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Indicadores revelam abismo social entre santistas brancos e negros

Sempre vista como uma das cidades com Indice de Desenvolvimento Humano muito alto, Santos é bem diferente, sob vários aspectos, para brancos e negros.

10 de julho de 2020 - 18:25

Fernando De Maria

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Os números não estão atualizados, mas mostram claramente como há uma disparidade social entre brancos e negros em Santos, no litoral paulista, cidade com IDHM- Indice de Desenvolvimento Humano de 0,840 – classificado como ‘muito alto’.

Revelando que mesmo em municípios com elevado padrão social, nem todos conseguem usufruir – de forma equalitária – deste indicador.

Os dados fazem parte de um estudo divulgado em 2013- Atlas de Desenvolvimento Humano , levantamento conjunto desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e Fundação João Pinheiro.

Um novo levantamento não tem previsão de ser divulgado, pois depende da realização do Censo 2020, interrompido em razão da pandemia do coronavírus.

Em 2010, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal da população negra era de 0,770, situando essa parcela da população de Santos na faixa de Desenvolvimento Humano Alto (IDHM entre 0,700 e 0,799).

Já o IDHM da população branca é de 0,865, que a situa na faixa de Desenvolvimento Humano Muito Alto (IDHM entre 0,800 e 1).

Em números absolutos, a diferença entre ambos é de 0,095.

Ou seja, existem duas Santos distintas para os santistas brancos e negros.

 

Exemplos

O estudo analisa elementos com a Educação, Longevidade e Renda, cujas disparidades se destacam.

Por exemplo, na área educacional, entre os brancos, o IDHM é de 0,852 (quanto mais próximo de 100, melhor), enquanto entre os negros, 0,713.

Uma diferença de quase 20%.

Nas primeiras faixas etárias, as diferenças entre alunos brancos e negros praticamente inexistem.

Afinal, o percentual de crianças de 5 a 6 nas escolas é de 96,74% (negras) e 97,72% (brancas).

No entanto, a medida que as idades avançam as diferenças se avolumam.

O percentual de jovens de 15 a 17 anos com Fundamental completo chega a 66,74% (negros) e 83,71% (brancos).

E se for comparar com o Ensino Médio, o abismo educacional fica ainda mais nítido.

Menos da metade (45,8%) dos jovens de 18 a 20 anos tem Ensino Médio completo contra 73,64% entre os brancos.

E no nível superior, a disparidade é ainda maior: apenas 10,5% dos negros e 33,6% dos brancos tem diploma universitário.

 

Com um dos maiores IDHMs do País, Santos tem realidades bem distintas entre moradores das raças branca e negra. Foto: Divulgação – Arquivo

Renda per capita

A falta de escolaridade se reflete, então, na disparidade  da renda per capita.

Se em 2010, a renda per capita dos negros era de R$ 875,04, a dos brancos, R$ 2.003,22. Uma diferença de 129%.

Atualizando pelo salário mínimo em vigor, chega-se a renda per capita entre os negros de R$ 1.654,23.

Nos brancos, R$ 4.096,40.

Isso complementa o fato que os salários menores são amplamente mais ofertados para a população negra, resultado da baixa escolaridade.

Por exemplo, 63,76% dos negros santistas ganham até 2 salários mínimos (R$ 2.090, atualizados), enquanto entre os brancos, 37,19%.

E são poucos os negros que podem se ‘dar ao luxo’ de ganhar acima de 5 salários mínimos (R$ 5.225).

Apenas, 9% dos trabalhadores negros ganham mais que este valor.

Entre os brancos, o índice é de 29% – 3 vezes mais.

“Esta população sempre esteve fora do acesso À riqueza”, exemplifica a socióloga Aldemir Dida Dias, em entrevista ao programa Notícias do Dia, da Boqnews TV.

“Permanecem no País os conceitos de raça superior e inferior”, dispara.

Por sua vez, o volume de pessoas em nível de miséria é 3 vezes maior entre os negros que os brancos santistas.

São 5,98% da população negra contra 1,84% da branca.

Como resultado: a taxa de mortalidade infantil entre bebes negros chegava em 2010 a 14,5. Entre as brancas, 13.

Mesmo ritmo da mortalidade até 5 anos de idade: 16,3 entre crianças negras e 14, entre brancas.

Por sua vez, a taxa de fecundidade entre mulheres negras era ligeiramente maior: 1,5 entre as mães negras e 1,1 entre as brancas.

 

Percentual de mortes pela Covid-19 é ligeiramente maior na ZE 118, na comparação com o percentual de eleitores desta região da cidade que reúne também os bolsões da periferia santista.

Covid-19

Além destas disparidades sociais também se refletem nos casos fatais do Covid-19 na comparação entre óbitos de moradores residentes em bairros das zonas da orla e intermediária e de outras localidades, como Morros, Centro e Zona Noroeste.

Afinal, ao cruzar as informações por zonas eleitorais entre os bairros da 272ª (Ponta da Praia, Aparecida, Embaré, Macuco e Estuário), esta região concentra 32,1% dos eleitores e 29,8% do total de óbitos (394) até o  momento.

Outros bairros das zonas da orla e intermediária, que compõem a 273ª (Boqueirão, Gonzaga, Pompeia, José Menino, Vila Belmiro, Marapé e Campo Grande), com 34,9% dos eleitores e 35,2% de óbitos.

Já os demais bairros, que compõem a 118ª (Encruzilhada, Vila Mathias, Morros, Zona Noroeste, Centro, Vila Nova, Paquetá e área continental) onde se concentram os núcleos mais periféricos da Cidade, representam 33% do eleitorado e 35% do total de mortes.

Ou seja, este 2 pontos percentuais de diferença representam 8 mortes a mais se fosse mantida a proporcionalidade.

“Moradores das periferias residem em moradias pequenas, de isolamento impossível. Não conseguem uma alimentação saudável e assim estão mais suscetíveis”, acrescenta a socióloga.

Neste caso, a desigualdade do cotidiano é um pouco mais desigual até entre as vítimas fatais do Covid-19.