Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

Amizade (II)

21 de julho de 2014 - 10:30

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Quais os valores e sentimentos que devem ser seguidos para fazer e manter amigos? Fazer amigos seguramente é mais fácil do que mantê-los. A simpatia e regras de cortesia facilitam a conquista de amigos. Para manter essa amizade, no entanto, é necessário dedicação, vontade e o caráter de alguém estar sempre se mostrando como realmente é.

Os principais atributos para assegurar uma amizade duradoura são: respeito, consideração, tolerância, confiança e humildade. Ser amigo de alguém a quem não se respeita é extremamente difícil. O respeito precisa ser mútuo e se ele existir em um único sentido, a amizade acaba. A consideração significa estar atento às necessidades do amigo para ajudá-lo a vencer os obstáculos, elogiando e criticando de forma construtiva nas horas certas e de maneira adequada.

A tolerância é saber que seus amigos não são perfeitos. Ter paciência para entender as falhas e saber perdoar quando conveniente é importante para a consolidação da amizade.

Sem a confiança recíproca o relacionamento se deteriora. Gerar confiança continuamente e confiar nos amigos é fundamental. A confiança não pode ser vendida, comprada ou trocada. Às vezes, se leva um bom tempo para conquistar a confiança de alguém e somente alguns segundos para perdê-la.

A humildade exige a predisposição para compreender, antes de querer ser compreendido e perdoar antes de desejar ser perdoado. Nunca ter a arrogância de ser o dono da verdade e nem a subserviência de se humilhar sem necessidade, sabendo valorizar e aceitar as opiniões contrárias facilita a coesão dos laços de amizade.

Deve-se tomar muito cuidado para não transformar os amigos em “saco de pancada” ou “muro das lamentações”. As irritações e lamúrias constantes podem transformar a amizade num fardo pesado demais para se carregar.

Uma das histórias mais comoventes que reflete o verdadeiro sentido da amizade ocorreu num orfanato vietnamita. Após um bombardeio que matou todos os adultos, uma menina de oito anos ficou gravemente ferida, precisando de sangue com urgência. Um enfermeiro americano recém chegado tentou explicar às crianças sobreviventes que precisava de um doador para salvar a menina. Após algumas tentativas, um menino magro e tímido se levantou.

Verificada a compatibilidade do sangue, iniciou-se a transfusão. O médico observou curioso que o menino em alguns momentos soluçava. Perguntou através de gestos se estava doendo e ele disse que não. Ao final do processo o soluço do garoto transformou-se num choro contínuo e silencioso. Com a chegada de uma enfermeira de outra aldeia, o médico pediu que ela verificasse o que estava ocorrendo, pois alguma coisa não estava certa.

À medida que ela conversava com o menino, o choro foi diminuindo e parou. Seu rostinho ficou aliviado. A enfermeira, então, explicou ao médico que o menino havia entendido tudo errado. Ele pensava que ia morrer, pois deveria doar todo o seu sangue para salvar a menina.

O médico, abismado, perguntou por meio da enfermeira a razão dele ter doado o seu sangue, mesmo achando que iria morrer. O menino respondeu com a simplicidade característica das crianças: “Ela é minha amiga”. Felizes daqueles que tiverem a felicidade de contar com um amigo desses!

Texto do livro “A Arte de Conviver”.