Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

As nuances da desculpa

05 de agosto de 2011 - 18:25

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O que é mais fácil? Desculpar-se com os outros? Desculpar terceiros? Pedir desculpas a si mesmo? Aceitar desculpas? Dependendo da situação, dos valores, vivências e personalidade do envolvido cada uma delas poderá ser muito fácil ou extremamente difícil de ser utilizada.


Pedir desculpas a si mesmo é um exercício positivo de autocrítica desde que sem exageros. Desculpar-se é pedir a alguém que lhe tire a culpa, desculpar o outro é perdoar seus erros mesmo que ele não tenha se arrependido e aceitar desculpas é dar uma segunda chance ao semelhante.


Entre pessoas em conflito, alguém deveria tomar a iniciativa para solicitar desculpas com sinceridade evitando a radicalização da relação. O ato de pedir desculpas a quem ofendeu e o desculpar a ofensa recebida devem coexistir de maneira inequívoca como os dois lados de uma mesma moeda. Esses comportamentos são importantes e devem ser aplicados sem arrogância, pois muitas vezes não existe um só responsável pelo conflito. A culpa é distribuída entre os dois atores do processo.


A pessoa que decide desculpar-se deve realmente fazê-lo e a melhor forma para isso é assumir a culpa deixando claro que não pretende repetir a ação negativa. No campo pessoal, o ser humano tem todo o direito de não perdoar quem não merece, como, por exemplo, aquele vizinho impertinente e reincidente em sua grosseria que deve ser “deletado” de sua rede de amizades.


Não adianta o meloso pedido de desculpas se a pessoa não se emenda e fica repetindo suas ofensas ao interlocutor. Existem limites para a aceitação de desculpas. Aquele que repete várias vezes o pedido de desculpas perde totalmente a credibilidade, pois não é mais levado a sério.  Quando as desculpas sinceras não existem, a confiança é comprometida, a mágoa e a raiva aparecem, a desmotivação se instala e o relacionamento positivo se evapora.


Uma das emoções que mais corroem a alma é a culpa, independentemente de a pessoa ser ou não culpada. Alguém errou, fez todo o possível para reparar ou minimizar os danos, manifestou claramente ao envolvido o seu arrependimento, não adianta ficar remoendo o erro. “Caiu no inferno e não tem mais jeito, abraça o capeta”. Essa pessoa precisa também desculpar a si mesmo, caso contrário nunca conseguirá esquecer o problema.


Desculpar-se nem sempre é a melhor escolha. Em algumas situações a única coisa que não pode ser feita é pedir desculpas. Uma história verídica sobre o papa João Paulo II exemplifica com perfeição a habilidade de não se desculpar quando isso for desnecessário. “Ele estava conversando com alguns jornalistas e um deles com ironia perguntou: Por que Vossa Reverendíssima construiu uma piscina enorme em sua residência de verão? O papa não acusou o golpe e respondeu com toda a calma: Eu gosto de nadar. Próxima pergunta”.


É sempre importante lembrar que determinadas justificativas ou pedidos de desculpas são totalmente dispensáveis pela simples razão que enquanto os amigos não precisam delas os inimigos não irão acreditar nelas de jeito algum.