Ponto de vista
Amar é …
Política é
apaixonante. E, como todas as paixões, pode desaguar em amor ou morrer na
amargura da quarta-feira de Cinzas. Quando se aproximava o final do prazo para
troca de partidos, vimos o amor florescer em erva daninha, sob a forma de corações
despedaçados, flertes juvenis, casamentos e divórcios.
O mercado dos sentimentos na política não nos entrega somente
desilusões. Tem também poesia, pelo menos na inspiração. Que me desculpe o poeta
de Itabira, Carlos Drummond de Andrade, mas os versos de Quadrilha rimam com
esta história de amor.
Marina Silva, por exemplo, amou um dia o PT, que aparece
pela primeira vez na história. Depois, se apaixonou pelo PV. Então, tentou
construir uma Rede de amor próprio. Casou-se com o PSB por interesses.
O PSB é também o novo amor do ex-deputado federal Vicente
Cascione, que antes amava o PTB, que hoje ama o deputado estadual Luciano
Batista, antes apaixonado pelo mesmo PSB, de Márcio França. Cascione chegou a
construir um amor atribulado, em Brasília, com o PT, que aparece de novo na
história.
Em
São Paulo, PSB e PTB amam o PSDB de Geraldo Alckmin, que continua com o
casamento estável. Os três amaram, durante oito anos, o ex-prefeito de Santos
João Paulo Tavares Papa, que amava o PMDB e se casou com o PSDB. Em São
Vicente, todos amaram também o PT, que perturba para ressurgir nesta história.
Na primeira vila do Brasil, o PSB chegou a ser amado por 20
parceiros, na gestão Tércio Garcia. Hoje, parte deles ama o PP do prefeito Luiz
Claudio Bili. Muitos enterraram a vergonha de amar a sigla errada no ano
passado.
O PP
foi um amor de 20 anos do ex-prefeito Beto Mansur, mas não é o primeiro
divórcio dele. Quando governou Santos, o PP era amado pelo PMDB, ex-casa de
Papa que, você se lembra, trocou juras de felizes para sempre com o PSDB.
O
PSDB, por sinal, é filho rebelde do PMDB e teve como um dos fundadores justamente
o atual deputado federal Beto Mansur. Antes do PP, ele amou o falecido PDS.
Hoje, ele ama o PRB, de Celso Russomano e da Igreja Universal, que, em
Brasília, ama o PT, que insiste em se colocar no centro da história, mas também
ama o PP, só que em São Paulo.
Russomano já amou o PP, assim como Beto Mansur, mas antes
amou o PSDC e PFL, que também já amou o PSDB, em tempos de FHC no Palácio do
Planalto. O PL, que veio ao mundo pelo ventre do PFL, ama o PSDB em São Paulo,
mas em Brasília namora com o PT, que sempre se intromete no enredo.
O PT conquistou o PMDB, que sempre amou um marido provedor.
Na prática, todos os presidentes desde o final da ditadura, com exceção de
Fernando Collor, que amou quando Lula era presidente – o PT, personagem
novamente presente no roteiro.
Collor,
que amou o falecido PRN, hoje vive de amores com o PTB, que com FHC no governo
federal, amou o PSDB e, em São Paulo, é um amor para a saúde e para a doença
dos tucanos.
O amor é um sentimento complexo, que nos confunde quando
tentamos explicá-lo. Como defendem os psicólogos, o amor traz consigo um
caldeirão de coligações, perdão, emoções.
Todo
mundo tem uma história de amor. A mais interessante, talvez, seja a de Marina
Silva. Para ela, amar o PSB é uma filiação transitória democrática, expressão
que me lembrou outro poema de Drummond.
Que me perdoe o poeta mineiro, mas amar na política não
é verbo intransitivo. A um ano de eleições, o amor não passa de um substantivo comum,
impregnado de luxúria e, de fato, transitório.