Condomínios se adaptam à chegada dos carros elétricos | Boqnews
Foto: José Cruz/Agência Brasil
18 de setembro de 2026

Condomínios se adaptam à chegada dos carros elétricos

A expansão dos carros elétricos começa a transformar também as garagens dos condomínios residenciais. Com o aumento da presença desses veículos nas ruas, cresce entre moradores a demanda por pontos de recarga dentro dos próprios edifícios, o que traz novos desafios para síndicos e administradoras.

 

Na prática

Foto: Cristiano Cucatti

Em um condomínio com 144 unidades em Santos administrado pelo síndico profissional Cristiano Cucatti, a instalação de pontos de recarga surgiu a partir de uma demanda dos próprios moradores. “Na época, havia três carros elétricos e os moradores pediram esse estudo. Fiz uma pesquisa de mercado, verifiquei que haviam empresas que trabalhavam com sistema de comodato. Eles instalam o sistema de pontos de recarga com uma taxa mensal do condomínio por esses equipamentos e o próprio morador interessado compra os créditos e faz a recarga nos seus veículos diariamente ou mensalmente, conforme a necessidade”.

Ele aborda que o prédio tem um cashback que é estipulado de acordo com a venda de energia desse ponto, justamente para contribuir para bancar a taxa de comodato.  Antes da instalação, o condomínio contratou um engenheiro eletricista para elaborar um projeto de adequação. Segundo Cucatti, não foi necessário aumentar a carga elétrica do edifício, já que a estrutura existente comportava a demanda prevista.

Ele informa que verificou a apólice de seguro do condomínio para ver se havia alguma necessidade de adequação ou alteração, mas não houve. A decisão também levou em conta as características do estacionamento. O condomínio possui três pavimentos de garagem, mas os pontos foram instalados no térreo, escolhido por apresentar melhor ventilação natural. Outro fator que facilitou a implementação foi a existência de vagas rotativas. Como os moradores não possuem vagas fixas, não foi necessário preparar uma vaga específica para cada proprietário de veículo elétrico.

A presença de manobristas também contribuiu para a operação do sistema. Apesar disso, os funcionários não são responsáveis por conectar ou desconectar os veículos dos carregadores. Essa tarefa permanece sob responsabilidade dos próprios moradores.

 

Investimentos

O investimento na estrutura de recarga também acompanhou o aumento da frota elétrica no condomínio. Inicialmente, eram três veículos elétricos. Em menos de um ano após a instalação de dois pontos de recarga, o número chegou a dez.

Diante desse crescimento, o condomínio já avalia a possibilidade de ampliar a quantidade de vagas destinadas ao carregamento de veículos elétricos.

Para Cucatti, entretanto, não existe uma solução única para todos os edifícios. “O importante é que cada condomínio avalie a sua estrutura, a sua convenção, a sua operação e a disponibilidade de vagas”, afirma.

Além dos equipamentos de recarga, o condomínio também realizou intervenções complementares. As duas vagas destinadas aos veículos elétricos receberam pintura específica e, recentemente, foram adquiridos extintores apropriados para situações envolvendo baterias de lítio.

 

Bombeiros

Segundo o major aposentado do Corpo de Bombeiros de São Paulo, Sergio Ricardo Vasconcellos, do ponto de vista da segurança contra incêndios, os principais riscos da presença de veículos elétricos e pontos de recarga em garagens de condomínios tratam da instalação dos pontos de carregadores, com o uso de improvisos como adaptadores, carregadores, fiação, dispositivos de segurança fora da norma correta, sendo importante utilizar equipamentos devidamente homologados e orientados por profissional qualificado (engenheiro eletricista).

Ele ainda comenta que a instalação de carregadores em garagens pode exigir mudanças nos sistemas de prevenção e combate a incêndios do condomínio.

“Para edificações novas já devem ser previstas as medidas de proteção conforme a legislação atual. Para edificações existentes certamente irá gerar mudanças a curto e médio prazos, pois somente a ligação do circuito elétrico individual já requer exigências que previnem acidentes. As outras medidas fixas (detectores, SPK, etc) serão exigidas com prazo para instalação.”

Cuidados

O principal cuidado para que a instalação e o uso dos carregadores não aumentem os riscos de incêndio é fazer todas as adaptações/adequações de acordo com os parâmetros exigidos na legislação, que, por si só, são exigências previstas afim de evitar ao máximo os riscos de incêndio, choque elétrico e outros fatos que podem gerar danos físicos ou financeiros. Todo e qualquer serviço deve ser acompanhado do profissional qualificado e experiente, sendo o responsável técnico pela execução.

Aliás, ele avalia que os condomínios existentes não estão preparados para lidar com um eventual incêndio envolvendo um veículo elétrico durante o carregamento, mesmo porque toda a atuação depende do fator humano.

“As pessoas são carentes de informações acerca do combate a incêndios simples, corriqueiros. O combate a incêndios dessa magnitude requer um conhecimento mais específico”.

“O Corpo de Bombeiros de São Paulo está empenhado no sentido de estudar com propriedade as melhores formas de atender esse tipo de ocorrência. Mas, muito mais que isso, trabalha com afinco para atualizar a legislação com as medidas preventivas ideais que poderão minimizar ou evitar tragédias futuras.”

 

Secovi-SP

Segundo o diretor regional do Secovi-SP (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo) em Santos, Carlos Meschini, a infraestrutura para recarga de veículos elétricos começa a ganhar importância como diferencial nos empreendimentos, acompanhando o crescimento dos veículos eletrificados. Ela contribui para a modernização e a atratividade dos condomínios e prepara o imóvel para uma demanda que tende a crescer.

“Mesmo que o proprietário não tenha um veículo elétrico hoje, ao colocar o imóvel à venda, há grande possibilidade de ser um fator diferencial positivo e decisivo.”

Além disso, ele também comenta sobre quem deve arcar com as despesas quanto aos custos de instalação de pontos de recarga.

“A definição depende de quem será beneficiado e das intervenções necessárias. Quando a infraestrutura atende ao condomínio de forma coletiva, os custos podem ser rateados entre os condôminos. Quando a instalação atende exclusivamente determinados usuários, o custo pode ser atribuído aos interessados, conforme decisão da assembleia. Já o consumo de energia deve ser individualizado e pago pelo usuário do carregador.”

Dessa forma, o principal desafio dos condomínios é a capacidade da infraestrutura elétrica existente. Antes da instalação, é necessário avaliar a demanda disponível e possíveis adequações. Também precisam ser definidos o local dos equipamentos, sistema de medição e cobrança, regras de utilização, manutenção, divisão de custos e aprovação em assembleia. A instalação deve contar com avaliação e responsabilidade técnica.

 

Sinduscon-SP

Aliás, o diretor regional do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) em Santos, Lucas Teixeira, explica, sob o ponto de vista das construtoras, qual é o impacto de prever infraestrutura para carregamento de veículos elétricos ainda na fase de projeto de um empreendimento.

“Prever a infraestrutura desde o projeto ajuda a garantir segurança, eficiência e possibilidade de expansão futura, evitando intervenções mais caras e complexas depois da entrega do empreendimento. A preparação antecipada permite dimensionar corretamente a instalação elétrica, os espaços, eletrocalhas e demais componentes necessários.”

Assim como, sobre quem deve assumir os custos, Teixeira aborda que a legislação estadual atualmente assegura ao condômino o direito de instalar, às suas expensas, uma estação individual em sua vaga privativa, desde que respeitadas as normas técnicas, de segurança e capacidade de carga do prédio. A convenção do condomínio deve estabelecer regras claras sobre instalação, consumo, manutenção e eventuais danos.

Sobre as soluções que vêm sendo adotadas nos novos empreendimentos para permitir a expansão do número de carregadores sem a necessidade de complexas intervenções futuras, deve-se projetar uma infraestrutura flexível e escalável, com capacidade de atender inicialmente parte da demanda e permitir a ampliação posterior sem grandes intervenções. Além disso, ele acrescenta que prédios novos já estão sendo projetados considerando o aumento da demanda por veículos elétricos.

 

Sindedif

Segundo o presidente do Sindedif (Sindicato dos Empregados em Edifícios de Santos e Cubatão), José Maria Félix, a instalação de carregadores de veículos elétricos interessa o sindicato. “É mais um evento novo que chega aos condomínios e precisamos preparar o trabalhador para isso. E por ser novo, a gente precisa discutir como se dará a implantação do equipamento, quem vai ser responsável para operar o equipamento e quem vai fiscalizar o uso.”

Desse modo, sobre quem deve ser responsável por acompanhar o funcionamento dos carregadores e identificar eventuais problemas, ele aborda que terá que ser analisado como isso vai funcionar.

“Precisamos definir as responsabilidades. Por exemplo, a pessoa vai deixar o equipamento no prédio ligado por quanto tempo? No máximo, o síndico pode falar para o funcionário: ‘determinada hora desliga’. Ou o condomínio vai contratar uma empresa apenas para tomar conta desse equipamento e operação?”, indaga.

 

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Da Redação
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