Fim da linha | Boqnews
26 de junho de 2009

Fim da linha

Cerca de  8 mil santistas que utilizam o serviço de ônibus  fretados para  a  Capital e embarcam nos quase 180 veículos que partem da Baixada Santista em direção a São Paulo deverão enfrentar problemas a partir de agosto.

O motivo é a regulamentação da circulação dos 5.674 fretados que circulam pelo município paulistano, realizada pela Secretaria Municipal de Transportes (SMT), que visa “harmonizar a convivência dos fretados com os demais veículos, tais como carros e caminhões, que já obedecem a restrições de circulação, como rodízio e Zona Máxima de Circulação respectivamente”, segundo nota divulgada pela assessoria de comunicação do órgão.

Tal processo prevê a criação de bolsões próximos de estações de trem e metrô para recebimento dos passageiros que desembarcam dos ônibus, seguindo ideia anteriormente prevista no projeto de Lei Municipal 530/08, que visava a redução de gases poluentes emitidos na cidade em 30% até 2.012, e que citava, em um de seus artigos — recentemente retirado —, a criação de tais bolsões para estacionamento dos veículos provenientes de cidades do interior do Estado.

De acordo com a SMT, a regulamentação está sendo discutida com as entidades  envolvidas na questão, e pretende “tirar de circulação os fretados clandestinos, que, de acordo com estudos realizados pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), são 40% da frota que passa por São Paulo diariamente, em percursos curtos, com diversos pontos de parada, fazendo, na verdade, um transporte coletivo ilegal, além de garantir que os usuários cheguem ao seu destino de forma confortável e segura, sem prejudicar o já sobrecarregado trânsito da Capital”, diz a nota.





Para quem se utiliza dos fretados para ir a São Paulo, as reclamações atingem, principalmente, o aumento nos custos e do stress.
Segundo o diretor-executivo da Associação das Micro, Pequenas e Médias Empresas de Fretamento e Turismo do Estado de São Paulo (Assofresp), Celso Vieira Rutkowski, 95% dos usuários desse tipo de transporte têm carro próprio, e optam pelo fretado por comodidade. “São pessoas que, caso tenham que pegar metrô e transporte coletivo para trabalhar, vão preferir ir com seus automóveis para o serviço”, alerta.

O jornalista Dassler Marques é um exemplo. Atualmente, arca com R$ 120,00 dos R$ 400,00 que são gastos com o ônibus fretado que o leva de Santos ao bairro do Brooklyn, onde trabalha. Caso haja a restrição, admite que passaria a tirar o carro da garagem, o que geraria uma despesa diária considerável. “(De carro) É até mais rápido de se chegar, mas é bem mais caro. Seriam mais de R$ 40,00 por dia. Só de pedágio, gastaria R$ 17,00, além da gasolina”, explica.

Rutkowski contradiz, ainda, a afirmação da SMT, no que diz respeito à prevista “redução” no tráfego paulistano. Segundo ele, cada fretado substitui, em média, o equivalente a 20 veículos, o que, com a restrição ao transporte, pode ocasionar o crescimento dos engarrafamentos. “O trânsito de São Paulo já é caótico e tende a piorar. Além disso, dez carros poluem mais que um só ônibus, ainda mais 20.  E para quem não tem carro, o transporte coletivo, que já está saturado, ficará pior”, alega.
Também jornalista e usuário de veículo fretado no trajeto Santos-São Paulo, Cássio Barco, acredita que a medida é crítica, especialmente para quem utiliza fretado para se locomover dentro da própria Capital.

“O pessoal que faz o trajeto zonas leste-sul, por exemplo, demora o mesmo tempo que eu para chegar em casa. E eles não tem outra opção, pois, nesse caso, é preciso pegar metrô, coletivo e fazer baldeação, outro coletivo, andar mais. Essa medida é capaz de instalar o caos na cidade, sem exagero algum”, prevê.


Ônibus viram local de confraternização


Mais do que uma forma de transporte para levar estudantes e trabalhadores para a Capital, os fretados se tornaram um local de convivência diária de pessoas com diferentes rotas, formações e serviços, onde é possível fazer amizades e mesmo brincar para diminuir o stress, principalmente pós-atividade.

O jornalista Cássio Barco usa o fretado há seis meses, mas já tem uma animada turma de amigos, especialmente os que fazem parte da famosa turma do fundão.

“Sempre que algum lembra, nós levamos comida e violão para tocarmos músicas. A gente canta o que vier na cabeça. Trocamos ideias, falamos besteiras, enfim, dá para fazer uma zona legal”, revela. “Nós somos considerados até os chatos do ônibus, de tanto que nós falamos”, brinca.

O estudante Vitor Lillo, que há dois anos está na rotina de subir e descer a serra, conta que seu ônibus, apesar de um pouco mais “sério”, também tem bons momentos de descontração, especialmente em datas especiais.
“Depende de quem é o motorista. Se ele for legal, dá para brincar um pouco, apesar de a maioria dos frequentadores serem executivos.

Geralmente, a gente consegue fazer  festa quando é aniversário de alguém querido do pessoal do fretado ou do coordenador da linha. Aí, a turma se junta e faz uma festa. No Carnaval, infelizmente, não teve confete e serpentina, mas a gente comprou comida e bebida. E o som foi com as tradicionais marchinhas”, relata.




A interação dentro dos fretados é quase que constante devido à convivência e é natural que amizades comecem a ser firmadas. Lillo, por exemplo, diz que, dependendo da disponibilidade e do perfil das pessoas, a amizade pode se fortificar.

“Essa oportunidade de se criar uma rede de contatos é  legal, porque conhecemos pessoas diferentes. É uma verdadeira comunidade ambulante. Fiz duas amigas lá com quem acostumei a sair também nos dias livres”, conta.

Barco confirma a tese. “Por exemplo, quando é a despedida de alguém que estava conosco no ônibus, todos saem para tomar uma cerveja ou comer uma pizza. Isso acontece, sim”, completa o jornalista.


Alteração irá aumentar o stress


As mudanças nos fretados irão alterar a rotina dos passageiros, que prevêem o aumento do stress. O estudante Vitor Lillo vê como desvantajosa a medida, por considerar Santos uma “cidade dormitório”. Ele cursa faculdade em São Paulo e optou em subir e descer a serra ao invés de buscar um apartamento na Capital.

“São Paulo é o grande centro do Brasil e muita gente estabelece sua carreira acadêmica ou profissional por lá. Esse pessoal depende disso e o conforto de ser pego em casa, relaxado, e deixado na porta de onde precisa ir é ótimo. A preocupação principal, no entanto, é justamente com quem só pode ir de ônibus. Afinal, alguns ainda podem pegar o carro. Mas e quem não pode?”, questiona.

Quem não pode, faz como o jornalista Cassio Barco, que já calcula o caminho e o trabalho que terá para chegar à Vila Olímpia, onde trabalha, prevendo outra consequência, além do aumento das despesas:o acúmulo da fadiga.

“Para chegar na hora, teria que estar em São Paulo, no máximo, umas 6h15. Aí, teria que sair de Santos às 5 horas, e, consequentemente, acordar às 4 horas. No fretado, entro no ônibus às 6 horas e dá para colocar o sono em dia. É vantajoso”, revela.

As “horas a mais de sono”  aliadas ao fato de não passar pela correria dos terminais rodoviários e de metrô evitam ainda o stress, como recorda Celso Vieira Rutkowski, da Assofresp: “Pouca gente tem tocado nesse assunto, mas o prejuízo psicológico que isso pode provocar é  grande, maior até do que os gastos com passagens”, diz.

A SMT paulistana informou que “a Prefeitura vai estabelecer normas que não tragam prejuízo aos passageiros, integrando os fretados à rede de transporte público da Capital, e, onde essa rede não for satisfatória, implantará linhas circulares especialmente para atender aos usuários dos fretados”, diz em nota.

Desemprego
Há, ainda, outra questão que será resultante das restrições à circulação dos fretados em São Paulo: o desemprego. Atualmente, estão autorizados a circular pela Capital, 5.674 ônibus fretados, gerando, segundo o diretor-executivo da Assofresp, pelo menos 11 mil empregos diretos.

O receio, portanto, é que, com a redução drástica na demanda, as empresas de fretamento comecem a demitir funcionários. “Essa situação inviabiliza o serviço em São Paulo. Ainda estamos aguardando a proposta final da Secretaria de Transportes para darmos uma posição”, finaliza.

Bolso
Caso se confirme a restrição à circulação de fretados em São Paulo, quem trabalha ou estuda na Capital deverá se adequar à nova realidade (veja mais detalhes no quadro ao lado). O transporte fretado, caso seja mantido, mesmo sob a regularização, segue sendo a opção mais barata, embora não haja expectativa de redução da mensalidade com a regularização, mesmo adicionando-se os custos de passagem de ônibus municipal e (ou) metrô.

Para estudantes que comprovem morar em Santos e estudar em São Paulo, a possibilidade de se pagar metade do preço no ônibus intermunicipal, no metrô e no coletivo torna tal a despesa com transporte rodoviário mais viável financeiramente.

Por fim, o transporte por carro, embora seja o mais rápido, é também o mais oneroso, pois tem inclusos nos gastos os valores de combustível, pedágio e, em alguns casos, estacionamento, além do desgaste natural do veículo.

Com isso, para quem optar pelo veículo particular, o ideal é encontrar pelo menos mais três colegas que trabalhem nas proximidades para dividir as despesas, que, em sua totalidade, ultrapassam os R$ 1.300,00, dependendo do veículo.

Da Redação
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