas. Parar? “De jeito nenhum. Só quando morrer”, conta. Em julho, partirá para mais uma ação do projeto Rondon, em uma embarcação da Marinha pela Amazônia. Um convite especial que recebeu.
Ah, e ele ainda faz academia diariamente. Na verdade, tomou uma decisão: nos dias que dá aula, não irá mais à academia. “O corpo no fim do dia sente muito”, reconhece.
A queda recente fez com que braços e pernas perdessem um pouco a força e ficassem mais frágeis, um pouco trêmulos. Mas basta poucos segundos para que as palavras transformem a jornalista Helle Alves numa jovem contando momentos e surpreendendo pela garra.
Como aposentada, participou e ainda atua em diferentes movimentos em favor da Terceira Idade para que a sociedade ofereça mais serviços e atenção a essa faixa etária. Depois de se aposentar, optou viver em Santos, continuou sua luta e decidiu fazer um programa voltado à Terceira Idade, junto com sua irmã Vida Alves. Ficou seis meses no ar da TV Santa Cecília e como nada é fácil não conseguiu patrocínio, tendo que abandonar o projeto.
“Fiquei triste e coloquei em xeque a minha vida. Para me animar, decidi colocar no papel algumas memórias”, conta. E é desta terapia que surgiu o livro Eu Vi. E ela viu mesmo. São muitas as histórias que acompanhou de perto como jornalista, como o furo de reportagem sobre a morte de Che Guevara na Bolívia, em 9 de outubro de 1967 ou a prova de fogo de Chio Xavier.
Na semana passada, esteve em São Paulo para mais um lançamento de seu livro. A filha a ajudou com os nomes das pessoas e dedicatória – ela apenas assinava. Já pensa também em uma segunda edição do livro. E adora conversar com os mais novos e receber jornalistas e estudantes. “Pelo menos uma vez por mês dou entrevista e adoro este contato. Me faz muito bem”, conta.
Ainda hoje continua atuando no Fórum da Cidadania de Santos. Na terça-feira (23) à noite – por exemplo – esteve em mais uma reunião. Com 86 anos, ela diz: “Para eu parar só quando Deus mandar”.
Jornaleiro aos 85
“O Papa (Bento XVI) renunciou, mas eu não renuncio. Temos a mesma idade”, brinca o jornaleiro Emídio Simões Silva, que completa 86 anos em outubro e não pensa em parar. “Não estou com idade para isso”.
Português, de uma pequena cidade perto de Coimbra, Emídio veio ao Brasil há 59 anos e ainda apresenta bem o sotaque do país de origem.
Aposentado desde 1987, ele não conseguiu ficar parado muito tempo e logo comprou a banca, localizada na esquina das ruas Teixeira de Freitas com Carvalho de Mendonça, no Campo Grande.
“Financeiramente não dependo da banca, aqui funciona mais como uma terapia. Um ponto de encontro com amigos. Às 5h30, abro a banca, em menos de meia hora já vendi meia dúzia de jornais e conversei bastante”, conta. Emídio fecha o comércio às 12h30 para almoçar e depois tem o dia livre até o dia seguinte, quando acorda novamente às 5 horas para começar sua rotina diária. E aos domingos, ainda tem o hábito de beber a tradicional caipirinha.