15 anos sem Plínio Marcos | Boqnews

Ponto de vista

21 de novembro de 2014

15 anos sem Plínio Marcos

Nesta semana, vários espaços de Santos serviram como fósforos para manterem acesas as ideias de um dos maiores dramaturgos da cidade. Filmes e palestras homenagearam Plínio Marcos, o palhaço-escritor que faleceu em 1999.

Conheci Plínio Marcos em 1997. Aliás, foi a única vez que eu o vi. Plínio assistiria, no Teatro Municipal lotado, à encenação da peça “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”. O texto havia sido censurado pela própria Secretaria de Cultura de Santos por conta do título. Depois da repercussão negativa, a retomada do espaço público para a palavra do dramaturgo, infelizmente acostumado às perseguições de Governo e de Estado.

Além de ver aquele texto duro no palco, ir ao teatro era – na época – a única maneira de adquirir os livros de Plínio. Ninguém os editava até então, salvo exceções alternativas. Eram obras que não circulavam em livrarias e tampouco apareciam nas bibliotecas. Havia me transformado em leitor ávido de suas crônicas no Jornal da Orla, última publicação para quem escreveu, além de entrevistas e textos teatrais.

Dois anos depois, em novembro de 1999, Plínio Marcos faleceu em São Paulo, de falência múltipla dos órgãos. Tinha 64 anos. Plínio Marcos, infelizmente, é um daqueles autores que tiveram que morrer para serem reconhecidos. A obra sempre foi valorizada, mas estava presa à classe artística e aos intelectuais.

Plínio Marcos foi um dos alvos preferidos da censura. Os diálogos fortes, os personagens marginais, os cenários degradantes expunham a desigualdade e a violência do meio urbano. O universo teatral de Plínio era um “atentado à moral e aos bons costumes”, clichê vomitado pelos retrógrados. Plínio foi derrubado em todas as redações, desapareceu da TV, evaporou das salas teatrais.

Pior do que a postura governamental, foi a censura moral. Muitos textos dele deixaram de ser encenados por causa da agressividade das relações entre os personagens. Os mais apressados e ignorantes queriam associá-lo a um mero escritor de palavrões.

Plínio Marcos foi comparado por críticos a Nelson Rodrigues. Enquanto o carioca expunha a hipocrisia da classe média, o autor santista esfregava na mesma classe média as contradições e sofrimentos da marginalidade. Ele é um dos poucos autores que escreveu como viveu, na maior parte da vida.

Há o Plínio Marcos do Macuco, do Mercado de Santos, da cafetinagem, das prostitutas e vigaristas em geral. Existe também o Plinio Marcos místico, ligado às questões metafísicas, principalmente a partir dos anos 80. É o Plinio das cartas de tarô, que pagaram muitas vezes a refeição de fim de noite.

A obra do dramaturgo também permite, pelas crônicas, identificar o relacionamento com o futebol. Ele tentou ser jogador, mas contribuiu muito mais com o Jabaquara (hoje na quarta divisão de São Paulo) quando desfilava causos nas colunas semanais.

O Plínio do circo e dos trabalhos temporários (como camelô) se expõe nas peças. “O Assassinato do Anão do Caralho Grande” é uma homenagem satírica ao mundo que frequentou na adolescência.

A transgressão não é o motivo para torná-lo importante. Ele sofreu por compreender a função do artista em ser questionador do poder, alguém que desconfia da hipocrisia de muitas convenções sociais.

Plínio Marcos não deixou herdeiros teatrais. É um trabalho difícil, numa época de liberdade política e amarras econômicas e morais, quando prevalece o politicamente correto. Alguém se arrisca, sabendo do preço que o próprio Plínio Marcos pagou por quatro décadas?

Da Redação
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