O número de pessoas que destinam os resíduos que produz de maneira adequada ainda é mínimo. Em Santos, por exemplo, 450 toneladas todos os meses são enviadas para o centro de triagem, onde é separado e vendido. O montante representa apenas cerca de 3% do lixo gerado na Cidade que vai para o aterro.
Número que aumenta um pouco, mas não é possível mensurar ao certo, por conta da ação dos catadores individuais, que se transformaram em fonte de estudo da bióloga Carla de Andrade Paschoal para o trabalho de conclusão da pós-graduação em Controle e Gestão Ambiental, da Universidade Santa Cecília.
De acordo com levantamento, cada catador – cadastrado junto à Prefeitura de Santos – recolheu – no período de 2008 a 2013, em média 173 quilos por dia, sendo o material mais coletado o papelão. Nos dados, Carla também constatou que o número de pessoas realizando este trabalho – pelo menos os cadastrados na prefeitura – caiu 36%, entre os anos de 2008 e 2012, passando de 203 para 128. Baseando-se nestes dados, é possível calcular que em 2012 a ação deles gerou o recolhimento de 22,1 quilos por dia de resíduos.
Outro dado analisado é a moradia. “Muitos vivem em situação de rua, em quartos alugados, que podem ser submoradias ou em depósitos”, conta Carla. A renda destas pessoas é – na maioria das vezes – inferior a um salário mínimo. “Podemos perceber o quanto eles ainda estão à margem da sociedade. A intenção agora é continuar este levantamento, fazendo análises de mais dados e tentar transformar o estudo em algo útil para a Cidade e para estas pessoas”, ressalta Carla.
De acordo com o secretário de Meio Ambiente de Santos, Luciano Cascione, não existe um trabalho específico com os catadores, mas a Administração está analisando e conversando com projetos já existentes para criar cooperativas. “Algo que nos impede hoje é o contrato com a Prodesan, que prevê esta venda. Iremos revê-lo”, diz.
Se o poder público tem os seus deveres, a população também deve seguir as regras, começando a separar o que é reciclável. No Canal 4, como é possível ver pela foto acima, dois restaurantes diariamente jogam de maneira desastrosa os resíduos nas vias públicas. Exemplo que pode ser encontrado em outros pontos da Cidade. Atualmente, em Santos, uma vez por semana o caminhão do lixo reciclável passa recolhendo este material (veja o itinerário no site www.boqnews.com). De acordo com Cascione, a prefeitura está estudando a possibilidade de ampliar para dois dias. “Iremos fazer o teste em um bairro para mensurar o resultado e ver se aumentou ou não a quantidade de resíduos recolhidos para reciclagem”.
Em São Vicente
A cidade gera em média 200 toneladas de lixo por dia, possui o programa Cata-Treco e o projeto Ecociclo, da Companhia de Desenvolvimento (Codesavi). Juntos eles recolhem 25 toneladas de recicláveis por mês. A intenção é ampliar o programa Ecociclo para outros bairros. Hoje, a atuação é no Centro e agrega os ex-catadores. De acordo com Oswaldo Villela, assessor de comunicação da Codesavi, o projeto recebeu melhorias e já começa a ser reconhecido. “Brasópolis entrou em contato para colocar em prática a ação naquele município”, conta.
Para onde vai o lixo?
Na região, apenas duas cidades não destinam o lixo no aterro de Santos e enviam para Mauá: São Vicente e Itanhaém, que juntas geram 237,1 toneladas de lixo por dia. As outras seis, além de Santos, enviam tudo para o aterro da cidade, que recebe 690 toneladas por dia, de acordo com os últimos dados divulgados pela Cetesb.
Quem recicla?
Para muitos, eles são invisíveis ou até mesmo representam um transtorno, principalmente no trânsito, entretanto fazem um papel importante em uma sociedade que parece ignorar o destino dos resíduos que produz. São eles, os catadores, que vasculham os lixos domésticos à procura do que é reciclável e vendável. É o caso de Antônio, de 62 anos, que mora em um quarto alugado em Vicente de Carvalho e todos os dias pedala pelas ruas de Santos à procura de latinhas e outros materiais para venda tanto nos ferros-velhos e depósitos como na Feira do Rolo. “O melhor bairro é Ponta da Praia. As pessoas já têm o costume de separar melhor o lixo. A maioria das pessoas em toda a Cidade me trata bem, mas tem sempre aqueles que são mal educados. Eles precisam saber que o que estou fazendo – além de gerar renda para mim – também contribui com o Meio Ambiente”, ressalta.
O plano de Antônio, porém, é trabalhar até 2016, quando se aposentará e se cadastrará no Viaja Mais “Aquele programa do governo. Com pouco de dinheiro da aposentadoria, eu quero é viajar”, planeja.
Ex- viciado em crack, em 2008 Antônio conta que teve um “surto” e viajou até Aparecida, no interior paulista, de bicicleta. Foram 13 dias e desde então vai todos os anos. “Uma promessa que fiz. Este ano já fui duas vezes. Assim consegui me livrar das drogas que nos destrói e me separou de toda a família”.
De São Vicente. Carlos (nome fictício) também faz seu papel pedalando e catando papelão. “Nos melhores dias chego a recolher 400 quilos. Com este peso, já não consigo pedalar, vou empurrando”, conta Carlos que prefere não ser reconhecido. “As pessoas não sabem que eu faço isso”, acrescenta.