A madeira que brilha: ciência, natureza e o futuro das cidades | Boqnews

Ponto de vista

10 de março de 2026

A madeira que brilha: ciência, natureza e o futuro das cidades

A noite cai sobre a floresta. O silêncio é profundo, interrompido apenas pelo vento entre as árvores. À primeira vista, tudo parece mergulhado na escuridão.

Então algo chama a atenção.

Em um tronco caído, quase escondido entre musgos e folhas úmidas, surge uma luz suave, esverdeada.

Não é reflexo da lua nem um inseto passageiro. A própria madeira parece emitir um brilho discreto, como se respirasse luz.

Esse fenômeno acompanha a humanidade há séculos. Naturalistas já registravam a chamada madeira luminosa, conhecida como foxfire.

O brilho é produzido por fungos bioluminescentes que colonizam troncos em decomposição e liberam luz como parte de seu metabolismo.

Durante muito tempo, esse espetáculo silencioso pertenceu apenas ao campo da curiosidade natural. Agora ele começa a entrar nos laboratórios de ciência dos materiais.

Pesquisadores do Empa, na Suíça, investigam como esse fenômeno pode inspirar novos materiais sustentáveis.

Em laboratório, cientistas cultivaram o fungo Desarmillaria tabescens dentro da estrutura da madeira, induzindo um processo de bioluminescência controlada.

A luz surge por meio de uma reação bioquímica envolvendo compostos como a Luciferin, que reage com enzimas específicas na presença de oxigênio.

A energia liberada se transforma em uma luminosidade verde suave. O resultado é uma madeira que literalmente brilha no escuro.

O estudo, liderado pelo pesquisador Francis W. M. R. Schwarze e publicado na revista científica Advanced Science, demonstra que a bioluminescência pode permanecer ativa por vários dias após a colonização da madeira.

A intensidade luminosa ainda é baixa para substituir sistemas elétricos.

Mas o experimento revela algo mais importante: uma nova maneira de pensar os materiais.

Durante muito tempo, madeira, concreto ou aço foram vistos como estruturas passivas. Hoje, pesquisadores começam a explorar materiais que interagem com processos vivos, capazes de gerar funções inesperadas.

Essa perspectiva dialoga diretamente com os desafios das cidades contemporâneas.

O conceito de cidade inteligente costuma ser associado a sensores, redes digitais e sistemas de dados. Mas existe outra dimensão igualmente relevante: a inteligência ecológica dos materiais.

Materiais capazes de iluminar, filtrar ou responder ao ambiente podem reduzir consumo energético e ampliar a eficiência ambiental do espaço urbano.

Nesse sentido, a madeira luminosa não é apenas uma curiosidade científica. É um sinal de mudança.

Talvez o futuro das cidades não dependa apenas de tecnologias cada vez mais complexas.

Talvez ele também passe por aprender com a própria natureza, incorporando processos vivos à arquitetura, ao design e à infraestrutura urbana.

Afinal, às vezes a inovação começa exatamente assim: com um pequeno brilho surgindo em silêncio dentro de um tronco esquecido na floresta.

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Fontes:

SCHWARZE, F. W. M. R. et al. Taming the production of bioluminescent wood using the white rot fungus Desarmillaria tabescens. Advanced Science, 2024.

EMPA – Swiss Federal Laboratories for Materials Science and Technology. Refining hardwood by bioluminescence: How to make wood glow, 2024.

New Atlas. Glow-in-the-dark wood passively lights homes or parks, 2024.

Designboom. Wood that glows in the dark using ringless honey fungus, 2024.

 

 


Alessandro Lopes é arquiteto e urbanista, especialista em Inovação, Sustentabilidade, Infraestrutura Urbana e BIM

Alessandro Lopes
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