Saúde

Sem repasses, policlínicas de Santos não possuem vacinas

Ministério da Saúde não repassa doses de vacinas e deixa unidades de saúde desabastecidas. Situação preocupa

19 de agosto de 2019 - 08:42

Felipe Rey

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A falta de vacinas nas unidades públicas de saúde e a volta de antigas doenças erradicadas alarmam a população e também profissionais da área da Saúde Pública.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), os casos de sarampo triplicaram no mundo durante o primeiro semestre de 2019.

Para o período de 1º de janeiro a 31 de julho de 2019, 182 países notificaram 364.808 casos de sarampo à OMS. No mesmo período do ano passado, 129.239 casos de sarampo foram registrados em 181 países.

No Brasil, entre 12 de maio a 3 de agosto, 1.226 casos já foram registrados.

São Paulo lidera, com 1.220.

O Ministério da Saúde informa que o trabalho de combate ao sarampo se intensificou e já foram repassados aos estados 16 milhões de dose da vacina tríplice viral.

A capital paulista recebeu 6,5 milhões de doses vacinais.

Em Santos, foram confirmados 5 casos de sarampo – sendo 19 na Baixada Santista – e as vacinas estão disponíveis em todas as policlínicas.

Sem vacinas

No entanto, a situação difere para outras doenças. A Secretaria Municipal de Saúde informa que não conta com todas as vacinas em estoque.

De acordo com a pasta, o repasse do Grupo de Vigilância Epidemiológica (GVE), do Governo Estadual, não foi efetuado.

Hoje, estão em falta as doses das vacinas pentavalente, DTP (contra difteria, tétano e coqueluche) e BCG (contra tuberculose).

Nesta última, por sinal, a Secretariam recebeu apenas oito frascos da vacina, número ínfimo para atender a demanda mensal de 146 frascos, incluindo policlínicas e maternidades.

“Estas poucas doses foram priorizadas para vacinar os bebês das maternidades municipais. Assim, continuarão em falta nas policlínicas”, afirma a Prefeitura, em nota. Além disso, poucas doses da polio oral e hepatite B também foram entregues à Secretaria Municipal de Saúde.

Com poucos medicamentos enviados pela Secretaria Estadual, nem todas as policlínicas conseguem ser abastecidas.

Segundo a Prefeitura, algumas unidades receberão as doses nesta semana.

O Município também recebeu doses da vacina dupla adulto (dT), o que permitirá o abastecimento de todas as policlínicas.

Arte: Rom Santa Rosa

Joga de empurra

Enquanto a população sofre com a falta de vacinas, um verdadeiro jogo de empurra ocorre entre os poderes federal, estadual e municipal.

A Prefeitura de Santos alega que as solicitações de doses são feitas constantemente pelo setor de Vigilância em Saúde do Município ao Grupo de Vigilância Epidemiológica (GVE), órgão do governo estadual.

Mensalmente, segundo a pasta, existem discussões entre os gestores de saúde dos municípios da Baixada e do governo estadual no Departamento Regional de Saúde (DRS-4).

Ainda segundo o Executivo, o desabastecimento das doses é consequência de problemas relativos aos processos de compra e aprovação das vacinas junto ao Governo Federal.

Por sua vez, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo salienta que a responsabilidade da aquisição e distribuição de vacinas é do Ministério da Saúde, responsável também pelas diretrizes de aplicação e distribuição das doses.

O Estado relata que, “nos últimos meses, o envio das doses pelo órgão federal para São Paulo tem sido irregular e em quantidades insuficientes”, ressalta, em nota.

Em resposta, o Ministério da Saúde informa que, no caso da vacina da poliomielite – que está em falta nas policlínicas santistas – o repasse está regular em todo o País.

Segundo o órgão federal, somente neste ano foram enviadas aos estados 10,2 milhões de doses.

Deste total, 1,9 milhão ao estado de São Paulo, a quem compete fazer a distribuição aos municípios.

 

Reclamações

“Há o problema da dengue, sarampo, e nem encontramos mais a vacina da paralisia infantil. Esse país está acabando”, revolta-se o jornalista Francisco La Scala Júnior que também passou por problemas ao levar o neto de quatro anos à policlínica do Gonzaga e se deparar com a ausência do medicamento.

O espanto e a irritação com a falta das doses aconteceram na última segunda-feira (12).

Segundo ele, informaram-lhe que nenhuma outra policlínica possuía a vacina.

O jornalista havia levado o neto para tomar o reforço de tétano e também da poliomielite.

A analista de sistemas Carolina Cruz salienta que também passou por problemas na hora de vacinação sua filha de quatro meses.

Ela levou a bebê para tomar a vacina da tríplice viral no dia 25 de julho.

O curioso foi que o acontecido se deu em uma clínica privada.

“Achei estranho por ser particular. Mas a demanda foi tanta que faltou até neste estabelecimento”, afirma.

Ela terá que esperar até o dia 28 de agosto para vacinar a filha.

E torce para que até esta data o estabelecimento já conte com as vacinas.

 

Faltam repasses

“O real problema é que o repasse feito não é suficiente”, alerta Ana Paula Valeiras, chefe do Departamento de Vigilância em Saúde (Devig).

Neste ano, houve a solicitação para 65 mil doses de vacinas para imunização para várias doenças.

No entanto, apenas 14 mil foram entregues até agora.

Assim, apenas 21,5% das vacinas foram entregues pelas pastas da Saúde (federal/estadual).

Isso significa que apenas 1 em cada 5 vacinas solicitadas foi efetivamente entregue.

Segundo Ana Paula, não há previsão para que o reabastecimento das vacinas seja feito pelo simples motivo do Governo Federal não estar repassando as doses ao Estado que, por sua vez, as envia aos municípios.

O Ministério da Saúde informa que também não existe previsão de entrega, conta Ana Paula.

Segunda ela, não apenas Santos corre risco de epidemias, mas o Brasil como um todo.

Ela cita, como exemplo, o sarampo, que é uma doença imunoprevinível e que a população não procurou se vacinar contra.

“O risco é não fazer a prevenção e essas doenças imunopreviníveis ressurgirem no País”, salienta.

Riscos iniciais

Para o médico infectologista Evaldo Stanislau, Santos é bem estruturada em termos de Vigilância Epidemiológica e Sanitária.

No entanto, ele acredita que velhas doenças, como sarampo e febre amarela podem retornar.

“Dado o nível de incertezas e desorganização global, as doenças emergentes e reemergentes podem ganhar destaque”, afirma.

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