Ameaças cercam o pleito | Boqnews

Ponto de vista

23 de janeiro de 2022

Ameaças cercam o pleito

O que o TSE pode fazer para evitar o uso da máquina pública e a anteci­pação de campanha eleitoral? Para começar, definir limites entre função administra­tiva e função eleitoreira. Os espaços entre ambos se imbricam, mas é possível distinguir palanque eleitoral de canteiro de obras.

Não dá para enganar. Mas tal definição não serve como imunizante para preservar o pleito de ondas corruptivas que costumam inundar os vãos eleitorais.

Analisemos. As eleições deste ano serão as mais ancoradas em dinheiro dos últimos tempos. Os cofres partidários estarão abarrotados com os recursos públicos do fundo eleitoral, cuja previsão é de cerca de R$ 5 bilhões.

As margens serão contempladas com o programa Auxílio Brasil, que terá R$ 89 bilhões, além do Benefício de Prestação Continuada e a Renda Mensal Vitalícia, que pagam um salário-mínimo aos idosos e às pessoas de extrema pobreza. Os pacotes constituem a “bengala eleitoral” do presidente, com a qual pretende conquistar regiões carentes.

Significa que, mesmo em uma economia depauperada e sofrendo uma pandemia sem previsão de final, o Brasil entrará numa “farra eleitoral”, deixando ao largo compromissos com as metas de controle de gastos e crescimento.

Acreditávamos no aperfeiçoamento do processo eleitoral, a partir da abolição das coligações proporcionais, artifício que propiciava a escolha de candidatos sem expressão, puxados por perfis de densos estoques de votos. Mas uma janelinha foi aberta para permitir a continuidade de siglas ameaçadas de extinção. Criou-se a federação de partidos que vai funcionar como um teste para eventuais fusões ou incorporações. Os partidos de poucos votos serão arrastados pelos grandes.

Doações serão permitidas. O desgastado modelo de propaganda eleitoral voltará a buzinar em nossos ouvidos. Fulanos, sicranos e beltranos(as) desfilarão um rosário de promessas, sem atentar que a comunidade política não quer mais ser azucrinada. A crise política, que se finca nas estacas da franciscana modelagem do “é dando que se recebe”, acabou produzindo um antivírus que combate a demagogia, o populismo e as falsidades.

Candidatos abusarão da internet, massificando mensagens pelas redes sociais, desconhecendo que uma comunicação bem-feita é aquela que consegue interação entre os polos emissor e receptor. Sem diálogo, não haverá internalização das propostas.

E, apesar dos cuidados do Tribunal Superior Eleitoral para conter a onda de fake news, com retirada de mensageiros mentirosos do sistema, veremos uma campanha cheia de versões, meias verdades, acusações e denúncias. Será a campanha mais mentirosa de nossa história.

E a lei da ficha limpa aprovada em 2010? Lembremos que passou a ser aplicada nas eleições municipais de 2012. Ganhou a assinatura de quase 2 milhões de pessoas e o apoio do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), criado em 2010.

No Congresso, a norma foi aprovada com 14 dispositivos à Lei Complementar nº 64/1990 (Lei de Inelegibilidade), aumentando as hipóteses de inelegibilidade.

Seu eixo é a garantia da probidade e da moralidade administrativa, com o impedimento candidaturas de políticos que tiveram mandato cassado ou contas referentes ao exercício do cargo rejeitadas por irregularidades. Proíbe que pessoas condenadas em processos criminais disputem eleições.

A partir do dia 1 de janeiro, as pesquisas de intenção de voto devem ser registradas no sistema de registro de pesquisas até 5 dias antes da divulgação, não havendo controles prévios da Justiça Eleitoral. A questão é saber se os Tribunais Eleitorais estarão a postos para controlar a enxurrada de pesquisas encomendadas, disfarçadas, bancadas por organizações.

Após as insinuações do presidente Bolsonaro para desacreditar o voto eletrônico, o TSE tomou todas as precauções para desfazer as correntes críticas, chegando, inclusive, a contratar o general da reserva Fernando Azevedo, que comandou o Ministério da Defesa de Bolsonaro até março deste ano, para o posto de novo diretor-geral do Tribunal.

Uma espécie de salvo-conduto contra eventuais tiroteios do bolsonarismo.

Mais uma medida de controle: os códigos-fonte – programas inseridos na urna para permitir a votação e a totalização dos votos – foram abertos aos partidos e técnicos das legendas, que terão tempo ano para avaliar os softwares que rodam no aparelho.

Outra medida: a criação de uma comissão externa com membros da sociedade civil e instituições públicas para fiscalizar e acompanhar o funcionamento do sistema eleitoral.

Há sabão de sobra para limpar as impurezas. Dúvida: será usado?

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político twitter@gaudtorquato.

Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.