Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

À margem da flexibilização

Sem a oferta de medidas econômicas e de ações sociais compensatórias será muito difícil alcançar os índices estabelecidos como metas para permitir o retorno das atividades

28 de maio de 2020 - 13:05

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A exclusão das cidades da Baixada Santista do plano estadual anunciado pelo governador João Doria que estabelece, a partir de junho, o início da flexibilização de algumas atividades comerciais frustrou a expectativa de diversos segmentos, que esperavam poder retomar seus negócios e recuperar um pouco das perdas acumuladas ao longo dos mais de dois meses de paralisação em razão das medidas de isolamento impostas pela pandemia de coronavírus.

Justificada pelo fato de não atender aos requisitos mínimos determinados para permitir o afrouxamento das medidas restritivas, que consideram leitos de UTIs disponíveis, taxas de isolamento social e número de pessoas contaminadas, a manutenção da quarentena na região se constitui em grande desafio, visto que, apesar da concordância quanto aos riscos que a propagação do vírus possa oferecer, o prolongamento do período de inatividade começa a se transformar em uma ameaça de igual gravidade para a vida de pequenos comerciantes, autônomos e trabalhadores que, dia após dia, amargam perdas e vêm cada vez mais distante a possibilidade de recuperação no curto e médio prazos.

Mesmo admitindo que a medida visa prevenir o colapso no sistema de saúde das cidades que integram a região metropolitana, também havemos de reconhecer que essa precariedade é fruto de décadas de ausência de investimentos públicos federais e estaduais no setor, que sempre privilegiaram a capital e outras localidades do interior em detrimento os municípios da Baixada, que até hoje são obrigados a remeter para a Santos os casos de média e alta complexidade.

Apesar da boa intenção demonstrada pelo governador em evitar o aumento do número de vítimas decorrente da pandemia, é necessário que ele ofereça contrapartidas efetivas de ajuda à recuperação da economia regional, debilitada ao longo dos últimos anos pelo crescimento do desemprego e empobrecimento das famílias motivado pela retração da economia brasileira, pelo êxodo de indústrias importantes ocorrida no pólo industrial de Cubatão e ausência quase que total de investimentos na infraestrutura local.

Sem a oferta de medidas econômicas e de ações sociais compensatórias será muito difícil alcançar os índices estabelecidos como metas para permitir o retorno das atividades nas condições impostas pelo Governo Estadual, favorecendo a ocorrência da reabertura de negócios à revelia ou de forma camuflada como já se pode perceber nos dias atuais, uma consequência que poderá ocasionar um risco ainda maior do que se pretende evitar.