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Opiniões

12 DE JULHO DE 2022

Bocage, a vida passada a limpo

Hugo Almeida

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Com outras palavras, Jorge Luis Borges disse na apresentação de Vidas imaginárias, de Marcel Schwob, que a trajetória de uma pessoa está contida naquele tracinho que liga a data de nascimento à de morte. Ou, como escreveu Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. De certa forma, é isso que o escritor e pesquisador brasileiro Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), mostra na biografia de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), Bocage, o perfil perdido (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2021).

Em pesquisa de impressionante fôlego, paciente, minuciosa, riquíssima em documentação inédita, Gonçalves recompôs em 520 páginas os 40 anos da vida intensa, agitada e contraditória do poeta que não realizou o sonho megalomaníaco de ser um novo Camões, mas entrou para a história da literatura portuguesa.

O livro já havia sido publicado em Portugal em 2003 e foi aplaudido pela crítica especializada.

No prefácio da edição brasileira, Fernando Cristóvão, professor catedrático de Literatura da Universidade de Lisboa, resume em um parágrafo quem foi o poeta: “Bocage, alistado na Marinha, cursou a respectiva Academia, embarcou para a Índia, foi boêmio no Rio de Janeiro, passou três anos em Goa e Damão, desertou fugindo para Macau, regressou a Lisboa, onde a vida livre e as sátiras o atiraram para a prisão e o hospício.

Morreu doente e pobre, traduzindo nos seus versos a sua vida e o seu tempo”. Cristóvão ressalta a importância de Bocage, o perfil perdido: “Foi para historiar e elucidar as contradições e lances da biografia do poeta que Adelto Gonçalves se abalançou a uma pesquisa aturada e sistemática, de que esta publicação dá conta”.

E completa: “O excelente trabalho de agora vai desde o traçado da árvore genealógica da família de Bocage até ao final dos seus dias, facultando-nos abundante documentação”.

II

Cuidadoso, o biógrafo de Bocage checou informações de obras sobre o poeta e encontrou contradições e inconsistências em muitas delas.

Para contestar ou colocar em dúvida afirmações de estudiosos ou contemporâneos do poeta, em várias passagens da biografia, Adelto Gonçalves usa frases e expressões como estas: “Se há algo de verdade nisso tudo, não se sabe porque quem contou não citou fontes documentais”; “Se a história se passou exatamente assim, não é possível assegurar”; “Mas o frade [José Agostinho de Macedo], um gênio irrequieto, de estilo verborrágico e pouco rigoroso, parece que errou na data ou inventou toda essa história”; e “são apenas suposições”.

O biógrafo brasileiro contesta ainda quem via em versos de Bocage episódios da vida do poeta, como a paixão, expressa no poema “A Manteigui”, por Ana Jacques Mondtegui, uma espécie de Hilda Furacão, que se tornara amante de d. Federico Guilherme de Sousa, governador de Goa.

Ela era acusada por vozes anônimas de “entreter luxurioso comércio com um negro, seu escravo, moço bem fornido, ao qual dava de graça o mesmo que o governador só podia comprar por alto preço”. “Mas nada disso está provado”, escreve Adelto Gonçalves. “O que há são cinco sonetos em que Bocage se desmancha em mesuras e elogios ‘à bela Manteigui’, como se quisesse chamar a atenção para o seu amor. Para ele, o ‘rosto gentil’ de d. Ana ‘valia mais que todo o mundo’.”

Gonçalves novamente é cuidadoso: “Por esses versos, alguns biógrafos concluíram que Bocage se apaixonara sem que fosse correspondido. E que, ao se ver desprezado, logo tratou de se vingar como melhor podia. Mas, a rigor, não se sabe sequer se, algum dia, o poeta teve a oportunidade de lhe dirigir a palavra.

Ou se escreveu a peça erótica e satírica apenas com base nas maledicências que ouvia da populaça”. Da mesma forma, ele contesta a afirmação de que d. Federico, ofendido, teria determinado a deportação de Bocage para Macau: “Nada disso, porém, tem base na realidade.” E apresenta dados irrefutáveis, como datas que comprovam sua contestação.

As poucas semanas de 1786 que Bocage passou no Rio de Janeiro (de “imundície e podridão” em épocas chuvosas, escreve o biógrafo, mas de “uma beleza natural inconfundível”) teriam sido suficientes para o poeta cativar a nata da alta sociedade colonial e o vice-rei Luís Vasconcelos e Sousa.

Ao que parece, recebera do vice-rei não só tratamento amável como favores inesperados, revelados em versos elogiosos ao anfitrião. Ele teria também se apaixonado por algumas moças. “Mas nada disso se deve levar em conta como dado biográfico, pois Bocage, como outros poetas setecentistas fortemente influenciados por Quintiliano, Juvenal e Horário, costumava estilizar os elementos da murmuração local”.

III

Quanto a outros possíveis amores de Bocage, entre eles de brasileiras, Gonçalves também levanta dúvidas. De acordo com o biógrafo, muitos críticos confundiram “a personalidade poética de Bocage com o homem”, e endossa seu parecer com palavras do próprio poeta em Rimas, em que alerta “o leitor para fato de que muitos de seus versos haviam sido ‘escritos pela mão do fingimento’ e ‘cantados pela voz da dependência’”.

Cerca de dois séculos depois, Fernando Pessoa escreveria em “Autopsicografia” o verso que se tornou célebre: “O poeta é um fingidor”.
Bocage colecionou amigos e desafetos.

Entrou em 1790 para a Academia de Belas Letras de Lisboa, também chamada de Nova Arcádia, com o nome de Elmano Sadino, um anagrama com o seu primeiro nome e de uma referência ao rio Sado, que banha a sua natal Setúbal.

A admissão na Nova Arcádia impulsionou a carreira do poeta, notabilizado com o livro de estreia, Rimas, publicado em novembro de 1791. Em artigo sem assinatura (“mas que pode ter saído da pena de Macedo”), um jornal fez altos elogios aos versos de Bocage, mas também restrições, ainda que menores do que as belezas do livro.

Durou pouco, contudo, o convívio de Elmano Sadino na Arcádia. De acordo com um biógrafo, Bocage “quis afetar uma superioridade intelectual incômoda e dar leis aos colegas”. Logo se seguiu um duelo de versos, uma risível “guerra dos vates”, entre o poeta e outros acadêmicos, no que resultou a saída de Bocage. “Da refrega, os sócios da Nova Arcádia saíram cobertos de ridículo, pois um soneto de Bocage valia muito mais do que toda a versalhada dos árcades”, escreve Adelto Gonçalves.

No entanto, ao contrário do que sustentam biografias antigas, a “guerra dos vates” não resultou no fechamento da Academia de Belas Letras de Lisboa, que seguiu no papel para o qual fora criada: “o de louvaminhar a família real e a nobreza”.

O autor “de versos satíricos, jocosos e até pornográficos”, de vida desregrada, à margem da sociedade e sem ofício nem ganho regular, “tornava-se alvo fácil para os desafetos”. São tantas as passagens interessantes, inusitadas e curiosas na vida e obra do excêntrico poeta relatadas em Bocage, o perfil perdido que se torna impossível citar boa parte delas.

Algumas ainda precisam ser lembradas, mas o melhor mesmo é ter o livro em mãos para degustar desses episódios, no texto sempre esmerado do biógrafo Adelto Gonçalves que é também romancista.

Um exemplo são os censores reais cultos que analisavam (e às vezes elogiavam) versos de Bocage, algo inimaginável na censura da ditadura militar brasileira do AI-5.

IV

Por causa do poema considerado anticlerical “Verdades duras”, no qual afirma “Céus não existem, não existe inferno/ O prêmio da virtude é a virtude, / É castigo do vício o próprio vício”, Bocage amargou seis meses de prisão. Nesses versos, ele antecipa em mais de 70 anos o que diria Allan Kardec em O céu e o inferno, de 1865, em que nega o castigo eterno pregado pela Igreja Católica. De acordo com Hernâni Cidade, em Lições de cultura e literatura portuguesa (Coimbra, 1968), citado por Adelto Gonçalves, o Deus de Bocage “não era o Deus que horroriza a natureza nem o Deus do fanatismo ou da impostura, era antes o Deus que consola a Humanidade, o Deus da Razão, criado pela filosofia anticatólica do século XVIII.

Ao tratar do fim do poeta, Adelto Gonçalves faz, no capítulo 21 da biografia, menção indireta ao romance Crônica de uma morte anunciada, de García Márquez. De fato, a vida peregrina, dissoluta e incerta de Bocage arruinou sua saúde e aos 40 anos parecia um velho talvez de 70 ou mais, de rosto descarnado, como foi retratado por um artista, possivelmente a imagem que ilustra a capa do livro, embora a edição não registre sua autoria.

Foi um aneurisma que levou Bocage e deixou na miséria sua dileta irmã Maria Francisca, que foi vítima de furto de originais do poeta e sobreviveu ainda 35 anos, sempre à custa de empréstimos nunca honrados de um amigo do irmão célebre.

Se a história das pessoas está contida no hífen entre o ano de nascimento e o de morte, a de Bocage em O perfil perdido, no entanto, vai além: é precedida por reticências antes e seguidas depois dessas datas, abarca quase um século anterior ao da chegada do poeta e dois séculos após a partida, com a sua fortuna crítica. Um livro que enriquece bibliotecas, a história da literatura portuguesa e o conhecimento humano.

Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 páginas, R$ 85,00, 2021. Site: https://livraria.imprensaoficial.com.br/
Adelto Gonçalves (1951) é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). É autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d’El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros.

Hugo Almeida (1952) é escritor e jornalista mineiro radicado em São Paulo, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Organizou o volume de ensaios Osman Lins: o sopro na argila (Nankin, 2004) e as coletâneas de contos Nove, novena: variações (Olho d’água, 2016) e Feliz aniversário, Clarice (Autêntica, 2020), selecionado pelo PNLD-MEC de 2021. Publicou mais de mais de dez livros de ficção, entre eles o romance Mil corações solitários (Prêmio Nestlé-1988) e os infantojuvenis Viagem à Lua de canoa, incluído no PNBE de 2011, Porto Seguro, outra história (2005) e Meu nome é Fogo (2007). Certos casais, seu quarto livro de contos, foi lançado em 2021 pela editora Laranja Original, de São Paulo. Detalhes podem ser vistos aqui: https://bit.ly/livroCertoscasais

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