A democracia precisa de jornalismo em todos os idiomas | Boqnews

Ponto de vista

27 de setembro de 2026

A democracia precisa de jornalismo em todos os idiomas

Anna Mae Lamentillo

Ao realizar um levantamento linguístico da região metropolitana de Manila, deparo com um paradoxo.

A metrópole abriga pelo menos 217 idiomas, número que cresce a cada nova comunidade que encontro. Ao mesmo tempo, alguns idiomas indígenas e regionais das Filipinas estão desaparecendo diante de nossos olhos.

Como integrante do grupo etnolinguístico Karay-a, sei o que desaparece quando um idioma enfraquece.

Perdemos palavras, além de canções, rituais, humor, conhecimento ecológico, histórias familiares e formas de enxergar o mundo.

Quando um idioma se cala, um arquivo inteiro queima sem produzir fumaça.

Isso não é apenas uma emergência cultural. É também uma emergência democrática.

A democracia depende de cidadãos capazes de entender o que é feito em seu nome. O jornalismo ajuda as pessoas a avaliar líderes, acompanhar gastos públicos, preparar-se para desastres, defender seus direitos e participar do debate.

Mas a informação não é de fato pública quando está disponível apenas em idiomas que muitos cidadãos não dominam por completo.

As Filipinas, com cerca de 117 milhões de habitantes, abrigam aproximadamente 175 idiomas indígenas vivos, dezenas deles ameaçados.

Ainda assim, o filipino e o inglês dominam a educação, o governo e os meios de comunicação de massa.

Das salas de aula aos tribunais, esses idiomas muitas vezes determinam quem consegue participar com segurança e quem precisa enfrentar um vocabulário pouco familiar.

Esse desequilíbrio transmite uma mensagem clara: os idiomas locais pertencem ao ambiente doméstico, enquanto os idiomas do poder pertencem à vida pública.

Essa mensagem produz consequências.

Um agricultor pode ouvir falar de uma nova política agrícola sem compreender seus termos técnicos. Uma comunidade indígena pode receber notícias sobre mineração ou disputas de terra em um idioma incapaz de expressar sua relação com o território.

Durante tufões, emergências de saúde ou eleições, uma informação pouco clara pode se tornar perigosa. As pessoas podem recorrer, em vez disso, a rumores ou publicações enganosas nas redes sociais que falam com elas de modo mais direto.

O jornalismo em idiomas locais ajuda a reduzir essa lacuna democrática. Ele faz mais do que traduzir, palavra por palavra, reportagens produzidas em Manila.

Permite aos jornalistas fazer outras perguntas, reconhecer prioridades locais e explicar acontecimentos nacionais a partir da experiência das comunidades.

Reportagens em cebuano, hiligaynon, bikol, waray, ilocano, kapampangan ou kinaray-a podem transmitir sentidos e preocupações que desaparecem numa versão nacional padronizada.

A democracia depende de cidadãos capazes de entender o que é feito em seu nome. O jornalismo ajuda as pessoas a avaliar líderes, acompanhar gastos públicos, preparar-se para desastres, defender seus direitos e participar do debate.

Foi essa convicção que me levou a fundar a Paraluman News. Eu queria ajudar a construir um jornalismo que não obrigasse as comunidades a abandonar seu idioma, sua identidade ou sua experiência para participar da conversa pública. A Paraluman News parte de uma ideia simples: o acesso à informação não deveria depender de alguém falar o idioma das instituições, das elites ou das grandes redações.

O jornalismo precisa entrar nas comunidades, ouvir com atenção e se comunicar de formas que as pessoas reconheçam como próprias. Paraluman News

Essa também é uma questão sobre quem vai moldar o futuro da mídia filipina. Jovens filipinos muitas vezes são tratados apenas como público ou usuários de tecnologia.

Mas podem se tornar repórteres, tradutores, editores, historiadores comunitários e inovadores na área de mídia.

Eles já transitam por idiomas, plataformas e espaços culturais. Sabem como uma história pode sair de uma conversa num barangay e chegar a um grupo de mensagens, a um podcast ou a um debate nacional.

Com formação, confiança e recursos, os jovens podem liderar o renascimento do jornalismo em idiomas locais.

Podem registrar as histórias dos mais velhos, produzir vídeos jornalísticos em idiomas regionais, criar arquivos digitais e explicar políticas públicas em formatos úteis para suas comunidades.

Podem mostrar que a língua materna não é uma barreira à modernidade, mas uma fonte de autoridade, criatividade e conexão.

A região metropolitana de Manila revela tanto a promessa quanto o risco da vida multilíngue. Em mercados, escolas e espaços digitais, kapampangan, pangasinan, chavacano, hokkien, taglish e muitos outros idiomas se encontram e evoluem. Mas a migração cria pressão para abandonar a língua materna.

Sotaques regionais são ridicularizados como provincianos, e falantes aprendem a apagar a musicalidade de suas origens para soar aceitáveis.

As redações podem reforçar essa hierarquia ou desafiá-la. Devem investir em repórteres, editores, apresentadores e correspondentes comunitários que trabalhem em idiomas locais e indígenas.

Esse trabalho precisa fazer parte do jornalismo diário de interesse público, e não aparecer apenas em reportagens ocasionais sobre patrimônio cultural. Rádios comunitárias, jornais regionais, podcasts e canais digitais merecem apoio contínuo. As universidades também devem formar jornalistas multilíngues.

Apoiar o jornalismo em idiomas locais não é apenas um projeto cultural. É um investimento em cidadania informada, confiança pública e participação em condições de igualdade.

Uma democracia não pode afirmar que inclui todos ao mesmo tempo em que exige de milhões de pessoas o abandono de seu idioma mais forte à porta.

No Dia Mundial do Jornalismo, devemos lembrar que o direito de saber inclui o direito de compreender.

O jornalismo só cumpre sua função democrática quando as pessoas podem ouvir a verdade, questionar o poder e imaginar seu futuro num idioma que sintam como seu.

 

(*) Este artigo de opinião foi encomendado como parte da campanha “Dia Mundial do Jornalismo” , uma iniciativa que destaca o papel essencial do jornalismo na oferta de fatos e clareza.

Anna Mae Lamentillo
Anna Mae Lamentillo, fundadora da Paraluman News, Filipinas
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com
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