Bom dia, por favor | Boqnews

Ponto de vista

23 de setembro de 2011

Bom dia, por favor

O
amor pelas palavras me transformou em um caçador. Uma missão que beira a
doença, ainda que reconheça ser ilusão procurar no outro o que pode estar em mim. Passei a caçar as
expressões que antes soavam como triviais, até mecânicas no trato diário da
vida ordinária.

Bom
dia, boa tarde, boa noite. Por favor. Obrigado. Desculpe-me. Palavras como
relíquias em feira de antiguidades. Vocabulário que, em breve, poderá
interessar a arqueólogos e historiadores. Termos que beiram a pieguice na
perspectiva de muita gente.

O
elevador serve como termômetro. O endereço inevitável do encontro. Segundos de
músculos tensos para quem está acompanhado, uma prece para vivenciar a solidão por
alguns andares. Entro em um elevador e mal acontece o olhar de retorno. De muitas
bocas, ouço vozes que mais se parecem ruídos. Grunhidos que representam a
tentativa de cumprir uma convenção social.

Vivemos
em um mundo onde se comunicar é uma das ações mais rápidas e funcionais.
Andamos pendurados com celulares nas orelhas. Dedos que, como imãs, correm com
neurose pelos teclados. A tecnologia nos permitiu acreditar na redução do tempo
e o espaço a zero. Somos obcecados pelo instantâneo, mas também incompetentes
para sobreviver sem o imediato.

O
medo do humano parece ter se instalado nas relações cotidianas. O comportamento
lembra crianças pequenas em ambientes novos. Presas no silêncio, agarradas na
vergonha da exposição diante do desconhecido. O problema talvez esteja na
redução do contato olho no olho, enquanto nos tornamos tagarelas virtuais.

Responsabilizar
a tecnologia é transferir a culpa, sem deixá-la para trás ou exorcizá-la. Mascaramos
o comportamento de quem encena civilidade. Cumprimentar alguém está além do
exercício da cortesia ou da obrigação traduzida em sons inaudíveis no elevador,
na porta do prédio ou na padaria.

Cobramos
educação alheia. Reclamamos de brutalidade nas relações do dia-a-dia. Cínicos
somos porque pretendemos uma posição que tangencia aos conflitos, como se não
fizéssemos parte da ciranda tóxica.

Quando
a posição do sujeito ganha o sentido de status, cumprimentar é selecionar. Onde
trabalho, muitos funcionários e alunos desenvolveram uma das habilidades do
Superman. A visão de raio-X os permite enxergar através de outros empregados. O
uniforme catalisa o poder de tornar outra pessoa invisível. O diálogo existe
somente quando a necessidade aperta.

A
posição social também define se haverá retratação ou reconhecimento do erro.
Tenho um amigo, que apresenta um comportamento particular: jamais se desculpou
na vida. Não que bata no peito com orgulho, mas os anos de convivência dão a
impressão de que ele não aprendeu a palavra em português.

O
ciclo se fecha com a raridade do obrigado. Fazer um favor, atender a um pedido
ou cumprir uma obrigação não diferenciam o agradecimento. A gratidão se perde,
no entanto, quando prevalece a crença de que todos os cenários resultam em
tarefas cumpridas. Um exercício de arrogância para quem deveria agradecer, mas
segue afogado na empáfia de supor que pronunciar obrigado pode ser sinal de
rebaixamento.

Adoraria
defender a ideia de que sofro de surdez ou careço de interpretação adequada.
Ouvindo ou não, prefiro insistir nas “palavrinhas mágicas”, como diziam meus
pais, mesmo que caiam no vazio da ausência da resposta. O constrangimento fica
a cargo de quem decidiu emudecer.  

Da Redação
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