Bendito menestrel maldito | Boqnews

Ponto de vista

Foto: Juca Chaves/Divulgação
28 de março de 2023

Bendito menestrel maldito

Em 2004, participei de um concurso literário, cujo tema era “Por que poesia em tempos de indigência”. 

Ao final de meu texto, escrevi: “Por que, então, poesia em tempos de indigência? Porque até as preces, de aflitos, esperançosos e agradecidos, são feitas em verso! Porque as epopeias, que falam da superação de adversidades, são descritas em verso! Porque mesmo o rigor de um dogma e a arrogância dos poderosos não resiste e cede passagem à ousadia de uma licença poética! Porque a razão nos guia no solo firme, mas é a poesia que nos faz voar e ver além da escuridão ou da linha do horizonte!”. 

Poetas, bardos e menestréis tiveram esse papel ao longo da história. 

Na Idade Média, afora o “bobo da corte”, os menestréis eram dos poucos que tinham o direito de ironizar reis e nobres.

Com o tempo, essa licença poética e liberdade de expressão passaram a ser perseguidas e caladas. 

Uma definição de menestrel é: “poeta ou músico que divulga, cantando ou declamando, poemas ou músicas próprios ou alheios; trovador, cantor”.

Juca Chaves assumiu esse papel e passou a ser conhecido como o Menestrel Maldito, por seu sarcasmo e malícia sem freios. 

Juca – com Zé Vasconcellos e Chico Anysio – foi precursor de apresentações solo, hoje conhecidas como “stand up”, e sabia muito bem onde enfiava seu nariz, bem grande, como ele mesmo reconheceu: “Nariz, ai, meu nariz! Como falam mal deste nasal que é tão normal. Ouço diariamente muita gente infeliz dizer que ele é maior do que a miséria do país”. 

Tudo o que produzia tinha sentido direto, arrasador, ou segundas intenções, indecorosas para os padrões da época. 

Seu humor, apesar de cáustico, tinha um certo refinamento, diferentemente de Ary Toledo e do saudoso Costinha, esses mais escrachados e também vítimas do “politicamente correto”. 

Por conta dessa irreverência, foi frequentemente censurado, antes e depois do Governo Militar: “Brasil já vai à guerra, comprou porta-aviões!”, quando o Brasil comprou o navio-aeródromo “Minas Gerais”; “Cai! Cai! Tudo o que se constrói, da Tampa da Gameleira à Ponte Rio Niterói! Cai até o elevado do Dr. Paulo Frontin! Cai o teto do mercado e a moral de quem não tem… Só o biquíni da Jacqueline é caiu porque ela quis”.

Até em Portugal, ele mexeu com um “vespeiro” ao falar de dois burrinhos, Sal e Azar, exortando-os a caminhar: “Anda Sal! Anda Azar! Anda Salazar”, ironizando o ditador português. 

Mas também tinha seu viés “esportivo”: “Pratique esporte dentro do chuveiro. Use o banheiro pra ficar mais forte. Levante halteres com seu cotonete, mas, muito cuidado pra apanhar o sabonete!”. 

Ele era apaixonado por sua arte, o que só foi superado por seu amor por Yara, musa que inspirou uma das músicas mais lindas que já ouvi: “A Cúmplice”.  

Que letra maravilhosa! Alguns dirão que é “machista”, mas, em verdade, é uma reverência absoluta, uma submissão completa ao universo feminino: “No seu falar provoque o silenciar de todos! E seu silêncio obrigue a me fazer sonhar…”. 

Juquinha nos deixou, do alto de seus 84 anos, deixando o Brasil cada vez mais sem graça.

Ele, como outros de sua geração, foram excluídos da mídia convencional, mas estarão na memória dos que entendem que deve haver poesia e humor mesmo em tempos de indigência, de pasteurização de ideias, de patrulhamento cultural. 

Adeus, Bendito Menestrel! 

Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro e pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras

Adilson Luiz Gonçalves
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