Ponto de vista
A arena branca
No mundo globalizado, a Copa do Mundo nunca foi um evento para pobres. A estreia da seleção brasileira reuniu diversos aspectos que marcam, simbolicamente, a elitização do futebol. De saída, o nome do estádio que, agora, se chama Arena, com a ilusão de que o espaço terá como característica a multiutilidade. Em cidades como Brasília, Natal, Manaus e Cuiabá, a versatilidade será a única salvação destes endereços onde o futebol é visitante estrangeiro.
É curioso observar como narradores e comentaristas se esforçaram em chamar o estádio de Arena Corinthians, numa tentativa de derrubar o apelido Itaquerão, que insiste em permanecer nas rodinhas de conversa. Itaquerão, aliás, é bem mais coerente com a localização do campo e suas origens de clube do que com o verniz padrão Fifa.
O processo de construção e transformação de estádios em arenas é mais complexo e profundo do que a escolha de nome ou apelido. O Brasil fez, de dez anos para cá, uma opção clara: limpar os estádios da massa mais pobre e elitizar o público. A ação direta, mais do que reformas incompletas e obras superfaturadas, foi a elevação do preço dos ingressos e de alimentos e bebidas, dentro das arenas.
A desculpa era que o país precisa acompanhar a referência europeia, exemplo de organização e eficiência financeira. Compramos gato por lebre. Nem todos os países europeus vivem no mar de dinheiro, inclusive porque a crise do sistema financeiro não poupou o mercado esportivo.
Mesmo se observarmos as principais ligas da Europa, veremos discrepâncias financeiras. França, Portugal e Espanha são casos claros do abismo que cresce entre os grandes clubes e os demais participantes dos campeonatos.
Alemanha, com a maior média de público (três vezes maior do que a nossa) e Inglaterra, com a maior lucratividade (mais de US$ 1 bilhão por ano), não servem como parâmetros para o Brasil. A dependência dos clubes diante da TV é menor por lá, as gestões são mais transparentes, a organização do torneio é rigoroso e as punições, também.
Com o jeitinho brasileiro, criamos um Frankenstein. As arenas brasileiras são como pão amanhecido, de beleza exterior e mofo por dentro. O país não solucionou as deficiências de infraestrutura e certamente não os fará depois do Mundial. Das comunicações ao sistema de transporte, os governos pluripartidários – basta lembrarmos da comitiva que acompanhou Lula na escolha do Brasil como sede, em 2007 – foram coerentes com a visão política brasileira, arrogante no sentido de se julgar capaz de enganar os gringos e a própria população indefinidamente. A cereja do bolo é cobrar preço de campo de futebol europeu.
A presidente Dilma Rousseff é cúmplice deste caminho escolhido pelo futebol brasileiro. Como seus antecessores, omitiu-se de intervir na gestão do esporte sob a alegação de que a Confederação Brasileira de Futebol é uma entidade privada. Mentira, já que parte dos recursos que a alimentam tem origem no meu, no seu, nos nossos bolsos.
Dilma também foi negligente em defender uma turma que jamais se interessou em planejar e organizar, de fato, uma Copa do Mundo. Assinou embaixo na megalomania de Lula, em defender 12 estádios em endereços que mais se parecem desertos futebolísticos.
A presença de Dilma Rousseff no Itaquerão também foi sintomática para compreendermos quem é o público das arenas. Não é somente uma questão de Copa do Mundo. O Brasil é o 17º país em média de público, atrás da segunda divisão da Alemanha e da Inglaterra e dos Estados Unidos.
Vaiar a presidente é justo e, acima de tudo, democrático. Ofendê-la com palavrões é, no mínimo, grosseiro, mas reflete o comportamento da elite branca teoricamente endinheirada. Basta a postura cotidiana, no trânsito, na fila do restaurante, com os professores do colégio bem pago dos filhos, com os funcionários do prédio onde residem. A mesma turma hipócrita que, em parte, se esconde nas redes sociais para dizer que o gol contra de Marcelo foi “coisa de preto”, mas que carnavaliza quando Neymar marca duas vezes.
Arena ou estádio, o futebol sempre servirá como termômetro da sociedade e de sua dinâmica cultural. Nem campos maquiados ou transmissões ufanistas pela TV são capazes de esconder quem somos.