Tarifaço dos EUA deve ter impacto pontual na Baixada Santista, mas aumenta o risco para exportadores | Boqnews
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23 de julho de 2026

Tarifaço dos EUA deve ter impacto pontual na Baixada Santista, mas aumenta o risco para exportadores

O novo tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros acendeu um sinal de alerta na Baixada Santista. Afinal, a região abriga o Porto de Santos, principal porta de entrada e saída do comércio exterior brasileiro. Apesar disso, o impacto na economia regional deve ser limitado. Os maiores efeitos devem atingir empresas que dependem fortemente do mercado americano.

Essa é a avaliação do professor de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos (Unisantos), Fabiano Lourenço de Menezes. Segundo ele, as tarifas deixaram de ser apenas uma ferramenta econômica e passaram a fazer parte da disputa política entre os países.

“A tarifa deixou de ser um instrumento puramente comercial. Hoje ela é também um instrumento político e um fator de risco geopolítico para empresas que dependem do mercado americano.”

Foto: Arquivo Pessoal Fabiano Lourenço de Menezes

Por que os Estados Unidos taxaram produtos brasileiros?

De acordo com o especialista, a política tarifária faz parte da estratégia do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de fortalecer a indústria americana. Inicialmente, as medidas atingiram países como China, Canadá e integrantes da União Europeia. Depois, o Brasil entrou na lista.

Para Menezes, porém, o caso brasileiro vai além da economia.

“Se fosse apenas uma discussão comercial, seria muito mais fácil negociar. O fator político pesa muito mais no caso do Brasil.”

O professor destaca ainda que os Estados Unidos registram superávit comercial na relação com o Brasil. Em outras palavras, os americanos vendem mais produtos ao Brasil do que compram. Por isso, na avaliação dele, os argumentos econômicos apresentados pelo governo americano não explicam, sozinhos, a decisão de impor as tarifas.

Empresas da Baixada Santista devem sentir os maiores impactos

Embora o tarifaço tenha repercussão nacional, os reflexos na Baixada Santista tendem a ser pontuais. Segundo o especialista, a economia regional não deve sofrer uma mudança significativa. Em contrapartida, empresas que exportam grande parte da produção para os Estados Unidos podem enfrentar dificuldades.

Alguns setores trabalham quase exclusivamente para atender às exigências do mercado americano. É o caso, por exemplo, de empresas do setor madeireiro, que produzem peças com medidas específicas para a construção civil dos Estados Unidos.

Nesse cenário, encontrar novos compradores não é uma tarefa simples.

“Buscar novos mercados é possível, mas isso leva tempo. Existem empresas que fabricam produtos pensados exclusivamente para os Estados Unidos e não conseguem mudar esse foco de uma hora para outra.”

Por isso, os prejuízos devem aparecer primeiro nas empresas mais dependentes desse mercado, e não na economia da Baixada Santista como um todo.

Porto de Santos acompanha cenário, mas não prevê impactos imediatos

O Porto de Santos também monitora os desdobramentos das novas tarifas. No entanto, a Autoridade Portuária de Santos (APS) afirma que ainda é cedo para estimar qualquer impacto na movimentação de cargas.

Segundo a estatal, mudanças no comércio internacional costumam ocorrer de forma gradual. Além disso, o complexo portuário possui uma matriz comercial bastante diversificada, com conexão a mais de 600 destinos ao redor do mundo.

Essa característica reduz a dependência de um único mercado e facilita o redirecionamento das exportações, caso seja necessário.

A APS lembra ainda que, durante o primeiro tarifaço americano, o Porto de Santos bateu recordes de movimentação nos meses de julho e agosto. Para a autoridade portuária, esse resultado demonstra a capacidade do comércio exterior brasileiro de encontrar novos mercados.

Santos monitora possível impacto na arrecadação

A Prefeitura de Santos também acompanha os desdobramentos da medida. A principal preocupação é uma eventual queda na arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS), caso as tarifas reduzam o volume de cargas movimentadas pelo Porto.

Se isso acontecer, serviços ligados à cadeia logística, como transporte, armazenagem, despachos aduaneiros e operações portuárias, podem registrar queda na atividade. Consequentemente, a arrecadação municipal também pode diminuir.

Entre maio de 2025 e junho de 2026, Santos arrecadou aproximadamente R$ 1,54 bilhão em ISS. Desse total, cerca de 65% vieram de atividades relacionadas ao complexo portuário e logístico, o que demonstra a importância do Porto para a economia da cidade.

Apesar disso, a Prefeitura afirma que ainda é prematuro calcular possíveis perdas.

Em nota, o município lembra que episódios anteriores de tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos não provocaram impactos significativos na economia local nem reduziram a movimentação do Porto de Santos. Ainda assim, ressalta que acompanha os indicadores econômicos de forma permanente.

A Prefeitura de Guarujá foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até a publicação desta matéria.

Especialista defende apoio às empresas em vez de retaliação

Para Menezes, o Brasil deve evitar uma resposta baseada em novas tarifas contra produtos americanos. Segundo ele, esse tipo de medida pode aumentar os custos para empresas brasileiras e provocar novas reações dos Estados Unidos.

“O Brasil tem instrumentos para retaliar, mas isso pode acabar prejudicando a própria indústria brasileira.”

Em vez disso, o especialista defende políticas públicas voltadas aos setores mais afetados. Entre as alternativas, ele cita incentivos fiscais, linhas de crédito e ações que ajudem as empresas a conquistar novos mercados internacionais.

Tarifaço amplia risco para quem depende dos Estados Unidos

Na avaliação do professor, a principal consequência do tarifaço é o aumento da insegurança para empresas exportadoras.

“O sucesso de uma empresa dependerá, cada vez mais, do quanto ela consegue diversificar seus mercados e reduzir a dependência de um único comprador.”

Mais do que uma disputa comercial, o episódio mostra que decisões políticas podem alterar rapidamente as condições de acesso ao mercado americano. Por isso, reduzir a dependência de um único comprador passa a ser uma estratégia cada vez mais importante.

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Da Redação
Ronaldo Tarallo Jr., Da Redação
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