Portas fechadas, memória esquecida: desafios no restauro de prédios históricos | Boqnews
Foto: Fernando De Maria
26 de junho de 2026

Portas fechadas, memória esquecida: desafios no restauro de prédios históricos

Atualmente, quem caminha por Santos esbarra em um contraste incômodo: ao mesmo tempo em que a cidade cresce, parte da sua identidade sobrevive escondida atrás de promessas de reforma. O fechamento de prédios históricos e culturais na Cidade acendeu um alerta sobre a preservação da memória local.

Importantes símbolos santistas estão interditados, privando os munícipes e turistas de espaços que contam a história da região. Mas qual é a real situação por trás dessas portas fechadas?

 

Abaixo-assinado

A corretora de imóveis e ex-aluna do Escolástica Rosa, Fernanda Rodrigues, falou sobre o abaixo-assinado que realizou sobre o prédio do Escolástica. Assim como, também comentou a situação do Museu de Pesca.

“A motivação nasceu da preocupação ao ver dois patrimônios tão importantes para Santos em um processo visível de deterioração. No caso do Escolástica Rosa, acompanho há anos a situação do prédio e como ex-aluna, sinto uma ligação afetiva muito forte com aquele espaço. Já o Museu de Pesca, eu tenho uma relação afetiva com aquele local desde a infância. Meu vizinho trabalhava em um dos prédios anexos que ficam no mesmo terreno, e eu passei muitos momentos ali quando era criança”, afirmou.

Por isso, ao perceber o estado de abandono e a falta de informações claras sobre a recuperação desses patrimônios, ela sentiu que não podia permanecer indiferente. “Percebi que muitas pessoas compartilhavam da mesma preocupação. E entendi que era hora de transformar essa inquietação em uma mobilização organizada, respeitosa e voltada à preservação da nossa história.
Ela destaca que o principal objetivo do abaixo-assinado é conscientizar a população e estimular o debate público sobre a importância da preservação desses patrimônios. “Naturalmente, quanto maior for o engajamento da sociedade, maior será a atenção dos órgãos responsáveis e do poder público. Não se trata de apontar culpados. Mas, de buscar transparência, esclarecimentos e soluções concretas para que esses espaços sejam preservados, recuperados e devolvidos à população de forma digna.”

Foto: Nando Santos/Arquivo

Escolástica Rosa

A Santa Casa de Santos, por meio de sua Assessoria de Comunicação, informa que o prédio do Escolástica Rosa já está passando por obras de restauração. A instituição esclarece ainda que desconhece quaisquer comentários, informações ou especulações que estejam circulando a respeito do imóvel. E reforça que todas as ações relacionadas ao prédio seguem os trâmites legais e técnicos necessários.

 

Arquiteto

O arquiteto Gustavo Nunes, que está auxiliando no processo de restauro do prédio, abordou sobre como é possível preservar as características originais do prédio e, ao mesmo tempo, adaptá-lo às necessidades de acessibilidade, segurança e uso público?

“O restauro que está sendo promovido, que já está aprovado pelos órgãos competentes, é justamente nesse sentido: recuperar, revitalizar e dar ao bem um novo uso. Para isso, precisa de acessibilidade. Basicamente no conjunto arquitetônico Escolástica Rosa, acessibilidade nos pavimentos térreos e acessibilidade no primeiro pavimento, tanto do prédio principal quanto do anexo, que isso se dá por meio de colocação de plataforma, equipamento técnico de elevação de pessoas, elevador ou plataforma. No caso do Escolástica Rosa, no prédio principal, são dois elevadores previstos.”

Usos

Aliás, Gustavo abordou sobre os tipos de usos que seriam mais adequados para garantir a preservação do patrimônio e sua integração com a comunidade.

“Quanto ao uso, na fase que estamos, nós temos de três a cinco anos para executar as obras. Não temos ainda a definição final quanto à utilização do prédio. Mas, o importante é a devolutiva desse patrimônio arquitetônico, que será restaurado e recuperado com novos usos. Esses novos usos contarão com com visitação monitorada para as escolas do município, grupos de artistas, de profissionais da arquitetura, da própria sociedade, dos ex-alunos e professores”, explica.

“Além da Capela Dom Bosco renovada, das áreas de circulação, de um grande pátio ao ar livre. Então tudo isso revitalizado vai possibilitar uma utilização mais ampla das edificações.”

Impactos

Dessa maneira, ele também falou sobre o impacto do prédio estar fechado. “Nós temos o patrimônio desde 2018 absolutamente fechado, sem uso, deteriorando. O Estado, enquanto foi dado uso educacional, Etec/Fatec, realmente não cuidou do patrimônio que é privado, da Santa Casa. Mas quando não cuidou, deteriorou, usou de maneira equivocada, deixando acelerar o grau de deterioração e de colapso de vários prédios existentes, dos prédios anexos”, afirma.

“Infelizmente demorou essa retomada até a Santa Casa conseguir retomar o bem. E agora a gente consegue, depois de quase três anos de trabalho intenso de aprovação do projeto, aprovação do restauro, memorial descritivo, todos os trâmites burocráticos necessários tanto no município quanto no Estado, conseguimos dar cabo da aprovação”, lembra.

“E agora, com esse patrocinador master, que é o terminal T-Grão, conseguir colocar de pé uma grande obra. Uma obra detalhada, com muitos cuidados, e resgatando a boa arquitetura das edificações.”

 

História

O jornalista especializado em História, Sergio Willians cita o contexto histórico que levou à criação desses prédios como o Museu de Pesca, a Hospedaria dos Imigrantes, o Escolástica Rosa e a Escola Estadual Cesário Bastos e qual papel eles desempenharam no desenvolvimento de Santos.

“Esses edifícios nasceram em um dos períodos mais importantes da história de Santos. Entre o final do século XIX e o início do século XX, a cidade crescia rapidamente impulsionada pelo Porto de Santos, pela economia do café e pela chegada de imigrantes vindos de várias partes do mundo.

Cada um desses prédios foi construído para atender uma necessidade específica daquele momento. A Hospedaria dos Imigrantes foi planejada para receber os estrangeiros que desembarcavam pelo porto. Assim, mostrando a importância de Santos como porta de entrada do País”, explica.

“Embora nunca tenha sido utilizada para essa finalidade, ela simboliza esse período de intensa imigração. O Escolástica Rosa nasceu da visão de João Octávio dos Santos, que destinou sua fortuna à criação de uma escola voltada à educação intelectual e profissional de jovens pobres. Foi algo pioneiro, que ajudou a formar trabalhadores qualificados e contribuiu diretamente para o desenvolvimento da cidade.”

Educação pública

Já o Cesário Bastos representa o esforço do Estado em ampliar o acesso à educação pública. Foi o primeiro grupo escolar estadual de Santos e tornou-se uma referência de ensino para milhares de estudantes ao longo de mais de um século. O Museu de Pesca, por sua vez, está ligado à vocação marítima da cidade. Seu prédio foi concebido para atividades relacionadas à formação náutica (Escola de Aprendizes Marinheiros) e posteriormente à pesquisa pesqueira, reforçando a ligação histórica de Santos com o mar.

Portanto, ele acrescenta que juntos, esses edifícios ajudam a contar a história de uma Cidade que cresceu a partir do porto, da educação e do trabalho.

“Patrimônio histórico não deve ser visto como um peso ou apenas como uma lembrança do passado. Ele pode cumprir funções culturais, educacionais e turísticas muito importantes. Um prédio preservado e ocupado continua produzindo memória. Um prédio abandonado corre o risco de se transformar apenas em uma ruína.”

 

Hospedaria dos Imigrantes

A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) informa que está em processo de contratação do projeto básico da Hospedaria dos Imigrantes. O estudo preliminar foi concluído e está sendo elaborado o estudo de restauro, que subsidiará a análise do imóvel pelos órgãos de preservação do patrimônio histórico. A previsão é que esse estudo seja concluído em agosto de 2026 para posterior protocolo junto ao Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa).

Além disso, a proposta de intervenção prevê a implantação de moradias, áreas comerciais e equipamentos culturais, em conformidade com as diretrizes dos órgãos de preservação patrimonial, conciliando a preservação das características históricas do imóvel com sua requalificação e novos usos.

Foto: Reprodução/Google Maps

Além dos estudos arquitetônicos e de restauro, a CDHU concluiu o Laudo de Caracterização da Vegetação existente no terreno e está dando andamento aos estudos e laudos ambientais necessários ao processo de licenciamento junto à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Os estudos técnicos e os processos de análise pelos órgãos competentes ainda estão em andamento. Por isso, não há definição sobre o início das obras, o orçamento definitivo e as fontes de recursos, informações que serão estabelecidas nas próximas etapas do projeto.

 

Museu de Pesca

Sendo assim, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo informa que o processo de recuperação do Museu de Pesca segue em andamento.
Portanto, as obras internas de hidráulica e elétrica já foram concluídas. E a próxima etapa prevê o restauro da fachada, cobertura, portas, janelas e demais elementos arquitetônicos do prédio, respeitando as características originais do imóvel tombado.
O Projeto Básico de restauro e reforma foi aprovado pelo Condephaat. E a Secretaria realiza atualmente a revisão final da documentação técnica e orçamentária que subsidiará a publicação de um novo edital para contratação da empresa responsável pelas obras. Até o momento, foram investidos R$ 1,1 milhão em estudos, projetos e etapas preparatórias. E o valor estimado para a execução completa da obra é de aproximadamente R$ 10 milhões.
Além disso, após a contratação da empresa e o início dos trabalhos, o prazo técnico estimado para a conclusão das obras é de cerca de 15 meses. Durante o período de fechamento, o acervo, composto por aproximadamente 1.400 itens, permanece preservado e recebe ações contínuas de monitoramento, limpeza e conservação preventiva.

 

Cesário Bastos

Desse modo, a Unidade Regional de Ensino (URE) Santos informa que a devolução do prédio Cesário Bastos, localizado na Vila Mathias, está em andamento. Após a formalização da devolução, a zeladoria do edifício ficará sob responsabilidade da URE.

Foto: Reprodução/Google Maps

Além disso, a USP informa que devolveu o prédio à Seduc-SP no dia 15 de janeiro de 2026, em reunião na Reitoria da USP.

Dessa maneira, no local, eram desenvolvidas atividades da Escola Politécnica (Poli).

 

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Da Redação
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