Na Ilha Diana, todos são pescadores; porém, diminuição de peixes preocupa
Moradores da Ilha Diana, um dos últimos redutos caiçaras do litoral de São Paulo, se orgulham de levar e manter as tradições seculares, que são esquecidas dia após dia. E um dos que mantém os “ritos” é Eduardo Hipólito, de 43 anos “bem vividos” no local, de onde só sai para resolver algum problema. “Não sei viver em outro lugar”, pontua, de boca cheia, mostrando uma mistura de orgulho com firmeza.
E assim como João, tal fato acontece com a maioria dos moradores da ilha – inclusive as mulheres: todos sabem pescar. E como não chegam carros ao lugar, as garagens são ocupadas pelos barcos dos moradores. “Mesmo quem tem outra profissão, pesca por hobby. Nascemos aqui fazendo isso. É o que nossos pais e avós praticavam”, ressalta o presidente da Associação de Moradores, Alexandre Lima.
“Muita gente, quando sabe que vai receber visita, vai ao rio e pesca um peixe fresco para oferecer a um amigo ou parente”, conta, exibindo um orgulho que deixa qualquer um com água na boca.

Eduardo exibe robalo pescado no rio Diana: pescado tem diminuído com o passar dos anos Foto: Nara Assunção
A rotina de quem vive da pesca começa ainda de madrugada. Hipólito, por exemplo, no máximo às 4h30, já está com todos os seus equipamentos no simples barco, que ele mesmo empurra por um pequeno trecho à beira do rio que dá nome ao local. “Principalmente no verão, temos que sair cedo para voltar mais cedo. É impossível ficar tanto tempo com esse calor todo”, explica.
A jornada dura aproximadamente seis horas. Tempo suficiente para pescar camarões, tainhas, robalos… Peixes frescos e com uma bela aparência, que tem como principal destino os clientes de Guarujá. “Eu pesco sob encomenda, principalmente para as barracas de pescado que ficam no Perequê”, conta. O quilo do camarão, dependendo do tipo, varia entre R$ 10 e R$ 20. Já um robalo, por exemplo, sai, para os comerciantes, por volta de R$ 25 o quilo.
Em queda
Mas, nem tudo é formado por “peixes” na rotina da Ilha Diana. Ano a ano, a quantidade de pescado vem diminuindo nos rios e arredores do local. E um dos principais motivos, além da poluição e a falta de conscientização ambiental em relação à vegetação natural, como o manguezal, foi a chegada dos terminais retroportuários.
“Eles constroem o terminal em uma determinada área e, por lei, você tem que respeitar o espaço, nem pode chegar perto. E lá os peixes e crustáceos se sentem abrigados. E hoje nós não podemos pescar onde pescávamos antes”, diz.
A reclamação do pescador fica evidenciada ao comparar a quantidade de camarões que ele retirou no último dia 11, após ficar seis horas no barco: dois quilos. “Era normal voltarmos com 20, 30 quilos ou mais. Está cada vez pior”, lamenta. E assim, a fonte de renda e único emprego fica cada vez mais ameaçado. “Pescar é a única coisa sabemos fazer. Não temos outra ocupação”. Desabafo de um caiçara que sente na pele o preço do progresso.