Benito di Paula, do piano à lira | Boqnews

Ponto de vista

21 de outubro de 2026

Benito di Paula, do piano à lira

Adilson Luiz Gonçalves

Estatura baixa, cabelo comprido, um bigode e cavanhaque “chineses”…

Ele surgiu de forma arrebatadora na década de 1970, emplacando seguidos sucessos, que eram tocados nas rádios e cantados nas ruas.

Seu jeito de tocar piano era diferente, meio “martelado”. Sua voz grave e melódica, ora vibrante, ora chorosa, “grudava” imediatamente na memória.

Assim era Benito di Paula.

No seu auge, chegou a comandar um programa, o Brasil Som 75, na extinta TV Tupi, em 1975, no qual, além de tocar suas músicas, recebia outros grandes nomes da MPB.

No palco, sua “alma cheirava a talco”, como diz a música de Gilberto Gil e Milton Nascimento. Porém, quando saía dele, demonstrava certa timidez, o que não o impediu, num dos programas, de sentar-se na plateia.

Eu assistia, gostava e cantava.

O programa teve apenas uma temporada. A TV Tupi já dava sinais de um futuro tristonho para aquela que havia sido a primeira emissora de televisão do país. O mesmo cenário que, alguns anos antes, havia extinto a TV Excelsior.

Benito caiu no esquecimento da “grande mídia”, como tantos outros grandes nomes da música brasileira, num tempo em que a mediocridade e a degradação moral são impostas como “cultura de massa”, em que a massa cinzenta tem sido substituída pela de cor marrom.

A década de 1970 foi prolífica em odes ao Brasil:

Em 1970, Dom, da dupla Dom & Ravel, compôs “Eu te amo, meu Brasi”, que virou um hino nas vozes dos integrantes do saudoso “Os Incríveis”.

Benito caiu no esquecimento da “grande mídia”, como tantos outros grandes nomes da música brasileira, num tempo em que a mediocridade e a degradação moral são impostas como “cultura de massa”, em que a massa cinzenta tem sido substituída pela de cor marrom.

Os Novos Baianos, em 1972, cantaram “Brasil Pandeiro”, criação de Assis Valente, em 1941. Martinho da Vila, em 1975, regravou “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira, composta como um samba-enredo da Escola de Samba Império Serrano, em 1964.

Outros cantores também interpretaram clássicos dos anos de 1940, sobretudo de Ary Barroso, como “Aquarela do Brasil!” e “Canta Brasil”.

Benito di Paula resolveu ser autoral e gravou “Charlie Brown” em 1974. Essa música surgiu a partir de uma experiência dele quando morava em Santos.

Ao ver gibis do personagem criado por Charles M. Schulz, ele teve a ideia de ciceroneá-lo numa viagem pelo Brasil.

Aliás, foi em Santos, onde viveu por cerca de dois anos, que Benito, fluminense de nascença, iniciou sua carreira musical, formando seu primeiro grupo e se apresentando na noite santista.

Depois do fenomenal sucesso dos anos de 1970, as aparições de Benito di Paula nas emissoras de TV e rádio passaram a ser esporádicas. Alquebrado, era preciso ampará-lo até o piano, mas só até lá, pois a magia logo voltava.

No entanto, ele nunca deixou a memória dos que amam música brasileira de boa qualidade.

Tanto é que a Escola de Samba Águia de Ouro, de São Paulo, o homenageou, em 2025, com o samba-enredo “Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do Jeito que a Vida Quer”.

Benito nos deixou em 2026.

Certa vez, ele disse que “violão não se empresta a ninguém”. Porém, ao que consta, só teve o piano como instrumento de sua arte. Talvez agora ele aprenda a tocar lira.

Se Deus é brasileiro, Benito ou, melhor, Uday Vellozo, deve ter sido muito bem-vindo!

Adilson Luiz Gonçalves
Adilson Luiz Gonçalves, Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com
✕

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

✕

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

✕

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.