Estiagem no Interior altera preço e qualidade dos produtos na Baixada
A Baixada Santista está em uma situação mais “confortável”, na comparação com outras regiões do Estado, quando se fala em estiagem. Os reservatórios da região estão em situação satisfatória, mesmo apresentando tendência de queda. Só que a população da região não está imune aos efeitos da seca. Os preços e a qualidade dos produtos, principalmente os de origem natural, começaram a sofrer alterações significativas. E a tendência é piorar.
Tudo isso se dá porque a produção de hortifrutigranjeiros está sofrendo com as mudanças climáticas e tudo que elas acarretam. Os produtores, além de enfrentarem dificuldades para a irrigação, veem as verduras, principalmente as folhas, sofrerem com o forte calor – que prejudica a qualidade – e as pragas que se proliferam. E isso acaba chegando na ponta: o consumidor.
Segundo levantamento Índice de Preços ao Consumidor (IPC) em Santos, realizado pelo Núcleo de Estudos Socioeconômicos da Unisanta (Nese), de janeiro a setembro, a alta da taxa no setor de alimentação é de 3,2% em relação ao mesmo período de 2013. “Mas as frutas tiveram alta de 1,96% e as verduras de 7,9% neste mesmo período”, destaca o coordenador do órgão, Jorge Manuel de Souza.
De acordo com ele, a alta dos vegetais é impulsionada, principalmente, por verduras que sofrem com a estiagem que atinge grande parte de São Paulo e o sul de Minas há quase um ano. “A couve aumentou 8,5%; o agrião, 4,4%; almeirão e rúcula subiram 9%; espinafre 11,7%. Mas o recordista é o repolho, que registrou um aumento de 25,7% nos primeiros nove meses do ano”.
Manuel observou que estes alimentos são muitos suscetíveis às mudanças climáticas. “Pode ser que, caso volte a chover com mais intensidade, haja uma alteração nos preços”, lembrou. “Mas, de fato, a salada está mais cara e dá para notar que os produtores do interior vêm sofrendo. É no verão que estes produtos costumam ficar mais caros, por ser época das altas temperaturas, mas percebemos que este aumento foi, de certa forma, ‘antecipado'”, acrescenta.
Efeitos – Quem planta e produz confirma a análise do especialista. O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Suzano, Ricardo Sato, afirma que a região do Alto Tietê vem acumulando perdas com a seca. Os municípios desta área do Estado formam o chamado “cinturão verde paulista”, responsável pela produção de grande parte das hortaliças consumidas na região – segundo o representante, mais de 40% do que é produzido por lá é consumido no litoral paulista.
“A tendência realmente é de alta nos próximos meses. A falta de chuva no Alto Tietê tem afetado muito a produção. Os mananciais não são recarregados e a área de plantio já foi reduzida em mais de 40% nos últimos meses”, afirmou Sato.
Na última semana, o reservatório da região estava com 6,8% de capacidade total, segundo a Sabesp. O nível acumulado de chuva em outubro na área foi de 20,1mm, ante 117,1mm de média história, ainda de acordo com números da estatal paulista.
Além da estiagem, outro problema que atinge as plantações, de acordo com Sato, são as pragas. “A falta de chuva afeta os ciclos da natureza e isso causa um desequilíbrio também nesta questão (das pragas). A qualidade do plantio é muito prejudicada, e isso tudo acarreta na alta dos preços que repassamos”, explica o presidente do sindicato, que responde por 280 produtores e 1.700 empregos diretos. A seca ainda não causou demissões, mas os responsáveis pelos plantios estão buscando “novas alternativas” para tentar fugir do impasse.
“Sempre temos problemas com excesso ou falta de chuva, mas este ano foi atípico. A maioria (dos produtores) faz um planejamento prevendo estes períodos de estiagem, com controle no uso da água, a abertura de poços artesianos, por exemplo. Mas grande parte tem ido para a hidroponia”, contou Sato.

Produtos começam a subir e a qualidade das hortaliças, segundo os feirantes, cairá por conta da estiagem Foto: Nara Assunção
Aves – E não são só as hortaliças que sofrem com a seca. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP, o forte calor nas principais regiões produtoras do País já tem causado mortalidade de galinhas e alterado a qualidade dos ovos. Como as aves comem menos e tomam mais água, a casca do ovo pode ficar menos resistente e o interior, mais aquoso.
O preço do milho também apresenta aumento acima do preço do frango, o que, ainda de acordo com o Cepea, tem dificultado a vida dos produtores do Interior. A temporada de chuvas neste verão, de fato, nunca foi tão esperada em São Paulo.
Mudanças na Feira
A preocupação com as consequências da seca no Interior do Estado já começam a atingir alguns feirantes de Santos. Como a maioria busca hortaliças na região do Cinturão Verde Paulista, mais especificamente no Alto Tietê, é preciso achar alternativas, já que a região vive um grande período de estiagem (ver mais pág. 4).
Jorge Noboro é feirante há 30 anos. De acordo com ele, o valor da salada já sofreu alterações por conta da seca. “Foi um pequeno acréscimo, mas tivemos que aplicar porque em muitos lugares já está faltando (verduras). Ainda não é tão difícil achar, mas a qualidade não é a mesma de meses atrás”, explica ele, que possui uma barraca com verduras e legumes e busca grande parte de seus produtos em Suzano, região atingida pela seca.
O feirante conta que já busca produtos hidropônicos – que são mais caros – e outros fornecedores como alternativa para tentar segurar ao máximo o valor. E lista algumas verduras que mais sofrem. “Alface, agrião e brócolis são muito sensíveis às mudanças climáticas”, diz.
Já para José Negoro, que atua em feiras há 30 anos, produtores estão diminuindo as áreas de plantação por conta da falta d’água. Muitas chácaras e sítios são proibidos de captar água de mananciais por conta da prioridade dada ao abastecimento humano. Assim, quem planta não tem alternativa a não ser reduzir o espaço do plantio.
“Ainda temos preços bons com os produtos que encontramos com nossos fornecedores, mas é uma tendência para o final do ano, começo de 2015 (o aumento no preço e a queda na qualidade)”, observa.
Produtor – Nelson Nagayama, que há 10 anos trabalha nas feiras de Santos, sofre na pele o problema da falta d’água. Ele mora em Mogi das Cruzes, município do Alto Tietê, que também sente a seca e possui uma pequena produção, onde cultiva as plantas hortaliças que revende na Cidade.
A represa de Biritiba Mirim, uma das principais da região, está com os níveis muito baixos, o que afeta diretamente quem vive do plantio de hortaliças.
“Se continuar sem chover, não tem jeito. O preço vai subir mesmo. Eu consigo segurar o preço, ainda não repassei (o aumento) porque sou responsável pela minha produção. Mas outros colegas feirantes não têm a mesma oportunidade que eu. É melhor ter um pequeno prejuízo do que perder as vendas”, ressalta, com um ar resignado (DL).

